Com crise, China não poderá financiar todo o déficit americano

Professor de Harvard e Oxford diz que bolha dos títulos americanos pode estourar até o final do ano

 

Autor do livro ‘The Ascent of Money’ (A Ascensão do Dinheiro), que deverá ser lançado no Brasil pela editora Planeta, o historiador econômico Niall Ferguson, professor das universidades Harvard e Oxford, conversou com exclusividade com o Portal EXAME sobre temas como a crise mundial, uma possível bolha no mercado de títulos americanos e o retorno do protecionismo. Veja a seguir os principais trechos da entrevista
 
Qual é a perspectiva para o que o senhor chama de Chimérica – a relação econômica simbiótica entre os Estados Unidos e a China – em 2009 e o G2, o encontro das duas potências?
 
Em primeiro lugar, o que chamo de Chimérica, a combinação entre a China e a América continua sendo central para o funcionamento da economia mundial e em muitos aspectos ela é a chave para sabermos se a crise atual se tornará uma Grande Depressão. Os Estados Unidos têm confiado por alguns anos na China e em outros países para financiar os déficits em conta corrente. E isso vai continuar acontecendo em 2009. A questão é saber o quanto do endividamento planejado pelo governo Obama a China estará disposta a financiar, num momento em que a economia chinesa está sofrendo efeitos severos da crise, causados pela queda de importações americanas. O grande risco é que as relações entre os dois países se deteriorem em função de discordâncias sobre comércio externo ou o câmbio. Para Obama, a coisa mais importante é se certificar de que as relações sejam as melhores possíveis. Assim, a Chimérica, a relação entre a China e a América continue a ser mutuamente benéfica. Essa será uma questão de enorme importância para o governo. E em relação a um encontro G2, entre os dois países, no nível mais alto, creio que ele precise acontecer o quanto antes. Não existe outra relação mais importante para os EUA hoje do que a China.
 
Como o senhor vê a disposição dos chineses em continuar financiando os sucessivos déficits americanos através da compra dos títulos do Tesouro dos EUA?
 
Bem, de um lado, os chineses tem menos recursos disponíveis. Isso significa dizer que muito do dinheiro que a China usava para comprar títulos americanos, como no ano passado, foi dinheiro obtido através dos superávits gerados pelas exportações chinesas. Mas em função da crise, já não é mais possível que a China continue gerando superávits naqueles níveis, uma vez que o comércio mundial declinou tão velozmente. Logo, os chineses terão menos dinheiro disponível para investir em moeda e ativos americanos, simplesmente em função das atuais condições econômicas. Ao mesmo tempo, é claro que a China precisa aumentar o seu nível de demanda doméstica, focando mais no aumento do consumo dos próprios chineses, que devem diminuir o seu nível de poupança. E se os domicílios chineses começarem a poupar menos, mais uma vez teremos menos recursos fluindo para o Banco Popular da China que possam ser investidos em ativos denominados em dólar. Mas acontece que os Estados Unidos irão continuar a emitir mais títulos do Tesouro para financiar os programas de recuperação econômica do governo Obama – tentando tomar mais dinheiro emprestado – e é aí que as tensões serão visíveis esse ano. Isso vai gerar um déficit de 1 trilhão a 1,5 trilhão de dólares. Isso vai ser difícil de financiar, e a China certamente não será capaz de absorver isso como fez no ano passado.
 
O senhor acredita que exista uma bolha no mercado de títulos do Tesouro americano prestes a estourar?
 
Certamente me parece que taxas de rendimento ao redor de 2% a 2,4% em notas de dez anos do Tesouro americano são inacreditavelmente baixas. E você teria que acreditar que o mundo está rumando para uma crise deflacionária no estilo do Japão nos anos 90 para que essa tendência dure indefinidamente. Isso não é um cenário de probabilidade zero. Aprendemos com a experiência japonesa que é possível termos uma enorme carga de dívida governamental e ainda assim baixas taxas de rendimento no caso de deflação. Também sabemos que existem crescentes pressões deflacionárias na economia global. Por outro lado, o Federal Reserve tem reagido com muito mais rapidez do que o Banco do Japão o fez nos anos 90 e o Fed tem imprimido dinheiro de forma tão agressiva, tão furiosamente, que não há como se perguntar se os Estados Unidos realmente terão uma deflação. Ao mesmo tempo, esses enormes déficits que podem chegar a 10% do PIB americano em 2010 não são calculados para agradar os investidores em títulos do Tesouro. Me parece que vamos chegar a um ponto em que o restante do mundo irá olhar para os Estados Unidos, com suas políticas monetária e fiscal e irá concluir que temos um cenário inflacionário adiante. Talvez isso aconteça já no final desse ano. E isso será uma questão crucial para os próximos meses. À certa altura, o sentimento vai mudar e os investidores vão concluir que não faz o menor sentido ficar sentado numa enorme pilha de títulos americanos, enquanto os EUA produzem enormes déficits. Isso vai acontecer – embora eu não saiba quando – pode ser uma questão de meses. Mas é certo que veremos uma mudança no humor do mercado internacional de títulos e uma significativa corrida de venda dos títulos americanos. E quando isso acontecer, as pessoas vão olhar para trás e compreender o que James Grant queria dizer quando declarou que ‘hoje uma nota de dez anos do Tesouro representa um risco de retorno zero em oposição a uma reserva de risco zero de retorno’.
 
A crise internacional já traz estragos significativos à economia brasileira. A maioria dos analistas prevê um crescimento de 2% neste ano, menos da metade do crescimento de 2008. Se tal previsão se concretizar, ainda assim podemos dizer que somos mais afortunados do que os americanos e europeus?
 
Bem, um crescimento de 2% é melhor do que um crescimento negativo. E uma vez que o mundo desenvolvido caminha para um ano de contração, nós poderíamos ver a economia americana contrair em até 3,5%. Mas o que sabemos da economia brasileira que nem sempre o país cresceu de forma tão forte quanto nos últimos anos. Não tenham dúvida de que esse ano será doloroso. Os dias em que os países Bric [grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China] podiam crescer a taxas tão altas fazem parte do passado porque acontece que a tese do descolamento era um mito. E a economia global é integrada – ela é apenas uma única economia, na realidade. E se a economia americana se contrai, todo mundo vai sofrer os efeitos disso. Nos Estados Unidos, as importações estão despencando. Logo, as exportações dos grandes países emergentes, como o Brasil, serão negativamente afetadas. Elas estão em queda livre. Mas se olhamos para os Brics, a Rússia é quem está em pior situação, devido à sua grande dependência do petróleo. E para falar a verdade, creio que no ano passado, o Brasil foi entre os Brics o país com o melhor desempenho. Logo, tais coisas são relativas. Não temos uma crise tão severa como a dos anos 30, pelo menos por enquanto. E creio que não será tão ruim como a dos anos 30. Creio que será algo mais parecido com os anos 80, em termos de problemas como o aumento do desemprego. E se olharmos para aquele período, o Brasil hoje se encontra numa situação muito mais sólida e confortável para enfrentar a desaceleração econômica.
 
Como o senhor vê a questão da desmoralização do princípio de risco moral?
 
Vivemos um tempo em que as lições que devíamos ter aprendido das décadas de 1970 e 1980 foram jogadas fora. Hoje tanto os bancos centrais quanto os órgãos reguladores em geral estão repensando essa questão enquanto lidam com a maior crise financeira desde a década de 1930. Para mim, o mais fascinante é ver o renascimento das teorias de John Maynard Keynes. De repente, todo mundo virou keynesiano em termos de política fiscal, mas igualmente extraordinária é a forma como a política monetária americana vem sendo conduzida por Ben Bernanke. As ansiedades de apenas alguns anos atrás, sobre os riscos inflacionários desapareceram. Mas não vejo a questão do risco moral sendo mencionada novamente. Creio é que preciso reconhecer que diante do risco de um enorme colapso do sistema financeiro internacional, a prioridade deve ser evitar o contágio sistêmico – para se evitar justamente a contração monetária que aconteceu na década de 1930, quando o Fed não agiu e acabou agravando ainda mais a crise. Temos que evitar isso, o que por outro não quer dizer que o salvamento de instituições em dificuldades possa ser feito indiscriminadamente.
 
O senhor acredita que aos olhos da comunidade financeira internacional, a gravidade da crise atual possa a vir a justificar calotes como o que ocorreu com a Argentina no começo da década, levando países em dificuldades em honrar suas dívidas a seguir o mesmo caminho?
 
Creio que ninguém quer seguir o exemplo da Argentina, o país do continente americano que já enfrentou o maior número de crises. Trata-se de um país que pode enfrentar uma crise financeira mesmo quando as coisas estão indo bem para os demais países. E o problema com a sucessão de crises argentinas é que elas praticamente impossibilitam que o país alcance um padrão de desenvolvimento sustentável. Já o Brasil se tornou um país em que sua dívida externa tem um papel muito menor hoje em dia. E a pujança da economia brasileira – mesmo diante da crise atual –  é que nos últimos dez anos o país escolheu tomar as decisões acertadas, mesmo que elas significassem fazer sacrifícios, evitando os erros do passado, como o descontrole inflacionário e os calotes, além de mudar a lei de forma errática, como tem acontecido na Argentina em relação às regras dos fundos de pensão. Nada que aconteceu desde 2007 invalida a política macroeconômica brasileira. E tampouco os últimos anos justificam a conduta argentina. Tanto o Brasil quanto o Chile fizeram progressos enormes se comparados com a Argentina. No Chile, graças às reformas implantadas nos anos 80, hoje eles são o país latino-americano mais estável para atrair novos negócios.
 
Existem riscos de que a atual crise produza uma nova onda de protecionismo no comércio mundial?
 
Creio que sim, porque vários países já aumentaram suas tarifas e a Rodada de Doha acabou fracassando. Em épocas em que as economias se contraem e o desemprego cresce, os políticos julgam mais tentador seguir políticas protecionistas. Hoje o que mais me preocupam são algumas vozes no Congresso americano, principalmente entre democratas, que estão pedindo regras mais duras para as importações. Ou também um endurecimento sobre o que eles chamam de manipulação da moeda chinesa. Esse é o tipo de coisa com a qual devemos nos preocupar. A verdade é que hoje a globalização vem sendo questionada. Na cabeça de muita gente essa crise deve causar o retrocesso de projetos como de comércio livre e mobilidade de capitais. Eu ficaria surpreso, de uma perspectiva histórica, se não houvesse tentativas de reviver o protecionismo em algumas partes do mundo. Espero que o governo Obama resista a esse tipo de pressão, porque a lição da década de 1930 é clara: ao longo do tempo, uma proteção generalizada do comércio mundial só agrava a crise. Num momento em que o comércio já se contrai, a última coisa que precisamos é tornar as coisas piores do que já são. Na verdade, deveríamos estar pressionando por tarifas mais baixas para ajudar países pobres, como os africanos, a exportar seus produtos agrícolas. Mas politicamente isso é muito difícil de ser feito em tempos de recessão.
 
De que maneira o Congresso americano, de maioria democrata e protecionista influenciará o governo Obama?
 
Normalmente, podemos esperar um certo grau de deferência inicial do Congresso em relação ao novo presidente, mas precisamos lembrar de duas coisas: a primeira é que o próprio Obama integra a ala mais à esquerda do Partido Democrata e que ele conta com o forte apoio dos sindicatos, que não são defensores das políticas de livre comércio. E baseado em coisas que o Obama disse durante a campanha, ele não se demonstrou um admirador do Nafta e certamente é muito menos provável que ele busque acordos de livre comércio com os demais países latino-americanos. Logo, esse não é um governo que se pareça comprometido com o livre comércio.