‘Feirão de veículos’ de Mantega tenta aquecer economia

O governo reduz impostos e ajuda os fabricantes a liquidar os estoques de carros novos

Nos últimos cinco anos, o mercado brasileiro de automóveis cresceu 90% e se tornou o quarto maior do mundo. Gradualmente, a frota de veículos vai se renovando, e 35% deles têm até cinco anos de fabricação. Em 2002, esse índice era de 29%. O avanço, resultado do aumento na oferta de crédito e do maior poder de compra das pessoas, ocorreu apesar do valor dos carros novos, vendidos aqui pelo dobro do preço de seus similares europeus ou americanos.

O custo de produzir um veículo no Brasil é 60% maior que na China e 40% mais alto que no México, em razão de fatores como o preço da energia, as despesas com mão de obra e os gastos tributários. Somem-se a isso os impostos finais cobrados ao consumidor, e o carro brasileiro resulta em um dos mais caros do planeta. Mesmo assim, as vendas de carros não param de crescer — ou não paravam.

Desde o início do ano, ficou evidente a perda de velocidade nas vendas. Os resultados têm permanecido abaixo das estimativas dos fabricantes, e os estoques nos pátios não eram tão elevados desde novembro de 2008. Preocupado com o fraco desempenho da economia, o governo anunciou na semana passada uma nova rodada de redução de impostos e concedeu facilidades na concessão de crédito para quem comprar automóveis.

O incentivo é dado em um momento em que a inadimplência está em trajetória ascendente. Seis em cada 100 carros adquiridos por meio de financiamento estão com parcelas atrasadas há mais de noventa dias — é o dobro do nível verificado há um ano. Mas, para o governo, os atrasos estão sob controle e as medidas facilitarão o pagamento do crediário.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse esperar que os estímulos reduzam em até 10% o preço dos carros. É um efeito já perceptível para os brasileiros que foram às lojas nos últimos dias, embora, na prática, o desconto nem sempre seja o esperado. Isso porque muitas concessionárias já ofereciam descontos de até 10% sobre o preço de tabela, por causa das fracas vendas do início do ano.

Como a redução do imposto, na teoria, será aplicada sobre o valor de fábrica, a diferença real nos preços acaba sendo menor. Foi o que a reportagem de VEJA verificou em visita a duas dezenas de concessionárias, em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Belém. “O desconto no preço final para os consumidores não depende apenas da redução de impostos, mas também do ritmo da retomada nas vendas”, diz Rafael Costa Lima, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da cidade de São Paulo, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).


As medidas, de qualquer maneira, atraíram possíveis compradores para as lojas. O empresário Sergio Habib, presidente no Brasil da montadora chinesa JAC Motors e dono de 98 concessionárias dessa marca e da Citroën, entre outras, afirma não ter dúvida da eficácia das medidas do governo. “A parcela do financiamento volta a caber no bolso do consumidor. As nossas vendas já subiram 35% em relação à média diária de março e abril”, diz Habib, que cita como argumento para o otimismo a experiência anterior de redução dos tributos para os carros.

Em dezembro de 2008, no auge da crise financeira internacional, o governo tomou medidas semelhantes, e as vendas de carros encerraram o ano seguinte com alta de 13%. “Esse resultado foi conquistado em um ano (2009) em que a economia não cresceu, o que ninguém acredita que vai acontecer neste ano”, comenta o empresário.

Além do incentivo para os carros, o governo também reduziu os juros para o investimento das empresas no parque industrial. Trata-se de medida de resultado não tão certeiro, uma vez que depende da retomada mais abrangente da atividade econômica interna e da melhora do cenário internacional. Os investimentos produtivos, imprescindíveis para o país aumentar sua capacidade de crescimento sustentável, recuaram nos três primeiros meses do ano.

A economia brasileira encontra-se em um momento de paradoxo. O desemprego permanece em níveis historicamente baixos — era de 6% em abril. É dessa força do mercado de trabalho, no entanto, que deriva uma das fraquezas da indústria nacional. A escassez de mão de obra leva as indústrias a priorizar a retenção dos funcionários, e essa política se reflete em reajustes salariais que não são acompanhados pelo aumento da produtividade.

No primeiro trimestre, os custos crescentes com salários e insumos absorveram parte dos ganhos das empresas brasileiras, reduzindo a disposição para investimentos e minando a sua competitividade. O governo projetava um crescimento de 5% da economia neste ano. Oficialmente, rebaixou na última semana a expectativa para 4%. Mesmo esse número pode ser otimista em demasia, diante do fraco desempenho até aqui. Em média, os economistas preveem um avanço do PIB em torno de 3%, próximo ao resultado de 2011 (2,7%), e isso se a crise na Europa não se agravar.

O feirão de veículos promovido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve dar um empurrãozinho momentâneo no PIB. Mas não será na base do tranco que os obstáculos da baixa competitividade serão removidos.