Favela Shopping mostra como juntar negócios e impacto social

Do microcrédito à reforma de moradias, evento em São Paulo traz exemplos de negócios sustentáveis que nasceram da vontade de gerar impacto social

São Paulo – Como conectar comunidades com empresas para desenvolver negócios que sejam benéficos para a sociedade e financeiramente sustentáveis?

Este tem sido o principal tema abordado no Fórum Brasileiro de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, realizado pela Artemisia, ICE e Vox Capital no Complexo Ohtake Cultural, em São Paulo. 

Microcrédito, reforma de moradias e até a construção de um shopping no Complexo do Alemão estão entre os exemplos bem-sucedidos:

1. Favela Holding

Celso Athayde nasceu na baixada fluminense e viu seus pais se separarem quando tinha 6 anos. Foi morador de rua com sua mãe por 4 anos e viveu em um abrigo por mais 4. Aos 14, eles conseguiram um barraco:

“A favela, que para muita gente é um espaço de sofrimento, desigualdade e opressão, foi para mim um upgrade.”

Depois de participar de movimentos comunitários, ele criou a CUFA (Central Única de Favelas), projeto pioneiro que uniu centenas de favelas do Rio de Janeiro para publicar livros, promover eventos e desenvolver projetos educacionais e culturais.

Inspirado por uma liga de empreendedores que chegou a 307 favelas só no Rio de Janeiro, Athayde saiu da CUFA no ano passado e criou a Favela Holding, que busca e desenvolve sinergias e oportunidades entre as empresas e as comunidades:

“Quando o asfalto olha pra favela, vê só mão de obra barata com baixa qualificação. Nós percebemos que o real desenvolvimento só viria quando os moradores da favela não fossem meros empregados, e sim sócios”, diz Athayde.

Ele compara a iniciativa com um trem: a holding é a locomotiva, as empresas são os vagões e as favelas são as estações.

Um dos projetos em execução é a transformação de um galpão abandonado no Complexo do Alemão no Shopping Favela. Athayde diz que já fechou 100 franquias e que o empreendimento deve gerar 8 mil empregos diretos na comunidade com gestão compartilhada:

“Evidentemente, montar shopping não é o meu sonho. Mas quando montei o Datafavela com o Renato Meirelles, do Data Popular, nós vimos que 84% dos favelados vão ao shopping. Então a ideia é que agora essas pessoas terão oportunidade não só de consumir mas também de fazer gestão”.


2. Banco Pérola

Alessandra França veio do Sul para Sorocaba, no estado de São Paulo, quando ainda era criança.

Inspirada na experiência de Muhammad Yunus com o microcrédito para famílias de baixa renda em Bangladesh, ela começou em 2010 o Banco Pérola:

“Estamos falando de entrar na casa do empreendedor na comunidade e dar dinheiro para ele desenvolver um negócio. Não basta ter uma ideia interessante sem recurso financeiro. Um dos nossos principais desafios é que nossos concorrentes são o agiota e o crime”, diz Alessandra.

Só em 2013, o banco emprestou mais de R$ 3,5 milhões para 500 empreendimentos. A inadimplência não passa dos 2,5%, o que garante a sustentabilidade do negócio.

“A gente tem uma visão de que os pobres são mais desorganizados financeiramente, mas é justamente o contrario”, aponta Luciana Aguiar, do plano CDE.

3. Projeto Vivenda

Fernando Assad trabalhava em parceria com a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) quando notou que muitas vezes, o processo de urbanização de áreas carentes trazia o sistema viário e outras infraestruturas mas não mudava absolutamente nada do lado de dentro das casas:

“O governo considerava aquela população atendida, o que para a gente parecia esquisito. Por seis meses, juntamos grupos de moradores e perguntamos quais são os principais problemas habitacionais. O ponto de partida: as pessoas não querem sair de onde estão para ir para outro lugar, então focamos em melhorar as casas já existentes.”

Foi criado assim o Projeto Vivenda, que ataca os 3 principais problemas que dificultam as reformas nas moradias de baixa renda: crédito, mão de obra e assistência técnica. 

A iniciativa ainda é pequena, mas está acelerando: a previsão é que a média mensal de reformas concluídas passe das 10 atuais para 40 dentro de 6 meses. Demanda é o que não falta: o Brasil tem hoje 40 milhões de pessoas vivendo em condições insalubres e 12 milhões de moradias inadequadas, de acordo com Assad.