Wagner Ribeiro é hoje um dos principais procuradores de atletas profissionais do Brasil. O empresário capitaneou a transferência para a Europa de jogadores foras-de-série como Kaká (que foi do São Paulo para o Milan em 2003 por 8,5 milhões de euros) e Robinho (do Santos para o Real Madrid em 2005 por 30 milhões de dólares). São-paulino de coração, Ribeiro também tem em seu currículo negociações envolvendo Júlio Baptista, França, Fábio Aurélio, Ilsinho e Lulinha. Atualmente é o agente do goleiro Felipe e do atacante Neymar, ambos do Santos, e do meia são-paulino Marcelinho, que foi o principal destaque tricolor na conquista da última Copa São Paulo de Futebol Júnior. EXAME conversou com Wagner Ribeiro e com Humberto Paiva, um dos agentes FIFA que trabalha em sua empresa, e descobriu que para um jogador ser negociado com um clube europeu é preciso ser muito mais do que bom de bola. Times como Manchester United, Chelsea, Real Madrid ou Barcelona só vão desembolsar milhões de dólares por craques que tenham boa parte das dez características descritas abaixo:

1 - Ter passaporte europeu. Há vários países que impõem restrições severas para a atuação de jogadores brasileiros, que vão desde a limitação do número de estrangeiros que podem atuar em um único clube até a exigência de que o craque tenha em seu currículo passagem pela seleção brasileira. A Inglaterra, por exemplo, só contratou 7 dos 1.017 jogadores exportados pelo Brasil no ano passado. Para Portugal e Alemanha, foram 181 e 60, respectivamente. A principal explicação para toda essa diferença é que é as barreiras para o jogador brasileiro são muito maiores no futebol inglês. Há casos até de jogadores que chegaram a ser negociados com clubes estrangeiros, mas tiveram de voltar porque não conseguiram o visto de trabalho. Esse é o caso de Deyvid Sacconi, que deixou o Palmeiras com destino ao clube francês Nantes por cerca de 6,5 milhões de reais neste ano, não obteve o visto de trabalho e foi devolvido dias depois.

2 - Passar por um clube grande. Coritiba e Palmeiras protagonizaram duas transações emblemáticas que tiram qualquer dúvida sobre o peso de uma camisa no momento da transferência de um atleta. No início de 2008, o zagueiro Henrique deixou o clube paranaense rumo ao paulista. O negócio, que teve a participação da Traffic, parceira do Palmeiras, envolveu 6 milhões de reais. Cinco meses depois, Henrique foi vendido ao Barcelona por 10 milhões de euros. O atacante Keirrison trilhou caminho semelhante. A Traffic desembolsou 7 milhões de reais para transferir o jogador do Coritiba ao Palmeiras no início de 2009. Também após apenas cinco meses, o atacante foi para o Barcelona por 15 milhões de euros. Para Wagner Ribeiro, os dois jogadores nunca teriam sido vendidos por esses valores se tivessem continuado no Coritiba. Não que o clube paranaense não tenha estrutura nem tradição como celeiro de craques. Mas o Palmeiras construiu na Europa uma reputação de negociar excelentes jogadores. Além disso, jogar nos grandes clubes de São Paulo inclui ter maior visibilidade, disputar títulos importantes, aparecer na mídia o tempo todo e ser observado mais de perto por olheiros de clubes estrangeiros e da seleção brasileira.

3 - Fazer parte de uma família bem-estruturada. Para jogar bem em clubes da Alemanha, por exemplo, é necessário ter toda a família por perto - o que inclui pai, mãe, esposa e filhos, se possível. Logo que chegar ao clube europeu, o jogador terá de se adaptar ao frio, aprender uma língua bem diferente e ainda entender a dinâmica de trabalho de treinadores extremamente metódicos. Além de superar todos esses desafios, o jogador precisará estar motivado o tempo todo para ganhar um lugar no time titular. Na Alemanha, não basta ser craque. É preciso treinar duro para não esquentar o banco de reservas.

4 - Ter porte físico. Um craque com menos de 1,65 metro dificilmente vai se destacar na Europa hoje em dia. A altura média dos defensores aumentou muito nos últimos anos. Para enfrentá-los, os clubes italianos e ingleses gostam de contratar atacantes como Adriano (Roma) e Drogba (Chelsea). Wagner Ribeira relembra o caso do atacante Elton, que jogou no Corinthians em 2006. Considerado pelo empresário um dos jogadores mais talentosos para quem já trabalhou, Elton nunca conseguiu se transferir para um grande clube europeu. Com 1,56 metro, ele passou por clubes da Romênia e da Arábia Saudita antes de retornar ao Brasil.

5 - Ser um meia ou um centroavante com muita técnica. Esse é o típico jogador que raramente se encontra em equipes da Europa. Acostumados a um futebol menos rígido taticamente, os craques brasileiros estão bem mais acostumados a improvisar dribles e jogadas que podem decidir uma partida. Para os clubes europeus, a forma mais barata de contratar esse tipo de jogador é vir ao Brasil. Já zagueiros, goleiros e volantes podem ser contratados internamente.

6 - Ter idade entre 14 e 18 anos. Esse é o melhor momento para fechar a aquisição dos direitos econômicos de um jogador. Se o atleta tiver mesmo talento, ficará bem mais caro a partir do momento que começar a atuar num grande clube. Com mais de 20 anos, o bom jogador já terá deixado de ser uma promessa e haverá dezenas de clubes europeus interessados. É como se algum empresário tentasse adquirir os direitos econômicos de Neymar ou Ganso agora. Muito provavelmente o preço inviabilizaria qualquer negócio.

7 - Ser brasileiro. Há muitos bons jogadores na Argentina e no Uruguai. Boa parte deles têm até mais facilidade para conseguir um passaporte europeu. Argentinos e uruguaios também são conhecidos por apresentarem um melhor comportamento fora de campo e serem mais disciplinados taticamente. No entanto, os clubes dos países vizinhos ainda conseguem menos dinheiro que os brasileiros na hora de vender os direitos econômicos de um jogador. Devido à falta de estrutura, os clubes dos países vizinhos são obrigados a aceitar propostas não tão boas para saldar seus compromissos financeiros. Já no Brasil há um histórico de transações mais altas que faz com que os clubes nem considerem ofertas menos tentadoras que a média.

8 - Ter currículo. No futebol, isso não é sinônimo de domínio de línguas estrangeiras, pós-graduação no exterior ou experiência em grandes multinacionais. O que conta mesmo para um jogador é ter passado pelas categorias de base da seleção brasileira. Clubes e empresários vão sempre se perguntar por que alguém nunca foi convocado mesmo que o considerem um craque.

9 - Contratar um empresário experiente. Não é à toa que nomes como Wagner Ribeiro, Juan Figer, Gilmar Rinaldi e Eduardo Uram tenham sido empresários de tantos craques. Para ganhar dinheiro no futebol, é necessário ter muito jogo de cintura e um excelente relacionamento com os grandes times. Um técnico pode muito bem deixar de escalar um jogador apenas porque o clube não tem um percentual de seu passe e prefere manter na vitrine outro que pode lhe gerar um retorno financeiro. O empresário também precisa ter um canal aberto com os clubes estrangeiros para saber que tipo de jogador está em falta em determinado time. É esse tipo de informação que vai facilitar o fechamento de transações milionárias rapidamente.

10 - Só assinar contratos que favoreçam futuras transações. O interesse dos clubes é sempre manter um bom jogador pelo maior tempo possível pagando o menor salário aceitável. Um jogador que ainda não despontou até aceita termos pouco vantajosos para fechar o primeiro contrato com um grande clube. Mas não pode comprometer ou adiar um futuro brilhante pela pressa de ganhar visibilidade. Artimanhas jurídicas também devem ser utilizadas para que uma transação não seja inviabilizada. O atacante Neymar, do Santos, por exemplo, possui em seu contrato uma cláusula que prevê que, em caso de transação, a parte do dinheiro que deverá ser paga ao grupo Sonda (dono de 40% de seus direitos econômicos) não passará primeiro pelo caixa do Santos. A precaução é necessária porque o clube está bastante endividado e os recursos poderiam ser penhorados. Protegido juridicamente, o grupo Sonda não terá razão para dificultar uma transação no futuro.

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