Ancestral humano parecia menos com chimpanzé do que se pensava

Ao invés de um protótipo de chimpanzé, como se acreditava, nosso ancestral comum era um símio diferente de qualquer um que existe hoje

O último ancestral comum entre o homem e o macaco não era um hominídeo que caminhava curvado, pendurando-se em árvores, similar ao chimpanzé dos dias atuais, afirma um estudo publicado esta terça-feira e que desafia algumas teorias duradouras sobre a evolução humana.

Ao invés de um protótipo de chimpanzé, como se acreditava comumente, nosso ancestral comum era um símio diferente de qualquer um que existe hoje.

Dele, humanos e os símios modernos evoluíram em duas direções completamente diferentes, diz o estudo publicado na revista Nature Communications.

“A maioria dos paleoantropólogos tende a admitir que o último ancestral comum dos chimpanzés e dos humanos se parecia com um chimpanzé”, afirma o anatomista Sergio Almecija, do Centro Médico da Universidade Stony Brook, em Nova York.

“No entanto, há evidências crescentes que sugerem que os grandes símios não são ‘máquinas do tempo vivas’ que refletem nosso passado, mas eles também evoluíram desde que sua linhagem se dividiu daquela dos humanos, milhões de anos atrás”, prossegue.

Almecija e uma equipe de cientistas de Estados Unidos e Espanha basearam suas conclusões no estudo sobre o fêmur de um símio, apelidado de Homem do Milênio, que viveu no Quênia há seis milhões de anos.

O estudo deles foi o primeiro a comparar a fisiologia do Homem do Milênio, não só com a de humanos e símios vivos, mas também com a de fósseis de símios que viveram no período Mioceno, entre 23 e 5,3 milhões de anos atrás.

Sua análise situou o espécime escalador de árvores e de caminhar ereto, com nome científico “Orrorin tugenensis”, em um parêntese evolutivo entre um não identificado ancestral comum dos humanos e dos símios e a linhagem que chegou ao “Homo sapiens” moderno.

Este, por sua vez, preencheu algumas lacunas do conhecimento evolutivo, e demonstrou que o ancestral comum era provavelmente muito similar ao “Orrorin” e muito diferente dos chimpanzés modernos, que se afastaram dos humanos entre 7 e 6 milhões de anos atrás.

“Nossa reconstrução revela que alguns símios do Mioceno representam um modelo mais apropriado da morfologia ancestral da qual os hominídeos (os humanos e seus ancestrais) evoluíram do que dos grandes símios (vivos)”, defende o estudo.

O último ancestral comum, cuja identidade permanece desconhecida, muito provavelmente caminhou apoiado em quatro patas, como os símios atuais, mas inclinando sobre suas palmas ao invés de juntas dianteiras, garante Almecija.

Assim como os símios do Mioceno, ele teria mãos menores e dedos mais curtos e fortes do que os chimpanzés modernos e provavelmente não se balançava nas árvores, pendurando-se nos galhos. Ao contrário, se arrastava ao redor da copa, apoiado nas quatro patas, às vezes na posição ereta, agarrando-se aos galhos para se apoiar.

O Mioceno tinha uma diversidade muito maior de símios do que o mundo atual, explica Almecija.

Mas como não se moviam ou se pareciam com os chimpanzés atuais, o parente vivo mais próximo geneticamente do homem, foram amplamente negligenciados no estudo da evolução humana.

“Os símios vivos (chimpanzés, gorilas e orangotangos) têm histórias próprias longas e independentes e suas anatomias modernas não deveriam ser tomadas para representar a condição ancestral da nossa linhagem humana”, diz Almecija.

“Para compreender as origens do bipedalismo humano, os cientistas deveriam parar de ver o chimpanzé como ponto de partida”, continua, em declarações à AFP.

Segundo o estudo, tais suposições podem levar a “hipóteses fortemente afastadas do caminho real da evolução humana”.