Remédio à base de maconha alivia epilepsia em crianças

A justiça brasileira acaba de autorizar, pela primeira vez, a importação de um medicamento derivado da maconha. Veja como a erva ajuda a tratar a epilepsia

São Paulo — Nesta semana, a justiça brasileira autorizou, pela primeira vez, a importação de um medicamento derivado de maconha contra a epilepsia. A droga deve aliviar as convulsões que infernizam a vida de Anny de Bortoli Fischer, uma garotinha de 5 anos de Brasília. 

Ainda que os estudos científicos sobre o tema sejam escassos, casos em vários países mostram que derivados da maconha podem tratar ou aliviar sintomas de uma série de doenças, incluindo formas severas de epilepsia. 

Anny sofre com a epilepsia desde que era bebê. Ela tinha de 30 a 80 crises convulsivas por semana, segundo relato da Folha de S. Paulo

Para atenuar esse quadro, sua mãe, Katiele Fischer, chegou a importar ilegalmente um remédio à base de canabidiol (CBD), um dos 80 princípios ativos (as substâncias que produzem algum efeito no corpo humano) da maconha. 

O medicamento reduziu a ocorrência de convulsões e trouxe alívio à menina. Mas a última remessa encomendada pela família de Anny foi retida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já que a venda de maconha e seus derivados é ilegal no Brasil.

Katiele recorreu à justiça de Brasília, que autorizou a família a importar a droga. Ela chega na forma de um óleo a ser ministrado em doses diárias. A decisão da justiça não libera a venda do medicamento no país e nem vale para outras pessoas.

Nos Estados Unidos, Epilepsy Foundation, organização que apoia pessoas epiléticas e seus familiares, vem defendendo o amplo acesso dos pacientes a esse medicamento. A Fundação diz que há 2,3 milhões de americanos com epilepsia e que, desses, 1 milhão sofrem com convulsões incontroláveis.

Em casos extremos, essas convulsões podem matar a pessoa. O canabidiol não cura a doença, é claro. Mas tem se mostrado mais eficaz que outras drogas no alívio das crises. Há, porém, dúvidas sobre seus possíveis efeitos nocivos em tratamentos prolongados, já que faltam testes clínicos com a droga.


A Food and Drug Administration (FDA), o órgão americano equivalente à Anvisa, não proíbe a venda do canabidiol. Esse composto não tem efeito psicotrópico e, em princípio, é visto como seguro quando usado sob orientação médica. 

O canabidiol, porém, não tem os certificados necessários para ser vendido como medicamento nos Estados Unidos. Por isso, os laboratórios que trabalham com a droga (o que é permitido em 20 estados americanos) a descrevem como complemento alimentar. 

A maconha propriamente dita ainda é classificada como droga perigosa pelas leis federais americanas. Isso acaba dificultando as pesquisas sobre o uso medicinal da erva e de seus derivados, incluindo o CBD. 

Laboratórios que recebem verbas federais, por exemplo, não são autorizados a fazer esse tipo de pesquisa. E empresas privadas muitas vezes temem que trabalhar com maconha prejudique sua imagem, já que a droga é mal vista por boa parte do público.

Em março, a FDA, passou a classificar um dos medicamentos à base de CBD, o Epidiolex, como uma droga órfã (como noticiou o Wall Street Journal). Essa designação é atribuída a medicamentos para doenças raras que precisam de mais testes para ter seus efeitos comprovados.

Com a decisão da FDA, o laboratório que produz o Epidiolex passa a ter incentivos fiscais para realizar testes clínicos com a droga, além de exclusividade em sua comercialização nos Estados Unidos por sete anos. 

O Epidiolex é usado no tratamento da síndrome de Lennox-Gastaut, uma forma severa de epilepsia. Seu liberação para testes traz mais uma esperança para quem sofre da doença.

O vídeo abaixo, parte de uma campanha pela legalização do uso medicinal da maconha no Brasil, conta a história de Anny:

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