São Paulo - Após anos de trabalho árduo numa empresa, qualquer profissional sonha em finalmente ocupar a cadeira do chefe e liderar uma equipe, certo?

A resposta seria mais simples se todas as pessoas tivessem perfil para cargos de gestão. Não é o caso: há profissionais que simplesmente não foram feitos para ocupar esse espaço.

É o caso de excelentes técnicos - que merecem crescer em status e remuneração dentro da empresa - mas não sabem ou não querem liderar.

Eles não são poucos. Um recente levantamento do site Career Builder com cerca de 3,6 mil profissionais norte-americanos de todas as idades revelou que somente 34% deles almejam posições de chefia.

Para recompensar e reter profissionais desse tipo, algumas empresas oferecem um modelo de ascensão profissional alternativo, conhecido como carreira em Y.

O funcionário pode escolher duas trajetórias de crescimento: ou ele segue o caminho tradicional e se torna gestor, ou opta por se tornar um especialista técnico - um cargo tão sênior quanto os outros e com salário por vezes até maior do que o dos líderes.

De acordo com Ernesto Haberkorn, fundador da TOTVS e diretor da TI Educacional, a segunda opção é ideal para pessoas com perfil introspectivo, detalhista e estudioso, que preferem a dimensão "mão na massa" das suas profissões.

Profissionais com essa característica podem se sentir tão desmotivados e infelizes num cargo gerencial que muitas vezes acabam abandonando seus empregos, explica Haberkorn. Daí o interesse das empresas em oferecer essa possibilidade: é o segredo para não deixar os bons técnicos irem embora.

E na crise?
Em desenvolvimento no Brasil desde a década de 1970, o modelo de carreira em Y pode ser especialmente interessante para profissionais e empresas em meio à crise econômica que abate o país.

De acordo com Haberkorn, o péssimo momento da economia exige investimento alto em inovação - uma área em que os especialistas técnicos valem ouro. Retê-los e valorizá-los é, portanto, um investimento estratégico para ganhar eficiência.

O mesmo argumento é mencionado por Claudia Ajbeszyc, gerente de recursos humanos da Locaweb, empresa que adota o modelo de carreira em Y desde 2012.

“Neste momento, mais do que nunca, precisamos contar com profissionais altamente especializados para cortar custos, otimizar processos e aumentar a nossa produtividade”, explica ela.

Para Nicole Lunardi, gerente de RH da agência Cadastra, que também adota esse modelo de ascensão profissional, a crise econômica tem ainda outro impacto: as empresas demitem antes quem ocupa cargos de gestão.

“Os primeiros a serem desligados são os que têm altos salários e desempenham funções generalistas, como a de liderança”, diz Nicole. "Além disso, as empresas têm aberto mais vagas para especialistas, cujo trabalho é mais mensurável, com foco na entrega e alinhado à dimensão prática do negócio”.

Um pouco de tudo
Ainda assim, o profissional que opta pela vertente técnica da carreira em Y pode acumular funções para dar conta da complexidade das exigências trazidas pelo momento.

Thiago Rodrigues, que escolheu se tornar um especialista na All In, empresa ligada à Locaweb, diz que em sua rotina não cuida exclusivamente das tarefas técnicas.

“É preciso ser multidisciplinar, o que não permite se concentrar em apenas um dos dois lados da carreira”, explica ele. “Mesmo decidindo seguir como técnico, por exemplo, é preciso estar preparado para assumir um papel de gestor num momento crítico”.

Para Cristiane Farias, estrategista na área de atendimento da agência Cadastra, quem opta por crescer em Y escolhe apenas uma ênfase, e não a tônica completa do seu trabalho na empresa. “Apesar de ser especialista, ainda me deparo com demandas e funções ligadas a um perfil mais generalista”, diz ela.

Uma versão híbrida de carreira tem até nome: modelo em W. A proposta é que o profissional seja técnico e gestor ao mesmo tempo, atuando como especialista, mas assumindo o papel de líder de algumas equipes em projetos específicos. A modalidade tem sido adotada por empresas tão distintas quanto a Embraco e o Hospital Sírio-Libanês.  

Segundo Haberkorn, tanto o modelo em Y quanto em W são especialmente interessantes em meio à crise. Afinal, diz ele, este é o momento em que a busca por eficiência exige o aproveitamento máximo dos diversos tipos de talento. 

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