São Paulo - O talentoso jovem profissional brasileiro, recém chegado aos Estados Unidos, cheio de gás, ralou sem trégua dias seguidos no novo trabalho. Queria impressionar a direção: todos os dias ele entrou mais cedo e saiu mais tarde, com almoço de 20 minutos, fim de semana nem pensar. Estava crente de que abafava, mas levou um tremendo susto. Chamado pela gerência para uma conversa séria, ouviu a advertência: ou diminuía aquele ritmo alucinado ou seria demitido. A sua atuação frenética não interessava, provocava estresse nele próprio e em todos à volta. Pior: dedicar tantas horas ao trabalho para fazer algo que os demais colegas resolviam dentro do expediente, era sintoma de baixa produtividade ou incompetência.

Parte de um grupo cada dia menor – dos que transformam a atividade profissional em principal e única meta da vida –, o compatriota fogoso não soube interpretar os sinais dos novos tempos. Se observasse melhor, notaria que foi-se a moda em que o adepto compulsivo do trabalho, também conhecido como workaholic, foi valorizado pelo mercado. Hoje pária banido à vala comum dos viciados, seus integrantes perfilam ao lado dos alcoólatras, drogados e de uma nova classe em ascensão, os fumantes, na categoria “indesejável social”. O workaholic é visto como um profissional moralmente manco, que penaliza os demais pela sua própria falta de planejamento, má gestão do tempo, incapacidade de trabalhar em equipe e, quem sabe, distúrbios psicológicos.

Pessoas que fazem do trabalho a razão de ser na vida não são propriamente uma novidade. Esse comportamento bizarro ganhou destaque há uns vinte anos, a partir do incêndio que a globalização provocou sobre a economia, usando como combustível a comunicação instantânea da internet. A propagação da nova ordem aguçou a competitividade entre nações e empresas. No roldão, holofotes da fama glamurizaram o profissional dedicado ao extremo – geralmente gente com necessidade imperiosa de demostrar valor para si própria e para os outros.

O que ninguém esperava era que, como um bônus não solicitado, junto surgisse um subproduto: vaidade e ganância. Com o pretexto de trabalhar para sobreviver, a praga transmissível do workaholismo passou a afetar colegas, amigos e familiares. Contabilizados ganhos e perdas, pesaram bem mais as segundas. Assim, de herói, o workaholic virou vilão.

Mas é preciso cuidado nessa rotulagem. Nem sempre é fácil distinguir um trabalhador legitimamente dedicado ao que faz de um workaholic. Um médico que se entrega de corpo e alma durante 70 horas por semana à saúde de seus pacientes pode ser menos viciado em trabalho que um contador que se dedica 40 horas aos livros de caixa. Nesse caso, o que define o viciado é o tipo de vida que leva fora do trabalho.

Assim, o médico laborioso ao extremo pode ter uma equilibrada vida social e familiar, enquanto o contador pode ser do tipo que não quer nem voltar para casa. O workaholic sobe uma escada que o conduz à compulsão. O que o diferencia dos demais trabalhadores é a capacidade de se apaixonar pelo processo em si, o que inclui um desempenho interminável e neurótico em seu fazer. É tão absurdo quanto o turista que deixa de prestar atenção ao roteiro da viagem para se ater apenas ao movimento do veículo que o transporta. Fazendo a transição para o mundo corporativo: conhece alguém apaixonado pelo Blackberry ou iPad, 24 X 7? Ok, você já entendeu.

Com o workaholic, cada vez mais identificado como um babaca funcional, não deu outra: brotaram especialistas de todos os tipos que oferecem suas panaceias para tirar o coitado dessa fria. Nesse arco-íris de curandeiros, há gurus que fazem palestras sobre qualidade de vida, outros que preconizam o uso inteligente do tempo e até uma organização que ajuda workahólatras anônimos. Difícil separar os sérios dos picaretas.

Um norte-americano, Howard Stone, anuncia-se na internet como “personal transition coach” – algo como um personal trainer de workaholic. Ele promete a cura por meio de doses diárias de acompanhamento, sem provocar efeitos colaterais, como a perda total do apetite pelo trabalho. Há alguém aí interessado?

Você trabalha demais?

Não precisa ser guru. Basta bom senso e pesquisa para montar um checklist básico que define o perfil do viciado em trabalho:

   Você estimula conversas sobre trabalho permanentemente?

  Discute sempre desempenhos de colegas e do empregador?

  Seu sono é constantemente interrompido por questões de trabalho?

  Costuma ir ao trabalho ou verificar email fora do expediente?

  Trabalha mais de cinco dias por semana, 8 horas por dia?

  Trabalha durante o almoço?

  Sempre que tira férias, leva trabalho na bagagem ou fica conectado?

  Costuma cancelar viagens de lazer por excesso de trabalho?

  Toda vez que vai para casa, dá boa noite ao último colega do escritório, funcionário da limpeza noturna ou vigia do prédio?

  Ao escovar os dentes, você faz a lista das atividades profissionais do dia?

Resposta: responder sim a todas as perguntas não significa necessariamente que você seja um workaholic — mas sem dúvida um trainee aplicado. O que determina a seriedade do problema é a frequência com que isso ocorre em sua vida.

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