São Paulo - O crescimento da renda das famílias brasileiras tem impulsionado não só o volume de vendas de veículos, mas de veículos mais bem equipados que alguns anos atrás, o que tem obrigado montadoras instaladas no país a incrementar suas ofertas diante da concorrência de importados mais recheados e de exigência cada vez maior dos consumidores.

Equipamentos antes referência de veículos mais luxuosos como câmbio automático, freios ABS, airbags e sensores de estacionamento estão se popularizando e começam a se tornar itens que já saem de fábrica, após figurarem por muito tempo como opcionais em lojas no país. Isso antes da obrigatoriedade de inclusão de ABS e airbags nos automóveis produzidos no Brasil a partir de 2014.

A tendência vem se fortalecendo diante de um mercado interno que deve voltar a bater recorde de vendas em 2012 e de um quadro cambial que favorece importação de modelos mais sofisticados que chamam atenção dos consumidores e obrigam o governo a tomar medidas para conter o fluxo de veículos vindos do exterior, segundo analistas consultados pela Reuters.

"Brasileiro não quer mais saber de carro 1.0", disse a diretora da consultoria MB Associados Tereza Fernandez. "A indústria vai ter que melhorar nossos produtos, não tenho a menor dúvida. Estamos fabricando carroças".

Um exemplo do quadro é o novo sedã Cobalt, da General Motors, cuja versão mais simples sai de fábrica com direção hidráulica, ar condicionado e travas elétricas.

"Normalmente, há alguns anos, isso era quase inviável. Hoje, justamente para atender às solicitações dos clientes, já ocorre esse tipo de oferta", informou a assessoria de imprensa da montadora norte-americana.

Segundo dados da associação de montadoras Anfavea, a participação dos veículos com motor 1.0, normalmente os modelos nacionais menos equipados do mercado, no total das vendas do país em fevereiro foi a menor desde 1994, correspondendo a 42,6 por cento. Essa motorização "popular" surgiu no início da década dos anos 1990, com o Fiat Uno, cujos primeiros modelos sequer tinham retrovisor do lado direito do carro.

Enquanto isso, as vendas de veículos com motores entre 1.000 e 2.000 cilindradas, que costumam ser melhor equipados e incluem modelos importados, atingiu 56,5 por cento, um dos níveis mais altos dos últimos anos.

"Antigamente as pessoas compravam o carro pelado e ficavam um ano equipando", afirmou à Reuters o presidente da associação de distribuidores de veículos Fenabrave, Flavio Meneghetti. "Hoje, com renda maior, mais competitividade e financiamento, muitos do que compravam automóveis passaram a comprar SUVs (utilitários esportivos) que são carros mais completos."

O segmento de SUVs integra o conjunto de comerciais leves, que inclui vans e picapes e que em 2011 cresceu suas vendas em 14 por cento ante leve expansão de 2,9 por cento nos licenciamentos de automóveis. O segmento é praticamente formado por veículos importados, com os compactos EcoSport, da Ford, e o mais recente Duster, da Renault, como representantes nacionais.

Segundo Meneghetti, com o aumento da exigência do consumidor e das opções de financiamento, a distância entre os veículos nacionais e importados tende a diminuir pois a "indústria local não pode se acomodar".

Ele comentou, no entanto, que outra tendência do mercado nacional é a evolução de motores menores, mas mais potentes, permitindo a alimentação de dispositivos como ar condicionado com mais eficiência.

"No início dos anos de 1990, motores 1.0 tinham 48 cavalos, hoje eles estão desenvolvendo 66 cavalos. A indústria está tirando água de pedra", comentou Meneghetti.

Segundo o presidente da associação de montadoras Anfavea, Cledorvino Belini, a indústria terá de investir em desenvolvimento tecnológico para enfrentar o incremento da exigência dos consumidores. "Este é o lado positivo da mudança na pirâmide social brasileira, entendemos que a motorização 1.0 vai ser sempre significativa", disse Belini, no início do mês.

Para o diretor do Centro de Estudos Automotivos, Luiz Carlos Mello, a questão passa também pelo lado financeiro das montadoras, uma vez que o incremento de dispositivos nos veículos ajuda na margem de lucro.

"Em carros pequenos, as montadoras só ganham pelo volume de produção e de vendas. O lucro do carro pequeno é muito modesto. Com a instalação de componentes opcionais, a montadora ganha mais", comentou.

Segundo ele, apesar de o governo brasileiro tentar limitar a importação de veículos no país, revendo o acordo automotivo com o México e aumentando o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos modelos fabricados fora do Mercosul.

"As pessoas compram com crédito e com crédito é possível comprar um veículo mais encorpado e aí também entram os importados (...) Por mais que o governo estabeleça medidas artificiais, o mercado está aí."

"Os fabricantes, com certeza, vão olhar o segmento (de SUVs) de maneira mais aberta do que fizeram até agora. A pressão da concorrência dos importados deve levá-los a essa consideração. Quer queiram, quer não."

Indicativo da comentário de Mello, o governo do Espírito Santo assinou no início do mês acordo para a construção de uma fábrica da Brasil Montadora de Veículos, que além de automóveis produzirá SUVs das marcas chinesas Changan e Haima e da sul-coreana Ssangyong.

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