São Paulo – Em tempos de descompasso entre aquecimento da economia e oferta de profissionais qualificados, o cenário das entrevistas de emprego mudou de tom. Agora, os candidatos não são os únicos a “ficar na berlinda”. As empresas, do lado de lá da mesa, também precisam demonstrar se são coerentes ou não com os projetos de carreira de cada profissional.

Para encarar esse novo cenário, os candidatos, portanto, devem estar prontos para ir além do objetivo de impressionar o recrutador. Ele deve chegar na entrevista munido de questões precisas para decidir se aceitará ou não a proposta da companhia. “Acabou aquela postura de que a empresa era superior ao candidato durante o processo seletivo”, afirma Eliane Figueiredo, sócia-diretora da Projeto RH.

De acordo com especialistas, os recrutadores já esperam esse tipo de comportamento mais questionador. Querer saber mais sobre a companhia ou sobre a futura rotina de trabalho indica um elevado nível de maturidade profissional do candidato. “As companhias, hoje, valorizam pessoas críticas e que têm consciência do seu plano de carreira”, afirma a especialista.

EXAME.com selecionou algumas sugestões de assunto que você pode abordar durante a entrevista para tomar a melhor decisão

1. Quais os planos da empresa para os próximos cinco anos?
Antes de disparar uma porção de incógnitas para o recrutador, é preciso ter uma noção clara de qual o tipo de terreno em que está pisando. Aqui, a ideia não é apenas munir você contra gafes ou ajudá-lo a bancar o bem informado. Mas sim conseguir informações relevantes para a sua decisão profissional.

Dessa forma, não vale chegar na entrevista sem ter a menor noção sobre os negócios da empresa. É a partir desses dados prévios que você poderá medir qual o tipo de pergunta que irá fazer ao recrutador.

Um dos questionamentos essenciais, nesse caso, está ligado aos projetos da companhia para o futuro. “A partir dessas informações, você pode avaliar se a proposta da empresa é coerente com o seu plano de carreira”, diz Rafael Meneses, sócio-gerente da Asap.


2. Qual a cultura organizacional da empresa?
“O candidato precisa se lembrar que dedicará boa parte da vida dele para aquela empresa. É ali que ele irá realizar-se pessoal e profissionalmente”, afirma Lucas Copelli, sócio-diretor da Vallua. Em outras palavras, é essencial avaliar, antes de assinar o contrato, se a cultura corporativa combina com o seu perfil.

Neste sentido, vale questionar pontos como o grau de autonomia dos funcionários, políticas de avaliação e aspectos valorizados pela empresa no dia-a-dia.

Agora, não cabe perguntar sobre assuntos que denotem que você apenas está preocupado com seu bem estar. “Não pega bem ficar questionando sobre se irá trabalhar a mais, se as horas extras serão pagas”, diz Eliane.


3. Qual o perfil dos executivos bem sucedidos da empresa?
Um bom caminho para compreender qual a lógica de valorização da companhia é descobrir a trajetória profissional dos principais executivos da empresa. O perfil deles, a formação educacional, entre outros, poderá dar pistas sobre quais as chances de crescimento dentro da companhia. E, principalmente, se o seu perfil é coerente com essa lógica.

4. Qual a origem dessa posição?
Uma pergunta clássica para fugir de roubadas profissionais é saber por quais razões o cargo está disponível no mercado. Sinal vermelho se, por exemplo, em um período curto de tempo várias pessoas assumiram a função, mas logo depois desistiram.


5. Por que você gosta de trabalhar aqui?

Dependendo da abertura do recrutador, é possível fazer algumas perguntas de cunho mais pessoal como as razões para ele gostar do trabalho ou como ele chegou aquela posição. “É uma maneira de investigar quais os desafios que você terá pela frente”, diz Meneses, da Asap.

No entanto, é preciso cuidado para não inverter os papeis. Apesar de ser importante fazer perguntas, o candidato não está ali para saber tudo sobre o recrutador. Para não cair nesse deslize, uma dica é optar por questões mais objetivas e impessoais. “Pergunte claramente sobre a política de promoções da companhia ou sobre os benefícios profissionais de trabalhar ali”, diz Eliane.

6. Como a empresa responde à demandas do mundo atual?
Impressionar o recrutador não é mais o único objetivo do candidato em uma entrevista de emprego. No entanto, é possível fazer algumas perguntas que gerem pontos para você na avaliação final. Questionamentos que abordem assuntos do mundo atual e que mostrem o quanto você está informado sobre os negócios da empresa são uma boa pedida.

“As empresas conteporâneas procuram profissionais que queiram trabalhar por um propósito maior. Então, essa é uma questão chave para fazer”, diz Copelli, da Valua.

Segundo Marcos Bruno, consultor do Instituto Pieron, as relações que a empresa mantém para além do próprio negócio, como projetos sociais ou ambientais, podem dar pistas de qual a verdadeira essência dela. “Isso faz uma grande diferença no tipo de envolvimento e trabalho que você vai ter”, diz.

No entanto, fique atento para não questionar assuntos fora de contexto. Por exemplo, não vale perguntar sobre como a empresa está se posicionando sobre os conflitos nos países árabe se ela não tem qualquer ligação com uma dessas nações. Cuidado também para não desvirtuar o foco principal da entrevista: você.

7. Qual é a política de benefícios da empresa?
Muitos candidatos chegam a entrevista com uma única pergunta na ponta da língua: qual vai ser meu salário? No entanto, cuidado. Esse assunto tende a ser um campo minado durante os processo de seleção.

Primeiro, não restrinja suas perguntas apenas à esse tema. Isso mostra falta de interesse pelo trabalho em questão. E pior: “Indica que o candidato apenas se importa com dinheiro. Ou seja, bastará outra companhia oferecer uma remuneração melhor para ele deixar o cargo”, diz Eliane.

Além disso, a entrevista não é a hora para negociar o pacote salarial. Deixe esse tipo de discussão para quando a companhia confirmar sua contratação.

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