A decisão surpresa sobre as taxas de juros no Brasil, nesta semana, fez muitos traders dizerem: já estive nessa situação, já vi isso antes. E não funcionou.

A decisão do Banco Central de manter a taxa estável em 14,25 por cento diante do aumento da inflação -- apenas 10 dias depois de o presidente do BC, Alexandre Tombini, ter prometido fazer o que fosse necessário para levar a taxa de volta para a meta -- surpreendeu os economistas, sendo que a maioria havia previsto uma elevação.

Isso fez as expectativas do mercado para a inflação atingirem o nível mais alto em pelo menos três anos.

Para os observadores de longa data do Brasil a decisão lembrou um movimento similar ao que aconteceu em agosto de 2011, que muitos apontam como a gênese da alta inflação de hoje.

Na ocasião, quando o governo iniciou um impulso para controlar a inflação, que estava acima da meta, por meio de regulação de preços, a autoridade monetária surpreendeu os investidores com um corte inesperado. Foi o início do ciclo de redução de 13 meses no fim do qual a taxa caiu para o recorde de 7,25 por cento.

“Começando em 2011, o ciclo de cortes foi além do que a economia permitia”, disse Leonardo Monoli, sócio da Jive Asset Gestão de Recursos em São Paulo. “Daquele ponto em diante, o governo passou a administrar o país olhando o dia a dia, e não pensando mais estruturalmente no futuro. Houve várias medidas pontuais que foram resolvidas criando mais problemas”.

Os mercados não ficaram contentes na época e não estão contentes agora. O real, já o maior perdedor de 2015 entre as principais moedas do mundo, caiu 1,4 por cento na quinta-feira e se aproximou do nível mais baixo registrado.

A oscilação lembrou uma queda similar no dia seguinte à decisão de agosto de 2011. A taxa de inflação implícita, uma medida das expectativas dos traders de bonds para a inflação até 2018, subiu 0,3 ponto percentual, para 10,66 por cento, mostram dados compilados pela Bloomberg.

Após a decisão sobre os juros, o Goldman Sachs se uniu ao Barclays e advertiu que uma nova rodada de flexibilização poderia não estar tão distante, um movimento que para os economistas ortodoxos pode parecer impensável no momento em que a inflação anual se aproxima de 11 por cento.

O índice já é mais de duas vezes maior que o centro da faixa-meta do BC, de 4,5 por cento.

“Eu não me surpreenderia se o BC começasse a falar em cortar a taxa Selic”, disse Alberto Ramos, economista sênior do Goldman Sachs, de Nova York.

A verdade é que a economia está enfrentando alguns obstáculos bastante severos que poderiam, com o benefício da retrospectiva, algum dia provar que o BC estava sendo prudente em vez de arbitrário. A economia do Brasil deverá encolher 2,8 por cento neste ano após uma contração estimada de 3,7 por cento em 2015, segundo economistas consultados pela Bloomberg. E a perspectiva de crescimento da China, maior parceiro comercial do Brasil, está pesando sobre as economias e os mercados globalmente.

Mas o problema que muitos investidores citaram -- e ao qual o mercado ultimamente estava reagindo -- foi a falta de clareza em relação à prioridade do Banco Central: crescimento ou inflação.

Manter a taxa estável “vai contra o relatório hawkish de inflação e da carta aberta de Tombini na qual ele explicou ao ministro da Fazenda por que o BC excedeu massivamente o topo da faixa-meta da inflação”, disse John Welch, estrategista da CIBC World Markets, de Toronto. “A decisão atrasará mais a convergência da inflação para a meta do BC e manterá as dinâmicas dos preços em um território perigoso”.

A chave da preocupação dos investidores é que a repentina mudança de tom de Tombini cheira a interferência política, disse Paulo Vieira da Cunha, economista-chefe da Ice Canyon em Nova York e ex-diretor de relações internacionais do BC.

“Havia razões para deixar a taxa onde estava, desde que a comunicação do BC enquadrasse explicitamente a causa fiscal da deterioração das expectativas”, disse ele, de Nova York.

A assessoria de imprensa do BC preferiu não comentar.

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