O nó do transporte nas decisões de carreira

A dificuldade de ir de casa para o trabalho (e voltar) ganhou importância na hora de escolher um emprego. Saiba o que fazer para lidar com essa questão

São Paulo – No dia 23 de maio deste ano, São Paulo bateu mais um recorde: o de maior engarrafamento da história da cidade, com 344 quilômetros de lentidão. Três dias antes, a cidade já havia atingido o recorde de engarrafamento do ano, devido a uma inesperada greve de motoristas de ônibus.

O metrô não suportou o aumento da demanda e ficou com estações lotadas. O episódio revelou a fragilidade do sistema de transportes da maior cidade do país.

A situação é crítica todos os dias, e não apenas em ocasiões atípicas. Uma pesquisa recente da TomTom, fabricante de equipamentos de GPS, revelou que a mobilidade urbana tem problemas graves nas nove maiores capitais brasileiras.

O quadro mais crítico está em Recife, que chega a ter lentidão em 60% das vias nos horários de pico, seguida por Salvador (59%), Rio de Janeiro (55%), Fortaleza (48%) e São Paulo (48%).

Conciliar as atividades diárias de morar, trabalhar e viver tem sido um desafio para profissionais brasileiros. As pessoas acordam cedo para ir ao escritório e costumam estender o expediente para evitar o trânsito da tarde, mesmo quando não se sentem pressionadas a ficar pelo volume de trabalho, pelo chefe ou pelos colegas.

O tempo excessivo no trabalho cria um ambiente workaholic e obriga o profissional a sacrificar atividades de educação, saúde e lazer. Perder tempo no trânsito também custa dinheiro.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro estima que os engarrafamentos tenham custado 28,7 bilhões de reais para o estado em 2013. Esse valor leva em consideração gastos com saúde e o custo de oportunidade — renda que as pessoas deixam de ganhar quando estão presas no trânsito.

A situação faz com que a localização do trabalho seja um fator de importância crescente nas decisões de carreira. Já são frequentes os casos de pessoas que optaram por um emprego próximo ao lar, ainda que isso represente uma renda inferior ou algum prejuí­zo na perspectiva de crescimento profissional. Tudo em defesa da qualidade de vida.

O problema da distância entre casa e trabalho já foi percebido pelas construtoras e incorporadoras do país. Em diversos empreendimentos imobiliários nas grandes cidades o slogan de lançamento do projeto adota o discurso da realização do sonho de morar perto do emprego.

Também é possível encontrar empresas que tomam a decisão de mudar de sede para facilitar a vida dos empregados. É o caso da SulAmérica Seguros, uma das principais do país no ramo, que em alguns meses vai deixar um prédio com poucas opções de acesso na marginal Pinheiros, em São Paulo, por um novo imóvel próximo a uma estação de metrô da cidade. 

A questão da mobilidade ganha espaço entre as empresas que estão abrindo novas unidades e precisam contratar funcionários. “A dificuldade de deslocamento influencia a decisão de companhias que estão se instalando”, diz Marcelo Ferrari, diretor de novos negócios da consultoria de RH Mercer, de São Paulo.

Para Ricardo Betancourt, presidente da Colliers, consultoria imobiliária corporativa, de São Paulo, esse tipo de preocupação é mais comum na pauta das empresas em épocas de crise e redução de custos, como a atual, e não muito em épocas de expansão. Normalmente a empresa transfere operações de apoio, como tesouraria, recursos humanos e compras.

“As mudanças são uma questão de custo, mas a preocupação com a qualidade de vida também influencia”, diz Ricardo.

Outro movimento que especialistas têm observado é o aumento do interesse das companhias por se instalar em cidades do interior. É o caso da Genpact, empresa de outsourcing de processos ligada à GE, que escolheu a cidade de Uberlândia, em Minas Gerais, para expandir suas atividades.

Em vez de competir com muitas empresas pelo mesmo funcionário em uma capital, a Genpact deu preferência a uma cidade média do interior. “A infraestrutura, incluindo a questão da mobilidade urbana, foi um aspecto importante da escolha, ao lado da disponibilidade de talento local”, diz Margareth Cardoso, diretora de RH da Genpact.

Com a medida, a empresa eliminou a localização como um problema para os empregados. “Um indivíduo tem vários papéis na sociedade e precisa harmonizá-los no dia a dia”, diz Margareth.

O desejo de conciliar trabalho com moradia também move o interesse de empreendedores. Após ter de se deslocar de Chapecó a Blumenau, em Santa Catarina, para fazer uma entrevista de emprego, o desenvolvedor de software Cássio Sperry teve a ideia de criar uma ferramenta que ajude as pessoas a encontrar oportunidades de trabalho mais próximas de sua residência.

Juntou um time de quatro profissionais e criou o site Social Nt. Entre as soluções, a ferramenta oferece vagas com base na geolocalização dos usuários. Lançado em maio, o site ainda está em fase de testes, e por enquanto a maioria das vagas é relacionada ao mercado de TI.

Mas a expectativa do criador é estar funcionando plenamente até o fim de 2014. “Queremos facilitar a vida das pessoas fazendo-as encontrar trabalho perto de casa e trazer para a internet a maneira como é feito o processo de recrutamento”, diz Cássio.

O que precisamos levar em conta se desejamos mudar de casa? É preciso calcular no papel o custo de morar, trabalhar e se locomover. “Antes de aceitar uma oferta, muitos candidatos fazem a conta de quanto tempo vão gastar no trânsito e avaliam se um aumento compensará isso”, diz Ricardo Haag, gerente executivo da empresa de recrutamento Page Personnel, de São Paulo.

Casos de trabalho que exige grande deslocamento diário não são sustentáveis. “Pelo que observo, as pessoas aguentam de um a dois anos em empregos que exigem mais de 1 hora de deslocamento”, diz Ricardo. “Depois disso, ou elas mudam de casa ou elas mudam de empresa”, afirma.

O planejador financeiro pessoal Valter Pólice Jr. diz que, do ponto de vista financeiro, a conta que deve ser feita na hora de avaliar uma mudança de emprego não é complicada. É preciso considerar pontos como salário, plano de carreira e benefícios, além de gastos com transporte.

Em relação à mudança de casa, sempre há um custo, mas que não costuma ser muito relevante. Se a pessoa muda para um apartamento mais caro, ela tem um custo de oportunidade do dinheiro gasto a mais, que poderia ser aplicado em algum investimento. Se o caso é mudar para um apartamento maior, há um custo com mobília para preencher os espaços.

E no caso de um menor pode ser que os móveis não caibam e também seja preciso comprar novos. “Quem tem família deve ficar atento a opções de escola e cursos de idiomas, por exemplo”, diz Valter. “É uma decisão bastante complexa e individual. Mas é crucial que se leve em consideração todos os aspectos para evitar uma surpresa desagradável mais para a frente”, afirma o planejador.

Vale lembrar que o estresse também pode ter impacto financeiro. Segundo Valter, quem perde horas no trânsito chega a um nível de irritabilidade e insatisfação que faz com que o corpo não admita mais nenhum desgaste. Isso leva a pessoa a tomar algumas decisões ruins, como fazer mais compras por impulso ou se alimentar de maneira inadequada, entre outras.

“A restrição é um tipo de estresse. Se a pessoa não está tranquila, ela tende a ceder mais em decisões como essas. Ela também passa menos tempo com a família e acaba querendo compensar com presentes. Isso é um problema muito comum que vejo nos executivos”, diz Valter.

Para a psicóloga Pamela Magalhães, uma das primeiras coisas que o profissional nessa situação deve fazer é um balanço de valores. “As pessoas muitas vezes priorizam, em um primeiro momento, o tamanho e o status do local em que moram.

Abrir mão desses valores pode significar um ganho real, pois, ao mudar para um lugar menor, porém mais próximo do trabalho, é possível melhorar a qualidade de vida”, diz Pamela, que seguiu o próprio conselho e trocou um apartamento de 450 metros quadrados por um de 90, mais próximo do consultório.

“Mais importante do que o tamanho é o tempo que a pessoa tem para usufruir desse espaço e para estar com aqueles que considera importantes”, afirma a psicóloga.

As medidas que as empresas tomam para minimizar o problema são conhecidas, e o profissional deve lutar por estes direitos: permissão para trabalhar em casa, expediente flexível e escritório virtual. O profissional deve lutar para receber esse tipo de benefício caso não tenha acesso a nenhum deles.

“É importante que seja combinado com o gestor, pois o tempo comum entre a equipe integralmente junta diminui”, diz Françoise Trapenard, da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).

Mudar de casa não é uma decisão trivial. Mas, dependendo do resultado, pode ser uma boa escolha. Nesse tipo de situação é importante que a pessoa saiba pesar as prioridades, pois toda mudança implica perdas e ganhos.

“Tem gente que não se incomoda de perder tempo no trânsito, lê, ouve música. Mas, se fica muito estressada, se desgasta. Isso pode levar a depressão, ansiedade e até síndrome do pânico. O que é mais importante? Ganhar mais dinheiro, passar mais tempo com a família, ter tempo para se exercitar? Esses valores mudam de pessoa para pessoa”, diz Pamela.