Itália pode gerar crise bancária na Europa, diz banco

O Société Générale afirma que a crise bancária da Itália poderia se espalhar e as regras que limitam a ajuda estatal aos bancos devem ser reconsideradas

A crise bancária da Itália poderia se espalhar para o restante da Europa e as regras que limitam a ajuda estatal aos bancos devem ser reconsideradas para evitar uma perturbação maior, disse o presidente do conselho do Société Générale, Lorenzo Bini Smaghi.

“O mercado bancário como um todo está sob pressão”, disse o ex-membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu, em entrevista à Bloomberg TV, na quarta-feira. “Nós adotamos regras para o dinheiro público; essas regras precisam ser avaliadas em um mercado que tem potencial de crise para decidir se é preciso aplicar alguma suspensão”.

Com os bancos italianos sobrecarregados por cerca de 360 bilhões de euros (US$ 389 bilhões) em créditos duvidosos, o governo vem sondando os órgãos reguladores para descobrir formas de dar respaldo aos credores em meio a uma nova queda forte após a decisão do Reino Unido, em referendo, de deixar a União Europeia.

O governo invocaria uma regra da UE que permite ajuda estatal temporária se os testes de estresse regulatórios descobrirem um déficit no Banca Monte dei Paschi di Siena, disse uma pessoa informada sobre as discussões na terça-feira.

As ações bancárias europeias voltaram a cair após os bancos centrais divergirem e, em alguns momentos, emitirem comunicados contraditórios a respeito do futuro.

O Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, caiu 6,1 por cento, atingindo o nível mais baixo desde 1989, pelo menos.

O Société Générale, segundo maior banco da França, no qual Bini Smaghi é presidente do conselho há pouco mais de um ano, registrava um declínio de 1,8 por cento às 14h em Paris.

O Bloomberg Europe 500 Banks and Financial Services Index caiu 2,3 por cento, atingindo seu nível mais baixo desde novembro de 2011, época da crise da dívida europeia.

O subsecretário italiano de Finanças, Pier Paolo Baretta, disse em entrevista à rádio RAI, na manhã desta quarta-feira, que uma “solução técnica” sobre o Monte Paschi poderia ser tomada dentro de algumas horas. Ele emitiu um comunicado uma hora depois dizendo que “nenhuma intervenção é esperada para as próximas horas”.

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, disse em entrevista coletiva em Berlim, horas depois, que seu par italiano, Pier Carlo Padoan, lhe contou que a Itália pretende seguir as regras da união bancária.

“Encontrarão uma forma”

Entre os bancos italianos mais atingidos está o Monte Paschi, que acumulou uma série de empréstimos duvidosos depois que a recessão mais longa do país desde a Segunda Guerra Mundial deixou empresas e famílias com dificuldades para honrar suas dívidas.

Sua capitalização de mercado ficou abaixo de 1 bilhão de euros.

O maior banco italiano, o UniCredit, caiu mais de 60 por cento neste ano e substituiu seu CEO em meio à especulação de que o banco precisará recorrer aos seus investidores para obter mais capital. Suas ações caíam 1,4 por cento nesta quarta-feira.

Apesar do mercado difícil, é importante proteger as regras estabelecidas para os bancos europeus desde a crise financeira, disse Klaus Regling, CEO do Fundo Europeu de Estabilização Financeira, em outra entrevista na televisão. Muitas soluções com as regras atuais ainda estão disponíveis para a Itália, disse ele.

“O governo italiano está dialogando com a Comissão Europeia sobre como aplicar a estrutura do órgão a essas circunstâncias específicas”, disse Regling.

“Tenho certeza de que eles encontrarão uma forma”.

Bancos deficitários

Bini Smaghi disse à Bloomberg TV que o mercado bancário da Europa enfrenta o risco de uma crise sistêmica, a menos que os governos aceitem a ideia de colocar o contribuinte como último recurso.

Qualquer intervenção deve ser a mais rápida possível, disse ele.

A Itália e a Alemanha têm muitos bancos que não são rentáveis e é necessário que haja mais consolidação, disse ele.

A Itália precisa se esforçar mais para lidar com os empréstimos duvidosos e o primeiro-ministro Matteo Renzi terá que adotar medidas politicamente impopulares, inclusive incentivar fusões que levarão a cortes de postos de trabalho, disse ele.

“O que é necessário é uma solução europeia”, disse ele. “Até o momento, tivemos soluções nacionais. Nós precisamos de um apoio claro”.

Quanto ao Brexit, Bini Smaghi disse esperar negociações “muito longas”. Ele mostrou-se preocupado de que a proposta do Reino Unido de reduzir os impostos corporativos para atrair empresas possa levar a uma arriscada concorrência tributária pela Europa.