A indústria de energia renovável do Brasil deverá sofrer um revés neste ano. Isso porque a economia em crise faz o crédito desaparecer, limita a demanda por energia e ameaça as novas linhas de transmissão necessárias para conectar projetos à rede.

Após anos de crescimento, que transformaram o Brasil no 10º maior mercado eólico do mundo, o setor está revisando para baixo o montante da nova capacidade esperada para 2016, juntamente com o número de novos projetos eólicos que deverão receber contratos em leilões do governo.

A presidente Dilma Rousseff enfrenta uma série de problemas, entre os quais o vírus Zika, a taxa de inflação, que subiu para 10,8 por cento, e a desvalorização de 35 por cento do real nos últimos 12 meses. 

A expansão do setor de energia limpa tem sido uma das poucas agendas positivas do governo, que estabeleceu metas de crescimento ambiciosas para ampliar a capacidade de geração sem aumentar a poluição por combustíveis fósseis. 

É possível que seja mais difícil atingir essas metas agora, segundo Marcelo Girão, chefe da área de energia do setor de financiamento de projetos do Itaú BBA.

“Há nuvens no caminho da energia renovável agora”, disse Girão em entrevista. “O setor está no topo da lista de prioridades do governo brasileiro e tem progresso a mostrar, mas a receita que temos para as renováveis pode ser menos efetiva em um ambiente mais cinzento”.

Os novos contratos de energia limpa nos leilões provavelmente não chegarão a 2 gigawatts neste ano, segundo Helena Chung, analista da Bloomberg New Energy Finance em São Paulo. 

Essa quantidade mostraria uma estabilização do crescimento nos últimos dois anos e representaria menos da metade dos 4,6 gigawatts em novos contratos eólicos de 2013.

A New Energy Finance revisou sua projeção para a entrada em operação de novos parques eólicos em fevereiro. 

Cerca de 3 gigawatts em capacidade de projetos já em desenvolvimento serão conectados à rede neste ano, 1 gigawatt a menos que a estimativa anterior.

A energia eólica teve uma forte expansão no Brasil, atingindo 9 gigawatts de capacidade instalada no ano passado, a maior da América Latina e a 10a no mundo. 

Em 2013, a capacidade total era de um terço disso, segundo a Abeeólica, a associação do setor no país.

O governo está ajudando a impulsionar esse crescimento e estabeleceu uma meta no ano passado de obter 23 por cento da energia do Brasil por meio de fontes renováveis até 2030 como parte do esforço de combate à mudança climática. 

As energias solar, eólica e da biomassa responderam por 9 por cento da geração total do Brasil em 2014.

O Brasil também se comprometeu, em junho, a reduzir as emissões de carbono em 37 por cento até 2025 na comparação com 2005.

“Estou preocupada”, disse Chung, da BNEF. “O governo brasileiro se negou a dar mais incentivos à energia renovável, assim como vem negando a outros setores. Isso tem muito a ver com a crise econômica e a desaceleração do setor de energia pode enviar um sinal ruim ao mercado”.

Classificações junk

O financiamento também será um desafio depois de a Moody’s Investors Service reduzir a classificação de crédito do Brasil em dois níveis na semana passada, tirando do país sua última nota com grau de investimento. 

A Standard Poor’s e a Fitch Ratings já haviam cortado seus ratings para níveis junk depois que a queda dos preços das commodities de exportação e um escândalo de corrupção histórico levaram a economia brasileira à contração mais aguda em mais de um século.

“O dinheiro está mais caro e a régua de crédito, mais alta”, disse Girão, do Itaú. “Os mercados de capitais estão restritivos. Nossos desembolsos vinham numa crescente, mas agora vão começar a descer a ladeira”.

A Empresa de Pesquisa Energética do governo brasileiro, conhecida como EPE, planeja três leilões de energia neste ano. Foram realizados sete em 2015, quando o Brasil enfrentou uma seca recorde que esvaziou os reservatórios mais importantes do país e reduziu a geração hidrelétrica.

“O problema agora é a queda da demanda de energia devido à contração da economia”, disse Maurício Tolmasquim, presidente da EPE, por telefone, do Rio de Janeiro. 

“As distribuidoras que compram energia em muitos leilões já têm a capacidade que precisam. Nos próximos leilões certamente veremos uma baixa demanda por energia”.

“É difícil quantificar o tamanho da desaceleração econômica do Brasil e isso gera um ambiente de incertezas”, disse Lucas Araripe, diretor de novos negócios da desenvolvedora Casa dos Ventos Energias Renováveis, em entrevista por telefone. “Há um ajuste no curto prazo sobre o qual realmente ninguém sabe ainda”.

Outro desafio é a expansão das linhas de transmissão, necessária para conectar projetos de energia limpa à rede. 

Cerca de 220 projetos de linhas de energia estavam com cronograma atrasado até dezembro, cerca de 60 por cento da capacidade total em desenvolvimento, segundo um documento da reguladora do setor de energia do Brasil, a Aneel. As dificuldades para obtenção de licenças ambientais provocaram a maioria dos atrasos, segundo o documento.

“Não há forma de aumentar a geração de energia sem linhas de transmissão”, disse Girão.

O governo poderá conter parte do declínio neste ano por meio de um leilão de reserva, segundo Tolmasquim. 

Nesse tipo de leilão o governo compra capacidade para garantir a estabilidade do sistema energético. A EPE está planejando um, mas não há data estabelecida.

“O setor de energia renovável no Brasil não é imune à crise, mas é resiliente”, disse Tolmasquim. “Este é um dos setores menos prejudicados pela crise”.

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