São Paulo - Desde o ano passado, o economista Paul Kriss, responsável pela área de infraestrutura do Banco Mundial no Brasil, tem percorrido o país para acompanhar o andamento dos principais projetos em construção. Antes de vir ao Brasil, Kriss passou quatro anos na China, também dedicado à área de infraestrutura.

Entre as principais recomendações do especialista para o Brasil está o foco na implantação dos projetos. Segundo ele, a disponibilidade de recursos financeiros não é o principal problema da infraestrutura brasileira. 

EXAME - Quais são os principais problemas que causam a baixa taxa de investimentos em infraestrutura na América Latina? O Brasil, por exemplo, investiu algo em torno de 2,2 % do PIB nos últimos anos.

Paul Kriss - O nível de investimentos em infraestrutura no Brasil tem sido baixo. O país está tentando retomar um patamar de grandes projetos em carteira de maneira acelerada. Mas isso não é uma tarefa fácil. O principal problema não é apenas o volume de investimentos, mas o ritmo de sua implantação.

Uma maneira de acelerar os investimentos é com mais concorrência. Além disso, um sistema de incentivos para o desempenho eficiente e multas por atrasos ajudaria a garantir a rápida conclusão dos projetos. Quando se olha para os países com nível semelhante de PIB, seus ativos de infraestrutura e os investimentos são significativamente maiores do que os do Brasil.

EXAME - Como acelerar essa taxa de investimento?

Paul Kriss - O governo tem ampliado substancialmente os recursos, o que é um bom começo. No entanto, há uma limitação grande na capacidade de absorver e executar os projetos. Portanto, uma melhor preparação dos projetos técnicos e documentos de licitação ajudariam a aumentar o ritmo de investimentos.

Em vários setores e estados é necessário maior capacidade para realizar os investimentos anunciados pelo governo nacional . Com mais capacidade e garantias de que equipes experientes terão mais tempo para preparar os projetos, o governo conseguirá minimizar os custos excessivos e também as disputas com os empreiteiros.

O chamado "Custo Brasil" também deve ser mencionado como um obstáculo para o investimento, pois afeta o preço final dos produtos e serviços.

EXAME - Como o senhor avalia a participação de empresas privadas na infraestrutura brasileira?

Paul Kriss - As empresas privadas estão participando de diferentes formas na construção de infraestrutura no Brasil. Acredito que alguns são mais bem sucedidos do que outros. A tarefa não é fácil. 

EXAME - Há espaço para aumentar essa participação? Como?

Paul Kriss - Sempre há espaço para melhorar a participação da iniciativa privada. No entanto, é preciso perguntar-se a que custo. Se as empresas não estão dispostas a assumir mais riscos a um custo que é aceito pela população, haverá uma incompatibilidade de mercado. 

EXAME - Qual é o melhor mecanismo para financiar a infraestrutura?

Paul Kriss - Existem muitas estimativas sobre valores e modelos para melhorar a infraestrutura mundial. Embora variando em escala e foco, as estimativas apontam para a mesma direção: o setor público sozinho não pode fornecer volumes de financiamento suficientes.

O setor privado deve ser envolvido. Nós temos muitas recomendações para diferentes situações e diferentes países. Somos um parceiro no desenvolvimento da infraestrutura do Brasil há muitos anos.

EXAME - O financiamento de grandes projetos é um problema para o Brasil?

Paul Kriss - O setor privado tornou-se uma importante fonte de financiamento.  Mas as experiências da década de 90 mostraram que ele não pode substituir totalmente o poder público. O estado é fundamental para a infraestrutura, seja como responsável pela obra, seja como regulador.

Na China e no Brasil, uma grande parcela da infraestrutura é financiada pelos bancos nacionais de desenvolvimento. Em outros países, os fundos de investimento privados operam com amplas garantias públicas. Aqui, vejo a execução como um problema maior do que o financiamento.

EXAME - O que o Brasil pode aprender com a China?

Paul Kriss - Os brasileiros deveriam aprender com o jeito que a China constrói infraestrutura. Eles são mais rápidos e competitivos do que vemos aqui: o plano deles é atualizado mensalmente e cada cidade tem planos que depois são agregados em um nível nacional. A China funciona com metas. Seria bom se alguns governos brasileiros olhassem o modelo chinês, porque os países são similares.

EXAME - Quais são os melhores exemplos de melhoria da infraestrutura na América Latina?

O Chile é um dos melhores exemplos. O país foi capaz de investir e modernizar sua infraestrutura rapidamente. Eles introduziram a concorrência na construção e foram capazes de manter o setor privado operando de uma maneira eficiente.

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