São Paulo – Era início dos anos 90. A década perdida tinha apenas acabado de dar seu suspiro final, mas suas sementes ainda davam muitos frutos por aí. “A abertura do Brasil para as empresas estrangeiras nos anos Collor gerou um reajuste na força de trabalho: muitos perderam os empregos, outros tiveram que reformatar o trabalho”, conta Vicky Bloch, sócia da Vicky Bloch Associados, uma das principais consultorias de coaching no Brasil.

A percepção disso fez com que ela criasse uma metodologia de aconselhamento profissional focada em executivos. A ideia era repaginar a carreira dos profissionais para que eles pudessem voltar com tudo para o mercado. 

Hoje, o cenário é outro. Quem chega no escritório de Vicky quer se desenvolver na carreira e tomar melhores decisões. Neste ponto, as questões de relacionamentos são a principal queixa que os executivos trazem.

“A gente vinha de uma cultura que você você falava, não escutava e sempre tinha uma boa resposta para dar. Estamos falando do contrário hoje”, descreve a especialista. Para ela, os chefes precisam entender que eles são o meio para a ascensão profissional dos funcionários. “A sua principal função é ser um facilitador, um coach o tempo todo do subordinado”, diz. Confira trechos da entrevista feita por EXAME.com: 

EXAME.com: Como foi a sua primeira experiência como chefe?
Vicky Bloch:
Foi em 81 ou 82 quando assumi uma posição de gerente de recrutamento e seleção. Eu tinha 31 anos – naquela época, muito jovem para assumir uma área e ainda por cima, mulher. A primeira dificuldade era exatamente esta. Depois, de ter o respeito de quem me solicitava. Eu sempre era desafiada, eles me testavam para ver se eu tinha vindo para agregar ou tampar buraco.

EXAME.com: Como você lidou emocionalmente com isso?
Vicky Bloch:
O tamanho do sentimento de insegurança era monstro, mas eu sempre tive uma preocupação de autoconhecimento. Então, eu passei a lidar com a insegurança estruturando as coisas que eu iria fazer. O trabalho passou a ser menos intuitivo e mais estruturado primeiro para mim, para depois passar para o grupo.

EXAME.com: As empresas afirmam apostar em jovens para que eles mudem o “status quo”. Isso é fácil para os jovens?
Vicky Bloch:
Nesta fase da vida, a gente precisa de um bom mentor, um modelo. Só que a pressão por resultados dentro das organizações, faz com que as lideranças pensem que “não têm tempo para isso” ou não veem nisso um investimento rentável. Daí, você fica sem modelo, sem orientador.

EXAME.com: A solução é procurar um coach?
Vick Bloch:
O coach externo entra para resolver um caso pontual. A função do chefe é fazer o coaching da carreira profissional do funcionário. Ele não tem que fazer nada mais além disso.

EXAME.com: Como assim? 
Vick Bloch: O papel do seu chefe é fazer o texto que você tem que escrever? Logico que não. É ele quem dá as diretrizes, a estratégia, faz com que você se sinta incluída no processo, ao mesmo tempo em que mostra onde você precisa reforçar. Mas ele não pode pôr a mão. Não é coaching isso?

EXAME.com: Qual a queixa que os executivos mais trazem?
Vicky Bloch:
Hoje, temos um percentual muito grande de pessoas que tem um gap relacional. É um executivo que entrega resultados, mas tem um “pequeno probleminha” ao gerar gente: como você administra, trabalha e usa o tempo do outro.

EXAME.com: Uma pesquisa recente de Stanford mostra que o principal aspecto que os presidentes de empresa nos Estados Unidos admitem que precisam melhorar é resolução de conflitos. Isso é verdade para o Brasil?
Vicky Bloch:
Não acho que este é o tema principal na questão de relações aqui no Brasil. É também, mas não é o principal. O principal é conseguir tratar o outro como igual. Entender que você, como líder, é meio para o crescimento do outro. Que a sua principal função é ser um facilitador, um coach o tempo todo do subordinado.

A gente vinha de uma cultura que você dizia o que o outro tinha que fazer, você falava, não escutava e sempre tinha uma boa resposta para dar. Estamos falando do contrário: você faz perguntas e ouve ativamente.

EXAME.com: Cerca de 30% dos jovens já estão em um cargo de chefia. Se o chefe tem que ajudar o outro a crescer, um jovem não seria inexperiente para assumir este papel?
Vicky Bloch:
Este é um dos grandes problemas que nós temos hoje. Estamos promovendo uma jovem geração para cargos de chefia sem criar também uma condição de eles terem um suporte na sua inteligência emocional. Todo investimento que você precisa fazer para que ele cresça como líder é capacitá-lo a ter maturidade e entender o outro como semelhante.

EXAME.com: Um consultor certa vez disse que a Geraçaõ Y é 8 ou 80: ou assume o papel de chefe amigão ou de autoritário. Você concorda com esta ideia ?
Vicky Bloch:
Não consigo generalizar assim. O fato é que todo processo relacional da jovem geração passa pela tecnologia e a tecnologia tira a possibilidade de você crescer no relacionamento com o outro. O ser humano não mudou. O que mudou foi a tecnologia. O ser humano materializa a relação no contato pessoal. Ele é capaz de criar mais vínculo quando olhou no olho e fez o contato que cria criança. Estamos carentes disso.

EXAME.com: Em que você mais errou como chefe?
Vick Bloch:
Aprendi algumas coisas como ouvir as pessoas falarem coisas que eu não gosto. Foi muito difícil porque eu tenho um alto nível de exigência comigo mesma e, mais para trás, tinha baixa maturidade. Quando somos mais jovens, nos sentimos inseguros quando recebemos uma crítica, mas isso faz parte do jogo.

Outra lição é que a vida é feita de percalços mesmo. Tem dia que não dá certo, mas se você criou relações boas, você supera. A grande sacada é essa: se você é uma boa liderança, a turma é turma mesmo e está com você, dá para você chorar e dizer que errou.

EXAME.com: Então, é possível ser vulnerável no trabalho?
Vicky Bloch:
Você é vulnerável. O que falta é negociar no ambiente de trabalho como as pessoas lidam com a percepção a seu respeito. Por exemplo, você pode dizer para seu chefe que você se emociona em algumas situações. Isso é importante para que ele entenda as reações que você vai ter e trabalhe com mais facilidade. A negociação do seu jeito de ser é fundamental para ser compreendido por completo.

EXAME.com: Mas há espaço para isso?
Vicky Bloch:
A insatisfação vem disso: porque você não tem espaço. As pessoas acham que conversar com os outros para se entender melhor é gastar tempo, não investir.

EXAME.com: Se pudesse voltar no tempo e sussurrar no seu ouvido, no primeiro dia que assumiu o cargo de chefia, qual conselho daria para si mesma?
Vicky Bloch:
Seja humilde. Admita o que você não sabe e vá procurar ajuda.