São Paulo - As indústrias do centro-sul do Brasil começam a fazer as primeiras consultas para uma possível importação de etanol anidro dos Estados Unidos, preocupadas com a perspectiva de um balanço apertado entre oferta e demanda na entressafra, apontaram executivos e fontes do setor.

Apesar de a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) estimar um crescimento de 25 por cento na produção de etanol anidro nesta safra do centro-sul, a situação de oferta dependerá muito das condições climáticas até o final da temporada 2013/14, na avaliação do diretor da trading de etanol Greenergy Brasil, Nelson Ostanello.

"Se tiver mais dias de chuva do que a média, provavelmente vai se produzir menos do que o estimado e com um rendimento industrial abaixo do previsto, isso pode vir a afetar algumas usinas, que talvez precisem importar", disse Ostanello.

Existe uma corrente no mercado, acrescentou ele, estimando que haverá um déficit na entressafra do centro-sul --entre dezembro e o final de março-- na faixa de 500 milhões de litros de etanol anidro, biocombustível misturado à gasolina no país.

Esta corrente, segundo ele, considera que o déficit poderia ser coberto parcialmente com a desidratação do etanol hidratado (usado nos carros flex). Mas ele pondera que esta é uma alternativa que traz outras complicações, porque depende da disponibilidade de bagaço, energia e do período de manutenção das destilarias.

A outra alternativa, acrescentou, seria importar o etanol de milho dos EUA, que em meio à grande safra do cereal conta com boa disponibilidade do biocombustível, o que vem pressionando os preços locais.

Primeiras Consultas

O analista da INTL FCStone Renato Dias também considera que a situação de oferta de etanol na entressafra vem preocupando o setor.

"Existe uma possibilidade de o Brasil importar etanol. O balanço (de oferta e demanda) do etanol se aproxima do aperto no centro-sul... Hoje, a perspectiva (na entressafra) é de aperto", analista da INTL FCStone.

Para abastecer o mercado neste período, o setor começa a sondar a possibilidade de importar o produto, se a situação de oferta e o custo logístico tornarem mais atrativo para as empresas trazer o etanol de milho dos EUA, maior produtor global do biocombustível.

"A tendência é ter volumes mais notórios (de entregas) a partir de janeiro", disse o analista, da FCStone.

Para algumas empresas, dependendo da dinâmica operacional --ou seja, do sistema logístico de cada uma-- trazer o produto dos EUA pode ser financeiramente mais atrativo, numa operação que pode até dar lucro, explicou o analista.

Fonte de uma outra trading de etanol disse à Reuters, na condição de anonimato, que as primeiras compras já estão sendo feitas. "Estas (as importações) têm previsão de entrada entre janeiro e fevereiro para atendimento ao Norte e Nordeste", afirmou a fonte, acrescentando que são volumes maiores do que aqueles vistos um ano atrás.

A expectativa é que as entregas em fevereiro sejam feitas no Brasil com valores em torno de 520 dólares preço FOB, posto no porto. Segundo ele, a questão não está apenas ligada ao preço, mas principalmente à preocupação com o volume disponível para abastecer o centro-sul.

"O volume excedente tem, mas poderá ficar de reserva para qualquer alta (de demanda) no centro-sul decorrente de aumento da gasolina, por exemplo." Nos cálculos da fonte, até a semana passada os volumes previstos para entregas já somavam cerca de 80 milhões de litros, entre Belém e Alagoas.

O presidente da consultoria Datagro, Plinio Nastari, ponderou que a importação de etanol ocorrerá quando os preços relativos permitirem, mas não será generalizada, sendo restrita a algumas localidades, especialmente Norte e Nordeste.

Ele explicou que na entressafra, quando os preços internos aqui sobem um pouco e a taxa de câmbio favorece, é viável a importação. "E isso tem ocorrido", acrescentou.

Em 2011/12, ano de quebra de safra no centro-sul, a importação foi de 1,43 bilhão de litros, segundo Nastari. Em 2012/13 foi 213 milhões de litros. "Estamos prevendo que neste ano a importação seja de 210 milhões de litros", acrescentou Nastari, para quem o centro-sul terá estoques de etanol suficientes para mais de um mês de consumo logo no início da próxima safra.

Tópicos: Cana de açúcar, Economia brasileira, Energia, Etanol, Biocombustíveis, Commodities, Combustíveis, Comércio exterior, Exportações