Condições melhoram para o corte de juros pelo Banco Central

Sinais de alívio na inflação e a perspectiva de que o governo conseguirá aprovar reformas alimentam apostas de que entre outubro e novembro o BC cortará a Selic

São Paulo – Ainda pisando em ovos, o mercado amplia as apostas em corte dos juros pelo Banco Central nos próximos meses.

Sinais de alívio na inflação, sobretudo de alimentos, e a perspectiva de que o governo conseguirá aprovar as reformas, combinadas ao câmbio fortalecido, alimentam apostas de que entre outubro e novembro o BC cortará a Selic pela primeira vez em mais de um ano.

Em uma semana, o corte de juros precificado na curva de juros para até fevereiro aumentou de 124 para 144 pontos.

Arredondando estes números, o mercado passou a ver um corte de 1,50 ponto percentual nos próximos quatro encontros do BC, ante 1,25 ponto até uma semana atrás.

Especificamente para outubro, as apostas em corte passaram de 12 pontos para 18 pontos, indicando chance maior de uma redução de 0,25 pp.

Dos três fatores citados pelo Banco Central como condições para corte dos juros, houve melhora em pelo menos dois, diz David Beker, chefe de economia e estratégia para o Brasil do Bank of America Merrill Lynch.

Coletas feitas pelos bancos recentemente têm mostrado queda expressiva da inflação dos alimentos. Houve avanço ainda em outro fator crucial para o BC: a perspectiva de reformas.

“Todo dia tem notícia apontando para a perspectiva de aprovação da PEC dos gastos”, diz Beker.

Beker lembra ainda que o BC esteve “amarrado” à sua comunicação anterior, ao dizer que não havia condições para alívio da política monetária. 

Isso mudou após o comunicado do Copom de agosto, quando BC retirou esta sentença e passou a citar as condições para o juro cair. “O BC havia colocado vários cadeados na porta. Agora, não significa que o corte de juros é certo, mas a chance aumentou.”

A expectativa de o Federal Reserve não elevar juros hoje, como espera a maioria do mercado, também favorece os juros no Brasil.

“Houve uma postergação da incerteza sobre os juros americanos. Está claro que, depois dos números de atividade econômica dos EUA e declarações de membros do Fed, eles vão manter a taxa de juros agora”, diz Eduardo Velho, economista da INVX.

“É um ponto positivo para o BC reduzir os juros aqui.”

Beker, do Bank of America, espera um corte da Selic ainda em outubro, mas admite que será preciso acompanhar os números de inflação e o andamento das reformas do Congresso para checar se o sinal estará realmente verde para o BC.

Caso o IPCA em 12 meses continue acima de 9% ao ano, será “constrangedor” para o BC reduzir os juros, embora Beker projete queda forte do índice nos próximos meses. Para o IPCA-15 que será divulgado nesta quarta-feira, a estimativa mediana do mercado é de 8,90%.

Caso o alívio na inflação prossiga, Beker considera provável que o Congresso traga outro sinal verde para o BC. Ele acredita ser possível que a PEC do teto de gastos passe por uma comissão da Câmara ainda na primeira quinzena de outubro.

Isso significaria que pelo menos um sinal concreto de avanço do ajuste fiscal ocorreria antes do próximo Copom, marcado para 19 de outubro.

Há outro fator, ainda que bastante indesejado, que pode ajudar o BC a cortar os juros: a atividade. Dados recentes, como o índice de atividade do BC de julho, decepcionaram os analistas que esperavam alguma melhora da economia.

Velho, da INVX, acha mais provável que o corte da Selic comece em novembro, mas não descarta a possibilidade de uma redução de 0,25 pp já no mês que vem.

“O estresse fiscal foi ajustado para baixo após o sinal de que votação da PEC dos gastos na comissão será até 7 de outubro. Se não houver retrocesso na inflação e comissão votar PEC fiscal, BC pode começar ciclo.”