São Paulo - A China tem sido a protagonista de um 2016 intenso para os mercados globais.

Investidores temem que a economia do país esteja desacelerando perigosamente, o que vem sendo sinalizado por dados fracos de indústria e serviços.

O setor secundário, que engloba coisas como manufatura e propriedade e responde por 45% da economia chinesa, vem crescendo a um ritmo de meros 1,2% (diante de supostos 6,5% para a economia como um todo).

A China precisa reformar seu modelo de crescimento para depender mais do consumo e menos do investimento, mas ninguém sabe se ela terá sucesso na empreitada.

Os dados comerciais melhores do que o esperado divulgados hoje deram um alívio (e puxaram o dólar para baixo), mas a estabilidade financeira da China continua em jogo.

A dívida total do país já passa de US$ 28 trilhões, o equivalente a 235% do PIB, e US$ 170 bilhões em dinheiro privado deixaram o país só em dezembro, de acordo com estimativas de Giles Gale, do RBS.

De acordo com o banco central da China, mais de US$ 108 bilhões em reservas foram queimados em dezembro, o equivalente a cerca de US$ 3,5 bilhões por dia, como forma de evitar depreciações maiores do iuane.

2015 foi o primeiro ano da história em que a China perdeu parte de suas reservas. Cerca de meio trilhão de dólares foi usado até chegar nos atuais US$ 3,3 trilhões, um número que deve continuar caindo este ano.

"A questão para 2016 é se as autoridades chinesas têm uma linha de reservas internacionais que não querem ultrapassar; e se for o caso, qual linha é essa, e qual será a mudança na política atual se/quando ela for alcançada", diz em nota recente Charlene Chu, da Autonomous Research.

Há alguns dias, Mohammed El-Erian, ex-presidente da firma de investimentos PIMCO, escreveu um artigo sobre o que considera como erros "surpreendentes e pouco usuais" que a China cometeu na semana passada. Veja quais são eles:

1. Reviravolta de políticas

Diante do caos no início do ano, a China introduziu um mecanismo que suspendia as operações automaticamente quando o mercado caía mais de 7%. Isso só serviu para causar ainda mais ansiedade e o governo voltou atrás na semana passada.

Para El-Erian, a China não pode se dar ao luxo de fazer movimentos bruscos do tipo. Consistência e planejamento sempre foram vistos como duas das maiores forças de sua liderança, uma imagem que está sendo arranhada.

Entre julho e dezembro do ano passado, a proporção de investidores com confiança "baixa" ou "muito baixa" na capacidade do governo de gerenciar a economia foi de 36% para 42%, segundo pesquisa mencionada por Charlene em seu relatório.

2. Corrida atrás de mercados desregulados

"Os oficiais chineses deram a impressão na semana passada de estarem correndo desesperadamente atrás dos mercados que negociam o iuane. Quanto mais ele era depreciado dentro do país como forma de fechar a janela entre os dois mercados, mais o mercado de fora se distanciava", diz El-Erian.

A China quer evitar fuga de capitais usando reservas para suavizar a depreciação da sua moeda. O Bank of America Merrill Lynch sugere que seria melhor seria deixar uma depreciação maior acontecer de uma vez.

Há o risco, no entanto, de que o mercado possa continuar avaliando que o poço é ainda mais fundo, neutralizando o movimento.

3. Comunicação fraca

El-Erian diz que os observadores da economia chinesa estão "coçando a cabeça" diante da incapacidade do governo de explicar suas ações.

Ninguém sabe se isso é fruto de incompetência ou disputas internas; de uma forma ou de outra, é um fator que aumenta a incerteza na raiz da crise atual.

"As economias muitas vezes escorregam porque você olha os fundamentos e identifica inconsistências. No caso da China, o grau de desconforto é muito baseado naquilo que não se sabe", disse Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade de Columbia, em entrevista para EXAME.com em agosto do ano passado.

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