Desastre no Japão obriga países a repensar energia nuclear

O desastre na usina japonesa de Fukushima Daiichi deve levar a uma desaceleração dos investimentos em centrais nucleares, ao menos temporariamente

São Paulo — A confiança do mundo na energia atômica está sendo novamente abalada. O interesse e os investimentos nessa forma de energia vinham aumentando em muitos países, num movimento que vinha sendo chamado de renascimento nuclear. Mas as explosões na usina japonesa, que ocorreram após o terremoto da última sexta-feira, devem frear esse movimento, mesmo que não haja um grande vazamento de radiação.

A situação remete, é claro, às catástrofes de Three Mile Island, em 1979, e Chernobyl, in 1986. Depois delas, por pelo menos duas décadas, o temor de um desastre nuclear levou muitos países a paralisar seus investimentos nessa área. Foi uma longa pausa, que parecia estar chegando ao fim. 

Nos últimos anos, o avanço tecnológico trouxe a promessa de usinas mais seguras e eficientes. O combustível nuclear passou a ser mais bem aproveitado, reduzindo a produção de lixo atômico. Ao mesmo tempo, o aquecimento global trouxe restrições às usinas térmicas convencionais, que liberam grande quantidade de gás carbônico. Nesse cenário, o preço do petróleo em alta e o aumento constante das necessidades energéticas serviram de estímulo a novos investimentos em usinas nucleares. 


O boom dos reatores

De acordo com a World Nuclear Association, organização com sede em Londres, há 442 reatores nucleares em operação no mundo. Eles produzem 15% da eletricidade consumida no planeta. Existem planos para a instalação de mais 155 unidades, a maioria na Ásia, e 65 já estão em construção. 

Nos Estados Unidos, onde a implantação de reatores ficou paralisada por três décadas, há 21 deles projetados para entrar em operação nos próximos anos. A China, que tem 13 unidades em uso, está construindo mais 27. A Índia planeja multiplicar por 13 sua capacidade de geração nuclear. O Japão, que obtém um terço da energia que consome de 54 reatores, está construindo mais dois e tem outros 12 projetados. No Brasil, além de Angra 3, em construção, há planos para  implantar mais quatro reatores até 2028.

Fumaça branca

O acidente no Japão lança desconfiança imediata sobre esses planos. A fumaça branca que saiu de Fukushima Daiichi após as explosões contém duas mensagens. Para a indústria da energia, ela mostra que, ao avaliar a segurança de uma usina, é preciso considerar eventos como um furacão, um terremoto, um tsunami e um ataque terrorista – mesmo que a probabilidade de um desses eventos ocorrer seja muito baixa. 

O governo chinês já declarou que pretende reforçar a segurança das suas usinas. Na Índia, a empresa estatal Nuclear Power Corporation também afirmou que vai revisar a segurança tanto das instalações existentes como das planejadas. Nos Estados Unidos, a expectativa é que o desastre japonês desestimule ainda mais os investimentos privados na energia nuclear. Quando o reator de Three Mile Island derreteu parcialmente, em 1979, os 14 projetos de usinas existentes foram cancelados. Desde então, os investidores americanos parecem ter desenvolvido certa alergia por centrais nucleares.


Protesto na Alemanha

Para o público leigo, a usina japonesa que explodiu diante das câmeras passa uma imagem inequivocamente negativa da energia atômica. No último sábado, em Stuttgart, na Alemanha, 40 mil pessoas protestaram contra a decisão do governo de prolongar a vida útil das usinas alemãs. O protesto já estava marcado antes de Fukushima Daiichi explodir. Mas é certo que os eventos no Japão ajudaram a engordar a manifestação. 

Os especialistas vão dizer ao público que o reator onde ocorreu a pior explosão , o Fukushima Daiichi 1, foi construído há mais de 40 anos e está tecnologicamente superado. Não há dúvida de que a tecnologia e a segurança dos reatores evoluíram bastante desde então. Se os japoneses conseguirem controlar a situação e evitar um grande vazamento de radiação, isso será apontado como uma prova de que o risco não é tão grande quanto parece. Mas, para o público, a fumaça branca da explosão deve falar mais alto que as vozes dos especialistas. 

Ainda assim, ninguém espera que o mundo abandone a energia nuclear. Não há como satisfazer as necessidades energéticas do planeta sem ela. Mesmo no Brasil, onde a abundância de rios tornou a energia atômica, até agora, economicamente desinteressante (a eletricidade gerada por Angra 1 e 2 custa 50% mais que a produzida pelas hidrelétricas), a situação está mudando. Praticamente não há lugar para novas hidrelétricas nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. E a construção de barragens na Amazônia esbarra na resistência à inundação da floresta e das terras indígenas e no alto custo de transmissão da energia até os grandes centros consumidores. Assim, é praticamente certo que novas usinas nucleares virão, cedo ou tarde.