Por que a maternidade ainda é um peso na carreira das mulheres?

Aluna da Fundação João Pinheiro explica o conceito de “teto de vidro” e compartilha o que aprendeu em suas pesquisas sobre o assunto

Aos 22 anos, a mineira Marcela Trópia é graduanda em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e, nesse semestre, construiu um estudo sobre maternidade e carreira como parte de sua monografia de conclusão do curso.

Prestes a se tornar Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) do Estado de Minas Gerais, ela usou esse mesmo grupo de servidores públicos como fonte para suas reflexões sobre os desafios da mulher no mercado de trabalho.

A seguir, ela compartilha um pouco do que aprendeu em sua pesquisa:

O tema de minha monografia não poderia ser outro que não fosse relacionado à vida das mulheres, razão pela qual tenho dedicado minha trajetória, inclusive na política, quando decidi ser candidata a vereadora em Belo Horizonte para ampliar a representatividade feminina na Câmara Municipal. Por isso, escolhi pesquisar sobre a maternidade e quais seus impactos na carreira de algumas colegas que trabalham no governo de Minas Gerais. 

Algo que sempre me incomodou em relação à construção das minhas escolhas profissionais era em qual ponto eu iria ter filhos. É a mesma preocupação da maioria das mulheres que iniciam sua vida profissional e que também pensam em serem mães. A maior parte dos homens, por outro lado, não se faz esse tipo de questionamento e nem pensa cada etapa atrelada à paternidade. Mas por que essa diferença entre homens e mulheres ainda acontece?

No estudo, proponho algumas reflexões sobre a atual divisão sexual do trabalho, expressão que representa a ideia de que existem funções “de mulher” e “de homem” na nossa sociedade. Ser mãe, cuidar dos filhos e da casa são exemplos de atribuições socialmente femininas, enquanto fazer manutenções no lar, ganhar dinheiro e liderar a família seriam tradicionalmente tarefas masculinas. Conceitos que, a cada, dia têm sido desconstruídos (ainda bem!).

Comecei a pesquisa tentando entender como as mulheres vivenciam a maternidade em outras carreiras. Pude perceber que se tornar mãe ainda é um entrave para as diferentes profissões existentes no mercado privado e no mercado público.

De forma geral, as mulheres tendem a vivenciar um fenômeno chamado “teto de vidro”¹. Mas o que isso quer dizer? Isso significa que crescimento profissional feminino enfrenta diferentes obstáculos de ascensão e costuma passar por uma redução de velocidade após a maternidade – em alguns casos, chega até mesmo a estagnar completamente, e esse ponto é chamado de “teto”. 

Além disso, esse teto é de vidro, afinal, não possui nenhuma estrutura legal ou formal que o imponha. Pelo contrário, essas barreiras são transparentes, constantemente mascaradas por preconceitos sociais e reproduzidas diariamente, muitas vezes até inconscientemente pelas pessoas que compõem uma organização.

Por exemplo, a partir do momento em que se tornam mães, as mulheres passam a ter horários de chegada e saída no trabalho mais rígidos, pois normalmente se adequam à rotina das crianças. Além disso, a possibilidade para viagens se reduz e a disponibilidade para levar trabalho para casa também. Todas essas mudanças podem ser interpretadas pela chefia e pela equipe como motivos para queda no rendimento profissional, justificando uma estagnação na carreira e dificultando uma promoção.

Já repararam que, quando os homens se casam e têm filhos são considerados profissionais mais confiáveis? Pois, teoricamente, possuem uma família para sustentar e não tomariam decisões arriscadas. Quando a mulher se casa, os comentários mais comuns são “em breve ela vai querer ter filhos, quem vai ficar no lugar dela?”. E, com a chegada da maternidade, passam a ser tratadas como profissionais menos produtivas, pois passarão noites em claro, precisarão os filhos ao médico, dentre outros “problemas de mulher”, como costumamos ouvir.

Na realidade, essa exclusão e mudança de tratamento em relação às mães são grandes injustiças. O principal motivo para isso está relacionado à acumulação das responsabilidades de cuidados com os filhos pela figura feminina. Se pai e mãe compartilhassem essas tarefas, talvez os impactos nas carreiras fossem mais equânimes e todo o ambiente de trabalho poderia ser mais compreensivo com casais (e não só mulheres) que acabaram de ter filhos.

Ao perceber esses diversos desafios colocados às mulheres e suas carreiras, é que eu e minha orientadora, Marina Amorim, elaboramos um roteiro para entrevistar três mães EPPGG do Estado de Minas Gerais, que estão no topo dessa carreira, a fim de entender como elas driblaram se é que driblaram todos esses problemas para crescerem e se tornarem profissionais reconhecidas e realizadas na área governamental.

Notei que, de alguma forma, todas as três possuem o planejamento como um fator crucial. Duas das mães aderiram à estratégia de adiar a maternidade, ou seja, preferiram se dedicar profissionalmente para depois serem mães, quase aos 40 anos. A terceira entrevistada, ao contrário, foi mãe muito jovem e precisou abdicar de tempo com a filha nos seus primeiros anos de vida para conseguir ascender na carreira.

Ou seja, programar e organizar cada passo, na medida do possível, é um caminho adotado pelas mulheres que querem continuar a trabalhar e não abrem mão de serem mães. Essa seria uma estratégia positiva, relacionada ao planejamento familiar, se de fato fosse compartilhada entre homem e mulher. Hoje, somente a maternidade é planejada, como um fenômeno que, se acontecer fora de hora, pode se tornar um “fardo”. Ao contrário, quando a paternidade acontece, em casais estáveis, é, na maioria das vezes, bem-vinda e bem vista socialmente.

Outra coisa que percebi durante as conversas com as EPPGG é que o fato de estarem em uma carreira pública, ou seja, de possuírem estabilidade, foi um aspecto tranquilizador. Elas puderam sair de licença e retornar ao trabalho sem o medo de serem demitidas pelos seus superiores.

Não é o que acontece no mercado privado, que ainda trata as mães de forma muito cruel, que se sentem culpadas de se afastarem de suas funções por seis meses para cuidarem de seus filhos. Nesse ponto da discussão, já podemos ver como a lei brasileira contribui para que a obrigação de cuidar da criança não seja compartilhada, já que a licença paternidade é somente de vinte dias.

Além disso, uma estratégia comum a essas mães EPPGG me chamou muita atenção: a terceirização das tarefas domésticas. Isso significa que todas elas possuem outras mulheres em casa para executar as atividades de cuidado com o lar e com os filhos, como lavar e passar as roupas, cozinhar, limpar, entre outras atividades.

Mas por que esse fenômeno traz preocupações para a discussão de gênero?

Primeiro, porque ele reforça a desigualdade de classe social, na qual somente as mulheres que possuem condições financeiras muito confortáveis conseguem custear alguém para trabalhar em casa. O segundo motivo é que a terceirização das tarefas domésticas reafirma que aquelas atividades precisam ser realizadas por uma figura feminina, seja ela a mãe ou alguma outra mulher contratada.

É aí que mora o problema. A maioria das mulheres permanecem carregando a responsabilidade exclusiva de tomar conta de tudo que acontece no ambiente doméstico. Em média, elas dedicam cerca de 29 horas semanais para essas atividades, enquanto os homens gastam somente 9 horas por semana. E, ainda que esse trabalho seja transferido para outra mulher contratada, as mulheres que entrevistei alegaram que a gestão da casa ainda é realizada por elas.

Finalmente, percebi que a discussão sobre maternidade é extremamente complexa e transita por diferentes esferas da sociedade. É uma mistura entre vida profissional, pessoal, conjugal e também um fenômeno que sofre interferência direta de ações governamentais.

Acredito que, para caminharmos rumo a uma equidade plena entre mães e pais, principalmente em relação às trajetórias e decisões em suas carreiras, serão necessárias mudanças na legislação trabalhista, mais políticas públicas para a família, desconstrução cultural das expectativas sociais relacionadas aos gêneros e uma nova divisão das tarefas domésticas entre as pessoas que habitam a casa, não mais somente entre as figuras femininas.

1. O conceito de “teto de vidro” é de autoria de Daniela Vaz, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e os dados sobre a jornada de trabalho mencionados no artigo são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006.

Marcela Trópia, colunista do Na Prática, é bolsista da Fundação Estudar e estuda na Fundação João Pinheiro, instituição mineira que prepara jovens para trabalhar na gestão pública. Aos 21 anos, ela foi candidata à vereadora de Belo Horizonte nas eleições de 2016.

  • Este artigo foi originalmente publicado pelo Na Prática, portal da Fundação Estudar