Reino Unido legaliza concepção com DNA de três pessoas

País é o primeiro a regulamentar a técnica, definida como "pioneira no mundo"

O Reino Unido se tornou nesta quinta-feira o primeiro país a permitir e regular a concepção in vitro de crianças com o DNA de três pessoas para prevenir doenças hereditárias graves, após a autorização do órgão regulador.

A permissão concedida pela Autoridade de Fertilização e Embriologia (HFEA) retirou o último obstáculo para aplicar a técnica contra as doenças mitocondriais, “pioneira no mundo” e um momento “histórico”, nas palavras de sua presidente, Sally Cheshire.

“É uma decisão histórica e estou certa de que os pacientes que esperam por este tratamento estarão realmente satisfeitos com o que decidimos hoje”, disse a cientista, ressaltando que será preciso aplicar a técnica com cautela e que não deixa as “mãos livres para tudo”.

Um casal jordaniano já se beneficiou desta técnica no México, aproveitando um vácuo legal, mas nenhum país havia regularizado este tratamento até agora.

A autorização do HFEA chega mais de um ano e meio depois que o Parlamento aprovou a lei, e as primeiras crianças resultantes podem nascer em 2017.

“É gratificante que tantos anos de pesquisa neste campo possam finalmente ser aplicados para ajudar famílias afetadas por estas doenças devastadoras”, explicou Mary Herbert, professora de biologia reprodutiva da Universidade britânica de Newcastle.

No entanto, quando o Parlamento aprovou a lei algumas vozes se ergueram contra ela, alegando que abria a porta para os bebês a la carte, como David King, diretor do grupo Alerta Genética Humana (Human Genetics Alert), que lamentou que o país rompesse o consenso internacional de que não se deve modificar os seres humanos geneticamente.

“Em meio ao futuro pesadelo do design de bebês, as pessoas olharão para trás e se perguntarão: como foram tão irresponsáveis?”, se perguntou na época.

Um pai e duas mães

Além de receber o DNA normal de sua mãe e de seu pai, a criança também receberá uma pequena quantidade de DNA mitocondrial saudável de uma mulher doadora.

As mitocôndrias são a fonte de energia das células. Convertem o açúcar e o oxigênio na energia que as células precisam para funcionar.

Elas contêm apenas cerca de 0,1% do DNA de uma pessoa, são herdadas sempre da mãe e não têm influência em características individuais, como a aparência ou a personalidade.

Mas quando o DNA mitocondrial não funciona, as consequências podem ser catastróficas. Nas doenças mitocondriais, as mitocôndrias não podem converter de forma eficiente o açúcar e o oxigênio em energia, fazendo com que as células não funcionem corretamente.

As doenças mitocondriais podem ser devastadoras, afetando os principais órgãos e provocando de cegueira à perda de massa muscular.

“Há muitos transtornos médicos que podem ser descritos como doenças mitocondriais. Oscilam entre leves e fatais. De qualquer forma, o DNA mitocondrial é herdado apenas das mães, e as mulheres correm o risco de transmitir doenças graves aos seus filhos”, disse o professor Adam Balen, presidente da Sociedade de Fertilidade britânica.

Mulheres na lista de espera

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine sugeria que 2.473 mulheres no Reino Unido correm o risco de transmitir uma doença mitocondrial potencialmente letal aos seus filhos.

Os cientistas do Centro Wellcome Trust de pesquisa mitocondrial da Universidade de Newcastle (norte) estão entre os pioneiros da doação mitocondrial e serão os primeiros a oferecer o tratamento.

Este centro explicou que já tinha lista de espera para a terapia, e espera praticá-la com 25 mulheres por ano com financiamento público.

O caso de cada paciente será estudado separadamente e será necessária uma autorização da HFEA.

Teoricamente, a substituição mitocondrial não apenas evita que a doença se desenvolva em uma criança, mas também em seus descendentes.