Salário de funcionária no Vale do Silício era 5 vezes menor que o de homens, diz ação judicial

Ellen Pao, ex-funcionária da Kleiner Perkins Caufield & Byers está processando a empresa por discriminação de gênero e pede 16 milhões em danos

Um julgamento iniciado na semana passada em São Francisco, na Califórnia, lançou luz sobre o ambiente machista a que muitas mulheres da área de tecnologia e investimentos estão sujeitas no Vale do Silício e no mundo.

Ellen Pao, ex-funcionária da companhia de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers, está processando a empresa por discriminação de gênero. Ela pede 16 milhões de dólares em indenização por salários perdidos e danos.

Segundo a descrição do advogado de defesa de Ellen, Alan Axelrod, a executiva trabalhava como sócia minoritária quando começou a se sentir rebaixada por seus colegas e excluída de eventos e decisões importantes no ambiente de trabalho.

Além de ganhar bem menos que outros funcionários homens e nunca conseguir uma promoção, Ellen foi demitida apenas seis meses depois de arquivar uma reclamação contra a discriminação de gênero que sofria na empresa.

O caso tem sido frequentemente confundido com uma ação judicial contra assédio sexual, pois em sua denúncia a executiva também afirma ter sofrido pressão após terminar um relacionamento amoroso com seu colega de trabalho chamado Ajit Nazre, que era casado e exercia forte influência para os parceiros da Kleiner.

Segundo a ação, Ajit Nazre só seria demitido da companhia pelo mau comportamento mais tarde, depois de ter assediado outra sócia, Trae Vassallo, a qual em depoimento afirma que o colega teria ultrapassado os limites quando tentou forçar uma relação sem seu consentimento.

Foi depois da denúncia de Trae que Ellen também tomou coragem para denunciar os abusos de seu ex-parceiro. Ainda assim, Trae teve sua promoção para sócia sênior negada mesmo tendo mostrado todas as habilidades e competências necessárias para o cargo.

Depois do problema com Nazre, Ellen passou a ser excluída de reuniões e até mesmo de festas corporativas da firma. A executiva ainda conta que a empresa passou a avaliá-la por baixo desempenho, impedindo promoções e aumentos salariais.

Antes de ser demitida em 2012, a ex-sócia ganhava 560 mil dólares por ano – sendo 400 mil de seu salário base e 160 mil em bônus anuais. E essa é apenas uma pequena fração do que seus colegas homens ganhavam.

Isso porque eles ainda tiveram aumento no salário líquido de até cinco vezes mais depois de serem promovidos a sócios sêniores e ligados a um dos fundos da Kleiner como “membros da gestão”, um papel que lhes permitia receber participação nos lucros da empresa.

Os três funcionários Amol Deshpande, Web Hsieh e Chi Hua-Chien foram promovidos em 2011 e haviam iniciado a carreira no mesmo cargo que Ellen. A ex-sócia trabalhava há sete anos na companhia e poderia ter ganhado 2,8 milhões de dólares por ano. Mesmo assim, apenas os três homens foram promovidos a despeito da senioridade de Ellen.

Para justificar a demissão da sócia em 2012, a Kleiner afirmou que ela não se dava bem com outros colegas, tampouco cumpria com uma boa performance dentro da companhia. Entre vários feedbacks preenchidos sobre a executiva – inclusive por seu ex-parceiro Ajit Nazre – ela era definida como uma pessoa incapaz de trabalhar em equipe, difícil de lidar e de confiar.

Além disso, para limitar o valor da indenização, a empresa argumenta que a ex-funcionária é bem remunerada em sua posição atual como CEO interina da popular empresa de mídia social Reddit e que ela não sofreu financeiramente desde sua demissão na Kleiner.

John Doerr, o primeiro chefe de Ellen e também um dos maiores capitalistas de risco do Vale do Silício, chegou a tentar defendê-la pelas avaliações negativas e criticou seus colegas pela forma como tratavam a sócia em questão. Doerr também pediu que Ajit Nazre fosse demitido pelo seu mau comportamento e por ter discriminado Ellen após o término de seu relacionamento com ela.

O sócio da firma chegou a depor ontem (3) no julgamento, que deve durar cinco semanas. Para vencer o caso, Ellen deve convencer a corte de que foi discriminada por ser mulher e provar que essa discriminação a afetou economicamente.

Doerr ainda disse à corte que tentou aconselhar a ex-funcionária a ser uma colega de trabalho melhor, algo que poderia ajudar a acalmar a situação. Era constante a briga entre Ellen e seus colegas homens e mulheres.

Veja a seguir os documentos de defesa da Kleiner Perkins Caufield & Byers e de Ellen Pao, em inglês.

Kleiner:

   Kleiner Perkins Trial Brief

https://www.scribd.com/embeds/257487527/content?start_page=1&view_mode=scroll&show_recommendations=true

Ellen Pao:

   Amended Complaint filed by Ellen Pao against Kleiner Perkins

https://www.scribd.com/embeds/257487796/content?start_page=1&view_mode=scroll&show_recommendations=true