Duas coisas que incomodam os cientistas em “Interestelar”

O filme “Insterestelar” retrata com realismo fenômenos como a dilatação do tempo e os buracos negros. Mas há coisas que contrariam as leis da física nele

São Paulo — O filme Interestelar, que está em cartaz no Brasil, combina altas doses de entretenimento com teorias científicas um tanto esotéricas. 

Ele mostra fenômenos previstos por Albert Einstein e outros físicos – como um buraco de minhoca espacial, a dilatação do tempo e um buraco negro rotativo.

O físico teórico Kip Thorne participou da elaboração de Interestelar como consultor e produtor executivo. Ele acompanhou a elaboração dos efeitos especiais para que ficassem tão fiéis às teorias científicas quanto possível. 

Mas nem tudo é realista em Interestelar. Há uma inevitável dose de fantasia no filme. Veja duas coisas que acontecem nele mas seriam impossíveis na realidade (o texto adianta cenas que vão acontecer no filme e pode estragar algumas surpresas, mas não conta o final, é claro):

Buraco de minhoca

Em Interestelar, a espaçonave Endurance viaja através de um buraco de minhoca, uma espécie de atalho espacial produzido por uma dobra no espaço-tempo. Esse fenômeno foi previsto teoricamente por Albert Einstein e Nathan Rosen em 1935, mas nunca foi observado na prática.

Jeffrey Kluger, autor do livro Apolo 13, que serviu de base para o filme homônimo, observa que o buraco de minhoca de Interestellar jamais poderia estar onde foi colocado no filme. Num artigo no site Time, ele diz:

É necessário um objeto massivo para gerar um campo gravitacional suficiente para dobrar o espaço-tempo. O objeto do filme teria de ser o equivalente a 100 milhões de sóis como o nosso.

Dependendo de onde no universo você colocasse um objeto com essa massa, ele faria um estrago considerável nos mundos vizinhos – mas isso não acontece no filme.

Buraco negro rotativo

Parte de Interestelar se passa num sistema planetário que tem um buraco negro rotativo em seu centro. É um corpo celeste extremamente denso, que é chamado de Gargantua. 

O fortíssimo campo gravitacional do buraco negro produz dilatação do tempo, fenômeno previsto por Einstein na teoria da relatividade geral. Para os astronautas próximos a Gargantua, o tempo passa mais lentamente do que para as pessoas que estão na Terra.

No entanto, o astrônomo Robert Naeye observa, no site Sky & Telescope, que nenhum humano conseguiria chegar tão perto de um buraco negro e sair ileso: 

Viajar tão perto de um desses monstros seria letal. O filme mostra um disco luminoso de gás em torno dele, anda que não haja nenhuma fonte óbvia (como uma estrela) de onde o gás estaria vindo. Raios X de alta energia vindo do disco fritariam a espaçonave e seus ocupantes humanos.

Outros detalhes

Há outros detalhes do filme que contrariam as leis da física. O astrônomo Phil Plait observa, no site Slate, que planetas girando em torno de um buraco negro não poderiam ser habitáveis. 

Afinal, para que um planeta seja habitável, é necessário que haja alguma fonte de energia luminosa por perto, ou seja uma estrela. Um buraco negro não serve como fonte de energia, é claro.

Outro problema é o oceano que cobre um dos planetas. Plait observa que o potente campo gravitacional do buraco negro produziria marés tão fortes que poderiam partir o planeta ao meio.

Mas ele admite que não demonstrou isso matematicamente. Assim, há uma chance de que o planeta pudesse suportar a supergravidade de Gargantua.

Veja um trailer (legendado) de Interestelar: 

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