O governo tem culpa no fracasso da meta fiscal, diz pesquisadora

Para a economista Monica de Bolle, o governo Temer mostra uma continuidade de muitas das más práticas do governo Dilma ao revisar a meta

A semana termina sem que o governo tenha encontrado uma solução para conter o desastroso déficit das contas do país. O presidente Michel Temer chegou a confirmar que estudava um aumento da alíquota do Imposto de Renda, mas, após críticas, voltou atrás. Alcançar a meta fiscal de 2017, um déficit de 139 bilhões de reais, é tida como impossível por grande parte dos economistas e a expectativa é de que seja revista na próxima semana. Para a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington, o governo Temer mostra uma continuidade de muitas das más práticas do governo Dilma ao revisar a meta. Confira na entrevista a seguir.

O governo Temer assumiu com a promessa de ser diferente do governo Dilma, sobretudo na área econômica, e firmou um compromisso de cumprir a meta fiscal. Mas na próxima semana o governo deve anunciar uma revisão da meta fiscal para este e para o próximo ano. A culpa é da economia que não cresceu ou o governo também tem culpa?

O governo tem culpa. A gente teve reajuste de servidores públicos, aumento de gastos com pessoal. Não houve contingenciamento das despesas. Atribuir todos os problemas à falta de receita é um tanto ingênuo. O governo Temer é marcado pela forma velha de fazer política, comprando apoio dos parlamentares, por exemplo. Neste aspecto é muito parecido com o governo anterior. Ambos enfrentaram o mesmo problema de investigações de corrupção, perda de aliados e de ministros. Um é a continuação do outro. Quanto à meta fiscal, existem coisas parecidas com a Dilma. As projeções embutidas para alcançar a meta, tanto do lado do crescimento quanto da arrecadação, estavam muito além do possível e então houve uma frustração, como no governo Dilma. A questão das receitas extraordinárias com repatriação, refis e leilões também foi frustrada. Então há o mau desenho da meta nas receitas extraordinárias e de outro a questão de gastos. A Dilma não conseguiu reduzir gastos na crise e o governo Temer também não segurou os gastos. São pontos parecidos com o antigo governo. As pessoas falam muito no novo, sobre o governo Temer ser um governo novo, mas esquecem que parte do governo atual, inclusive o ministro da Fazenda, também fazia parte do governo Lula. Não houve quebra, não houve mudança.

Mas não há diferenças na condução da política econômica?

O que existe de diferente é que o governo Temer tinha, no início, uma pauta de reformas que a presidente Dilma nunca quis emplacar. Dilma nunca pensou em reforma trabalhista, por exemplo. As discussões vieram no início do governo Temer. O problema é que a reforma trabalhista, por exemplo, foi feita de forma mais ou menos. Ainda há muitas questões em aberto, como a contribuição sindical. Ainda não se sabe quanto das ineficiências do trabalho serão resolvidas. Em entrevista no fim de semana, ao jornal Estadão, o presidente Michel Temer usou o termo “atualização da Previdência”. Ele abandonou o discurso de reforma, nem ele trata mais como uma grande reforma. Dada a dificuldade no Congresso, na melhor das hipóteses, a proposta da Previdência pode passar como uma atualização, está longe de ser uma reforma. Essa é a diferença do governo Temer para o governo Dilma, ele entrou com pautas de reforma, mas vai entregar muito menos do que previu.

Além da frustração com a arrecadação, por conta da economia ainda fraca, as receitas extraordinárias, como repatriação de recursos, também estão tendo um desempenho pior do que o projetado. Essas receitas deveriam ter ficado de fora da meta fiscal?

As projeções devem fazer parte do orçamento. Agora, o governo precisava ter formulado um Plano B. Não dá para simplesmente contar com essa arrecadação e depois não ter nada para substituí-la.

O Plano B agora parece ser um pacotão de impostos. Isso pode ser a salvação para meta?

É lastimável que a gente tenha que tratar do aumento de impostos, sendo que a carga brasileira já é muito elevada. Por outro lado, neste pacote estudado pelo governo, entram as desonerações que a Dilma fez e que deveriam já ter sido revertidas no início do governo Temer. O governo Temer sempre teve esse discurso reformista com Previdência e reforma trabalhista, que são coisas de longo prazo, e esqueceu que é preciso fazer ajustes de curto prazo. Agora essa discussão de rever as desonerações ficou muito mais difícil por conta das dificuldades políticas para manter o apoio do empresariado. As desonerações deveriam ter sido revistas no início do governo Temer, e agora é pouco provável que aconteçam.

Apesar de todo esse cenário de problemas com a meta e as reformas econômicas, o mercado financeiro continua otimista. A bolsa e as ações estão em alta. Por quê?

O Brasil virou uma completa anomalia. Agora, o que está acontecendo no mercado é que o ambiente externo por hora está calmo e relativamente favorável para países emergentes em geral. O petróleo teve alta, a perspectiva para as economias lá fora está melhorando e as taxas de juros estão muito baixas. Tudo isso conspira a favor dos mercados emergentes e por isso há dinheiro externo entrando no Brasil. O problema é que é capital especulativo, é importante lembrar disso. Esse capital ajuda a sustentar essa alta e dá a sensação de que as coisas estão relativamente bem. A entrada desse dinheiro estrangeiro gera essa calmaria que é ilusória e o que o vai ditar o ritmo da saída desse capital são os nomes e os cenários da eleição para 2018. Quando essas dúvidas sobre as eleições do próximo ano aparecerem, aí vai ser difícil segurar esse dinheiro.

 

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  1. Gilberto Mendes

    O GOVERNO brasileiro precisa de GESTORES, e sabidamente não são esses que ai estão, assim como também não eram antes. Em 2018 teremos eleições, e se o brasileiro continuar a LEVAR o VOTO na brincadeira, iremos continuar PATINANDO, já estamos desde 2013 apresentando PIB negativo, com Dilma e agora mais recentemente com Temer, que também já se mostrou INCOMPETENTE para a tarefa de ajustar as CONTAS publicas, na REALIDADE ele não é GESTOR, é politico, justamente o que não RESOLVE questões administrativas, alias já é politico DESCOMPROMISSADO com o país. Vale lembrar conforme mesmo disse anteriormente De Bole onde cada PONTO negativo do PIB, leva um ANO para RECUPERAR, imaginemos então a questão do Brasil com seu PIB negativo em mais de 13 pontos???Uma década para RECUPERAR a LAMBANÇA dos INCOMPETENTES e CORRUPTOS petistas. Vamos ver o que pensam, ou o que sabem os brasileiros da POLITICA agora em 2018, vale lembrar o que conta é quantidade de votos VALIDOS, votos NULOS, BRANCOS e ABSTENÇÕES não interessam ao brasileiro nessa hora de DECISÃO, onde, qual o RUMO tomar. Pesquise, procure saber, informe-se, dê um Google, e depois VOTE e VOTE certo.

  2. ViP Berbigao

    Essa bobagem de PIB é mimimi de empresariado e banqueiro. Tem q jogar no lixo essa polarização única e parar de criar bolhas localizadas e ter políticas de longo prazo voltadas para ações de Educação focadas em tecnologia para ao menos acompanhar os asiaticos pq competir tenho dúvidas se conseguiremos. Só investindo mais que eles em educação e tecnologia, o que é um sonho impossível de acontecer com o nivel de patrimonialismo que existe no atual poder publico. Herança latina.