Veneno de aranha pode ser essencial em novos analgésicos

Cientistas dizem ter identificado sete compostos que bloqueiam parte da capacidade do corpo humano de enviar sinais de dor ao cérebro

Londres – Cientistas que analisaram inúmeros produtos químicos no veneno da aranha dizem ter identificado sete compostos que bloqueiam um passo fundamental na capacidade do corpo humano de enviar sinais de dor ao cérebro.

Na pesquisa, que poderia conduzir a uma nova classe de analgésicos potentes, segundo os cientistas, eles se concentraram em 206 espécies de aranha e procuraram moléculas no veneno que bloqueiem a atividade dos nervos, especialmente através dos chamados “canais Nav1.7”.

Especialistas estimam que pelo menos uma em cada cinco pessoas no mundo sofre de dor crônica, e os tratamentos existentes muitas vezes não conseguem dar alívio suficiente ou em longo prazo. O fardo econômico da dor também é enorme.

Somente nos Estados Unidos a estimativa é que a dor crônica custe 600 bilhões de dólares por ano.

As pessoas sentem dor em uma parte do seu corpo quando os nervos da zona afetada enviam sinais para o cérebro através do chamado “caminho da dor”, e essa é a via que os cientistas procuram bloquear na sua busca de potenciais novos medicamentos para a dor.

“Um composto que bloqueia os canais Nav1.7 é de particular interesse”, disse Glenn King, que liderou o estudo na Universidade de Queensland, da Austrália.

Mutação genética 

King afirmou que a pesquisa anterior encontrou indiferença à dor entre as pessoas que não têm canais Nav1.7 devido a uma mutação genética que ocorre naturalmente, ou seja, bloquear esses canais tem o potencial para desativar a dor em pessoas com os percursos normais.

Parte da pesquisa de novos medicamentos para alívio da dor se concentra nas 45 mil espécies de aranha do mundo.

Muitas delas matam suas presas com venenos que contêm centenas e até milhares de moléculas de proteínas, entre as quais algumas que bloqueiam a atividade dos nervos.

“Uma estimativa conservadora indica que há nove milhões de peptídeos de veneno de aranha, e apenas 0,01 por cento desse vasto campo farmacológico tem sido explorado”, disse Julie Kaae Klint, que trabalhou com King no estudo.

Os pesquisadores, cujo trabalho foi publicado na quinta-feira no British Journal of Pharmacology, construíram um sistema que pudesse analisar rapidamente compostos de veneno de aranha.

Eles examinaram venenos de 206 espécies e descobriram que 40 por cento continham pelo menos um composto que bloqueia os canais Nav1.7 humanos.

Dos sete compostos promissores que eles identificaram, um foi especialmente potente e também possui uma estrutura química que sugere ter a estabilidade química, térmica e biológica necessária para a produção de uma droga.