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Por Cláudio Gradilone
São Paulo (Reuters) - Até poucas horas atrás, a palavra Dubai parecia evocar um milagre econômico. A mais conhecida das sete monarquias que formaram os Emirados Árabes Unidos no início dos anos 1970, Dubai parecia congregar o melhor de vários mundos.
Um país pequeno (83 mil quilômetros quadrados), com pouca gente (4,7 milhões de pessoas) e com um subsolo riquíssimo em petróleo, Dubai parecia fadado a ser mais uma das ditaduras árabes em que uma minoria usufrui dos petrodólares e a massa da população vive na miséria das tendas. Esse script, porém, não valeu.
Os Emirados não apenas atingiram um elevado padrão de vida como também conseguiram algo raro para um país árabe. Sua economia reduziu a dependência do petróleo. As faraônicas construções não são palácios reais, mas hotéis e sedes de bancos.
Mais do que tijolos e concreto, Dubai conseguiu firmar-se como um centro financeiro regional, ao oferecer um ambiente favorável aos negócios e uma sociedade islâmica aberta. Por isso a forte repercussão da notícia que circulou nesta madrugada, de que a holding Dubai World estava tentando postergar o pagamento dos 59 bilhões de dólares em dívidas.
Com cerca de 80 bilhões de dólares em ativos, a Dubai World é o veículo de investimentos do governo do emirado que permite aos investidores internacionais participar, por exemplo, da construção de hotéis, resorts e marinas às margens do Golfo Pérsico. Julgava-se que as reservas em moeda forte de Dubai tornavam sua economia tão sólida quanto seus hotéis.
Financiar essas construções requer muito capital, dinheiro grosso até mesmo para um país rico em petróleo. Por isso o pesado endividamento do Dubai World, que financiou alguns dos mais suntuosos hotéis do mundo por meio da emissão de títulos no mercado internacional.
A empresa atravessou bem os piores momentos da crise graças às suas abundantes reservas em moeda forte e à recuperação recente dos preços do petróleo. No entanto, a retração econômica drenou recursos e desviou investimentos dos países emergentes, o que mostrou-se pesado para o Dubai World.
O impacto sobre o Brasil deverá ser pequeno. Além de as duas economias serem pouco conectadas, os investidores brasileiros ainda não descobriram o mercado islâmico. Ao contrário, as incursões dos bancos brasileiros no Oriente Médio são muito mais para buscar dinheiro do que para investir. Mesmo assim, é essencial falar de Dubai.
RISCOS CONTINUAM
A súbita inadimplência de um participante do mercado financeiro tido como inabalável mostra que os riscos da crise ainda estão longe de acabar. Demorou, mas a desvalorização dos imóveis e a retração dos mercados vergaram o Dubai World. Novos casos podem ocorrer, e, principalmente, podem ser gerados pelas condições atuais.
Já se discutiu à exaustão como os pacotes de ajuda governamentais injetaram trilhões de dólares em uma economia global sem demanda. Um dos efeitos colaterais negativos dessas políticas é a possibilidade de captar dinheiro barato para financiar qualquer iniciativa.
Em um artigo recente, Bill Gross, diretor do fundo norte-americano Pimco, o maior do mundo, lembrou que alguns fundos estão oferecendo um rendimento líquido de 0,01 por cento ao ano. Nesse passo, um investidor demoraria 6.932 anos para dobrar seu capital, diz Gross.
Poucos têm tanta paciência ou tanto tempo --entre os patriarcas bíblicos, nem mesmo Matusalém chegou aos mil anos de idade-- o que estimula uma busca pelo risco. Com dinheiro abundante e barato, aumenta a possibilidade de geração de novas bolhas especulativas rapidamente.
Os juros baixos nas principais economias podem acentuar surtos incontroláveis de alavancagem, com consequências imprevisíveis. Ou seja, cumpre estar atento às lições que Dubai pode nos ensinar.
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