Ainda restam motivos para cautela do BC com juros?

A expressiva vitória do governo Temer, aprovando a PEC sem alterações e com 58 votos a mais do que o necessário, amplia a chance de o Copom cortar a Selic

São Paulo – A aprovação da medida que limita o crescimento dos gastos do governo foi recebida de maneira positiva, mas sem festa, no mercado.

A expressiva vitória do governo Temer, aprovando a PEC sem alterações e com 58 votos a mais do que o necessário, amplia a chance de o Copom cortar a Selic em 0,50 ponto percentual na semana que vem.

Mas a incerteza com os juros do Fed americano pode ser um dos fatores que seguem travando um pouco esta aposta mais otimista.

A aprovação da PEC ocorreu da “melhor maneira possível” e completa as condições citadas pelo próprio BC para aliviar a política monetária, diz Thiago Carlos, do UBS Brasil.

O economista lembra que as outras duas condições citadas pelo BC já tinham melhorado antes, com a alta dos alimentos sendo revertida para deflação e os preços de serviços mostrando desaceleração.

Carlos espera um corte da Selic de 0,50 pp na próxima semana, iniciando um ”longo ciclo” de redução dos juros.

A aprovação do teto de gastos permite não apenas ao BC baixar a Selic em 0,50 pp agora como abre caminho a um ciclo “agressivo” de cortes, diz o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira.

O economista prevê 500 pontos base de corte nos próximos doze meses, o que levaria a Selic para 9,25%, contra os 14,25% atuais. De acordo com Oliveira, a aprovação da PEC em 1º turno e ”sem desidratação” era condição fundamental para o BC começar a cortar os juros.

A aprovação da PEC ontem foi uma “votação espetacular”, na qual o governo deu demonstração de força e controle de sua base no Congresso, diz Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos.

A aprovação da medida “em tempo recorde e sem modificações” mostra que há uma folga para conduzir reformas mais desafiadoras, como a da Previdência, que também exige 308 votos para passar na Câmara, diz a economista.

Mesmo com a aprovação da PEC e os números recentes mais positivos da inflação, o mercado de juros futuros ainda hesita em abraçar mais convictamente a aposta em um corte mais avantajado da Selic na semana que vem.

Os contratos na BM&F ainda mostram um investidor dividido entre as projeções de corte de 0,25 pp e 0,50 pp, contrastando com a recepção mais positiva dos analistas à aprovação da PEC.

Especificamente hoje, o principal motivo para a cautela vem do exterior. O dólar sobe contra a maioria das moedas e as bolsas caem com o avanço das apostas em alta dos juros do Fed em dezembro.

Para Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, um aperto monetário nos EUA pode pressionar o câmbio, o que seria um fator de preocupação para o BC. Afinal, uma eventual alta do dólar poderia gerar pressão inflacionária.

Outro ponto de cautela, segundo Rostagno, é a questão do horizonte que o BC vai considerar na decisão da semana que vem, se será voltado para atingir a meta de inflação em 2017 ou 2018.

Em pronunciamentos recentes, o BC disse que essa mira não é estática e que muda com o tempo.

Como a inflação de 2018 está mais bem ancorada à meta de 4,5% do que a de 2017, se o BC voltar sua mira para o horizonte mais longo, o espaço para corte dos juros já neste Copom de outubro será maior.

Caso o BC insista no horizonte de 2017, contudo, a aposta em um corte maior da Selic – a não ser que as projeções do BC para a inflação no ano que vem tenham caído – pode ter de esperar as reuniões seguintes.

Se os juros do Fed e a mira do BC geram dúvidas, o alto desemprego e a recessão reforçam o cenário para o BC cortar juros, diz Carlos, do UBS.

“O mercado de trabalho, com o desemprego perto de 12%, não representa risco de pressão inflacionária”.

Embora os índices de confiança tenham melhorado após o impeachment, a melhora da atividade está demorando para se materializar, o que, combinado ao encaminhamento das reformas, ajuda a manter o caminho aberto para o Copom.

“O governo está entregando e não vejo porque o BC postergar uma queda mais expressiva”, diz Solange, da ARX.