São Paulo - Ele já vendeu e continua vendendo milhões de livros. Com 35 anos de carreira, Roberto Shinyashiki é um dos palestrantes brasileiros mais requisitados por empresas e órgãos públicos. Ministra cursos de formação de empresários e de palestrantes. E, como executivo, está à frente da Editora Gente.

Médico psiquiatra e terapeuta de formação, ele tem MBA e doutorado em gestão de negócios pela Universidade de São Paulo (USP), especialização no Japão e já participou de seminários e convenções mundo afora. 

Mas, diz ele, não é isso que o mantém no mais alto degrau da sua carreira. “Eu não confio no meu currículo. Confio na minha capacidade em ajudar o meu cliente a resolver o problema dele e, se me perguntar por que eu ainda estou no topo, eu digo que é por isso”, afirma.

Ao abrir as portas do seu escritório em São Paulo para EXAME.com ele falou sobre sua trajetória, as guinadas de carreira que empreendeu, sucesso, problemas e motivação profissional. Confira os principais trechos da conversa:

EXAME.com – De médico psiquiatra a um dos palestrantes mais disputados do Brasil e escritor de sucesso. Como foi essa guinada de carreira?

Roberto Shinyashiki – Estou nesse mercado de palestras há 35 anos. Sou psiquiatra, mas comecei minha carreira atendendo clientes de psicoterapia. No fim dos anos 1970, começo da década de 1980, um amigo meu, o Marco Antonio Oliveira, atendia alguns herdeiros que estavam em conflitos. Naquela época não havia essa série de especialistas na área de sucessão para fazer o trabalho de integração e de resgate da cooperação e fui levado para fazer esse trabalho. Esses herdeiros gostaram do meu trabalho e pediram para eu falar sobre temas de liderança, manejo de conflitos, formação de equipes nas suas empresas. Naquela época não existiam as palestras, essa é a história do nascimento das palestras.

EXAME.com- Você foi um dos criadores desse mercado de palestras?

Roberto Shinyashiki – Como esses herdeiros eram os donos das empresas, eles fizeram isso acontecer, porque quando o dono fala que quer... Isso virou uma coqueluche, eu ia para várias empresas, de todos os tipos, de Philip Morris a Alpargatas. E, em 1984, eu resolvi escrever meu primeiro livro, “A Carícia Essencial”, que fala da importância de a gente falar para as pessoas o que é importante, falava para o pai falar “eu te amo” para o filho, para o “chefe falar você é importante para o colaborador” e esse livro estourou. Virou texto de pós-graduação de recursos humanos, de gestão de negócios e comecei a ser convidado para fazer seminários sobre ele. Então, no fim dos anos 80 quando começou essa moda de palestra organizacional, de convenções, eu já estava no mundo das empresas.

EXAME.com – Você fala que recebeu muitas críticas durante a sua vida. Por quê?

Roberto Shinyashiki - A minha vida inteira eu fui criticado. Quando estava na faculdade de medicina, era um dos melhores alunos de cirurgia e meu professor falou que queria que eu fosse assistente dele. Se eu ficasse na cirurgia já estava com minha vida organizada, e quando você está na faculdade ter um porto seguro é algo que atrai. Deu muito trabalho falar para ele que iria para a psiquiatria, ele perguntou: por que você vai fazer isso, você é tão inteligente. Em 1975, só de eu ir para psiquiatria eu era um rebelde porque quem ia ser psiquiatra diziam que era porque não queria estudar muito. E quando fui para psiquiatria, comecei a estudar psicoterapia. Naquela época era muito forte a coisa de dar eletrochoque, dar remédio, tinha que internar, e eu fui para psicoterapia, que é conversar. Meus colegas psiquiatras diziam: “Agora você realmente resolveu “avacalhar” com tudo”.

EXAME.com- Você continuou sendo criticado?

Roberto Shinyashiki – Continuei, porque fui estudar psicoterapia de grupo. Aí meus colegas da psicoterapia individual me chamavam de charlatão. Aí lancei o livro “A Carícia Essencial”. Meus colegas psiquiatras, que esperavam um tratado de 500 páginas porque eu era muito estudioso, disseram: “pô Roberto, você escreve esse livrinho aí”. E por aí foi. Veja o que ele diz no vídeo:

EXAME.com - E como você não se deixou se abalar?

Roberto Shinyashiki – Quando eu fui para psicoterapia de grupo, já tinha feito uns três cursos de especialização nos Estados Unidos, não foi algo que eu li em um livro e fui fazer. Aí as críticas não abalam. Por exemplo, o mundo das palestras está mudando. Vai ter um pré-palestra, palestra e pós-palestra. Estou construindo essa nova plataforma, estou estudando isso que nem um louco. Se alguém me falar que não vai dar certo, eu digo que não dá certo porque você não consegue ver.

Exame.com - Só tem sucesso na vida quem realiza o que realmente quer?

Roberto Shinyashiki – Essa pergunta toca um conceito importante de sucesso. O que é sucesso? É a realização de objetivos. Um dos erros das pessoas e da sociedade é querer padronizar os objetivos. Para mim, o sucesso pode ser muito diferente do sucesso de outra pessoa. Poderia ter ganhado 10 vezes mais de dinheiro se eu não valorizasse a minha família, se eu não valorizasse meus filhos, meus amigos. O que a gente precisa ter claro é que sucesso é diferente para cada um. 

EXAME.com – Mas, amar o que faz é importante?

Roberto Shinyashiki - Acho que é importante amar o que faz, mas também é preciso cuidado com esse “amar o que faz”. Porque uma professora de datilografia ama o que faz, mas vai morrer de fome. Eu digo que é preciso amar o seu cliente. Depois de atender o seu cliente, se pergunte se você resolveu o problema dele, se ele está feliz. Aí você começa a ver que o cliente não precisa mais de datilografia, ele precisa de informática. 

EXAME. com – Essa é a nova lógica que rege o mundo dos negócios, que você explica no livro “Problemas? Oba!”?

Roberto Shinyashiki – Quando a pessoa para de se atualizar, ela para de resolver problemas dos seus clientes. O sucesso significa ajudar o seu cliente a resolver problema, fracasso é não conseguir  ajudar o cliente a resolver o problema. O negócio tem que ser orientado para ajudar a resolver problemas. Por que o Google fez sucesso? Tinha aquela bagunça de informações e eles organizaram, resolveram o problema.

EXAME.com – Solucionar problemas é a chance de crescer em tempos de crise?

Roberto Shinyashiki - É a chance de crescer em tempos de qualquer coisa. Vejo que muitas celebridades profissionais liberais falam o nome e já colocam seu currículo e eles confiam no currículo. Eu não confio no meu currículo. Não confio que sou doutor em gestão de negócios. Não confio que eu já fiz palestra em todos os lugares do mundo. Eu confio na minha capacidade em ajudar o meu cliente a resolver o problema dele. Se você me perguntar por que eu ainda estou no topo, eu digo que é por isso. 

EXAME.com – Um chefe que só queria boas notícias não dura muito no cargo?

Roberto Shinyashiki - Um amigo meu que trabalhava com o Bill Gates dizia que ele começava as reuniões na Microsoft pedindo para as pessoas contarem sobre os problemas que tinham. Dizia que, por ser o cara que mais conhecia o negócio e o que ganhava mais, podia ajudar os funcionários a resolverem os problemas. Outro amigo que trabalha com o Carlos Slim contou que uma vez ele disse durante uma apresentação que não estava ali para saber que a equipe estava fazendo um bom trabalho e, sim, para saber quais eram e ajudar a resolver os problemas. Veja é o homem mais rico e o segundo homem mais rico do mundo. É alguma coisa a se pensar. No Brasil tem essa frase histórica “não me traga problemas me traga solução”. Essa frase é ridícula e um grande equívoco da cultura brasileira. 

EXAME.com – No livro “A Carícia Essencial”, você diz que o desempenho profissional cai quando as pessoas não se sentem importantes, e não tanto pela perda do interesse. Isso é universal ou é só para quem tem problema de autoestima?

Roberto Shinyashiki – Para todo mundo. É que cada um tem um jeito de se sentir importante. Cantores como Ivete Sangalo, Titãs, Vitor e Leo se sentem importantes quando tem 50 mil pessoas assistindo a um show deles. O pessoal que ganhou o Nobel de Química se sente importante ao ganhar o prêmio. Não adianta colocar esses pesquisadores na frente de 50 mil pessoas, eles vão falar que preferem ficar em casa. Para cada pessoa é uma coisa. 

EXAME.com – Ajudar colegas de trabalho é fazer uma carícia essencial?

Roberto Shinyashiki – São dois lados. O brasileiro tem mania de ser paternalista. Falo com a minha experiência de terapeuta porque é muito comum o sujeito pagar uma fortuna para ir à sessão falar mal da mulher. Ele não quer mudar. A gente precisa ajudar quando vê uma vontade genuína, de aprender, de melhorar. É diferente, é muito importante ajudar, mas ajudar quem quer se ajudado e quem vai utilizar bem. Pior dos erros é ficar insistindo em uma pessoa. A ajuda vale quando você vê que a pessoa está aproveitando, porque senão ela está se encostando. Se o chefe começa a fazer o trabalho dos seus colaboradores, um dia ele vai se demitido porque não fez o que ele tinha que fazer.

Assista ao vídeo em que Roberto Shinyashiki explica como ter sucesso, sem ter que ser viciado em trabalho:

Tópicos: Carreira e Salários, Carreira, Entrevistas, Gurus, Sucesso