Budapeste - Bodvalenke, um lugarejo no nordeste da Hungria, deveria ser um símbolo de possibilidades para os ciganos, a maior minoria étnica da Europa.

Quando artistas ciganos começaram a pintar murais coloridos nas casas da vila, quatro anos atrás, atraindo a atenção da mídia, chegaram ofertas de ajuda e apoio à comunidade pobre, vindas de empresas e voluntários. Turistas começaram a chegar também para ver os trabalhos de arte.

Hoje, com o projeto do mural chegando ao fim, as ofertas de ajuda produziram apenas 11 empregos para os 82 adultos em idade de trabalhar na vila, em um projeto local de biocombustível. Ele começou apenas neste mês. Os turistas não ficam muito tempo, porque a cidade não possui hotéis ou restaurantes.

“Vivemos da ajuda do governo”, disse a moradora Jozsefne Rusznyak, 50, mãe de 13 filhos, 10 ainda vivos, nenhum deles com trabalho. Alguns se mudaram de Bodvalenke. A família tece cestas para ganhar algum dinheiro extra, disse ela.

Países na Europa Central e nos Bálcãs ganhariam um agregado de até 10 bilhões de euros (US$ 14 bilhões) anualmente se os ciganos tivessem acesso igualitário a empregos, segundo um relatório de 2010 do Banco Mundial. Ainda assim, os esforços de larga escala para ajudar os ciganos estão fracassando após oito anos corridos de uma década de esforços dos governos europeus para atacar o problema, segundo Marton Rovid, do secretariado da Década da Inclusão dos Ciganos, em Budapeste.

Projeto Cigano

“É positivo que o problema tenha sido reconhecido, mas há um consenso de que não houve avanço na redução da diferença entre os ciganos e os não-ciganos”, disse Rovid, por telefone.

Ele ajuda a coordenador uma campanha iniciada em 2005 por 12 governos europeus, a maioria do Leste, para tirar os ciganos, que somam estimados 11 milhões na Europa, da pobreza. Os ciganos vieram originalmente da Índia e agora vivem em cada um dos países da União Europeia, exceto Malta, segundo dados do Conselho da Europa.

A discriminação é tão ampla que na República Checa, com uma população cigana estimada pelo Conselho da Europa em 200 mil, apenas 5.199 disseram no censo de 2011 que se consideravam ciganos, segundo o relatório do governo checo sobre progresso de inclusão do ano passado. Em 2012, 11,4 por cento dos candidatos ciganos a empregos encontraram trabalho, menos que os 17 por cento de 2011, disse o relatório, usando cálculos do Ministério das Relações Sociais e de Trabalho.

‘Efeito mínimo’

“Os projetos de inclusão têm um efeito mínimo”, disse Madalin Voicu, um legislador cigano de Bucareste, por telefone. Os projetos são atrasados, disse ele, pelo incentivo para que a minoria siga sob ajuda social porque os salários são muito baixos, e também por causa da falta de vontade de alguns líderes ciganos de se envolverem com o projeto. “Nós estamos falando de mudanças que levam 10 ou 20 anos”.

Em Bodvalenke, o 33º mural, o último planejado, está sendo concluído. As pinturas representam canções locais e o cotidiano, além das perseguições que os ciganos enfrentam. Todas estão em cores vivas, que contrastam com as vidas sombrias das pessoas na vila, onde a maior parte das casas não possui água corrente.

“Nós quisemos atrair a atenção para a discriminação e para a pobreza abjeta”, disse Eszter Pasztor, uma voluntária não cigana que organizou o projeto Fresco Village. Os moradores vivem com uma ajuda do governo de menos de US$ 2 por dia, metade do que eles costumavam conseguir, segundo seus cálculos, baseados em uma pesquisa porta a porta.

Pasztor, 60, disse que está sendo feito progresso. Os tutores voluntários melhoraram o desempenho educacional das crianças, que contam cerca de metade da população da vila. O Festival do Dragão anual da vila se tornou uma atração turística. E a vila está esperando obter subsídios da UE para a construção de um restaurante e uma hospedaria. No processo, um senso de comunidade foi estabelecido entre os moradores ciganos, disse Pasztor.

“Se pudermos encontrar uma solução em uma aldeia, podemos encontrar uma solução em qualquer lugar”, disse Pasztor. “Pelo menos nós estamos no mapa agora”.

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