Combater desigualdade não atrapalha crescimento, diz FMI

Não há evidências de que atuar para melhorar a distribuição de renda prejudique as taxas de crescimento, diz estudo de economistas do FMI

São Paulo – A desigualdade voltou para a ordem do dia, mas do ponto de vista da teoria econômica, este ainda é um tema com mais perguntas do que respostas.

Grande parte dos economistas acredita que adotar medidas para melhorar a distribuição de renda pode prejudicar o crescimento, mas um novo trabalho da equipe do FMI (Fundo Monetário Internacional) indica que isso não acontece – pelo contrário:

“Na média, através do tempo e em diferentes países, as coisas que os governos tipicamente fazem pela redistribuição não parecem levar a cenários ruins de crescimento, a não ser que sejam muito extremas. E a resultante diminuição da desigualdade ajudou a apoiar um crescimento mais rápido e duradouro.”

Metodologia

O levantamento dos economistas Jonathan D. Ostry, Andrew Berg e Charalambos G. Tsanarides usou dados inéditos que comparam o nível de desigualdade nos países antes e depois da atuação dos governos para distribuir renda.

Em seguida, foram aplicadas regressões estatísticas com base nas taxas de crescimento em períodos longos.

A conclusão é que existe uma correlação negativa entre níveis de desigualdade e de expansão do PIB: um aumento de 1 ponto no índice Gini, por exemplo, que mede a desigualdade, aumenta em 6% a chance de que um surto de crescimento termine no ano seguinte.

Há também uma correlação positiva entre níveis de redistribuição e taxas futuras de crescimento, ainda que esta relação seja menos significativa.

Cautela

Os próprios autores destacam que isso não significa que a distribuição de renda cause o crescimento em si: há muitos fatores interagindo e os dados ainda são insuficientes.

Eles também não dizem quais medidas para combater a desigualdade são as mais desejáveis e pró-crescimento (outro trabalho recente do órgão recomenda melhorar a estrutura tributária e o acesso aos serviços públicos).

De qualquer forma, os autores colocam em cheque o que era um dogma até pouco tempo atrás: “no nível macroeconômico, há surpreendentemente pouca evidência de que a redistribuição fiscal cause efeitos destruidores no crescimento”.

Vale lembrar que o trabalho foi postado no site do FMI com o aval do seu economista-chefe Olivier Blanchard, mas não expressa necessariamente a opinião oficial da instituição – que pode desafiar estas conclusões em estudos subsequentes.