Isto é o que Leandro Karnal espera que você faça se for demitido

Perder o emprego é um baque e tanto. Em entrevista exclusiva, professor explica como transformar a experiência do fracasso em sabedoria

São Paulo — Nada de “pensar positivo” ou acreditar que o sucesso depende apenas de você. No dia em que a vida trouxer notícias ruins, como a de uma demissão, Leandro Karnal espera que você abandone todas as respostas prontas.

Em entrevista por telefone a EXAME.com, o historiador e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) diz que o discurso típico da autoajuda se apoia em premissas pouco realistas, e ignora que o êxito e o fracasso não dependem exclusivamente do indivíduo.

Por outro lado, reconhecer o peso inegável das circunstâncias — como a crise econômica que assola o país e deve produzir quase 14 milhões de desempregados até 2018 — não significa que você não tenha nenhuma responsabilidade por um eventual desligamento.

Para Karnal, o profissional dispensado não deve se sentir um “perdedor”, até porque se colocar nessa posição só funciona como pretexto para se acomodar.

A saída mais interessante é aproveitar o lado útil do fracasso: a oportunidade de refletir sobre as suas fraquezas, aceitar o lado trágico da vida e construir uma nova atitude. “A felicidade engorda, enquanto a tristeza faz você se movimentar”, resume o professor. 

Confira a seguir os principais trechos da conversa:

EXAME.com – Até que ponto o fracasso é culpa do indivíduo?

Leandro Karnal – Hoje existe um discurso dominante de que 100% do que acontece nas nossas vidas depende das nossas escolhas. Isso nasce de um certo pensamento liberal do início do século XIX, que tem uma dose de perversidade. É como se todo mundo que está mal tivesse optado por estar mal, e que todos podem estar bem — basta querer. 

É o que embasa a ideia de que a pobreza é responsabilidade completa da pessoa, assim como a riqueza. Grande parte da autoajuda que percorre as palestras brasileiras diz: “Se você acreditar que é um vencedor, certamente vai vencer”. É uma crença excessiva na liberdade do indivíduo. 

Teorias de diversas naturezas, da religião à psicanálise, contrariam essa tese. Não somos tão racionais, nossas escolhas não nascem de uma liberdade total e o acidente tem um papel muito maior do que imaginamos. Isso inclui até teorias de esquerda, como as de Thomas Piketty, que fala sobre a exclusão produzida de forma inevitável pelo nosso sistema.

Ao desenvolver a teoria psicanalítica, Sigmund Freud mostrou que as nossas ações são fruto de uma coleção de traumas e experiências infantis, e que certos graus de neurose e patologia existem em todos nós, até naqueles que não estão em casas psiquiátricas. Desde que Freud determinou isso, sabemos que há dificuldades estruturais com essa liberdade.

EXAME.com – O que se pode concluir, então?

Leandro Karnal – Tenho usado em minhas palestras duas noções desenvolvidas por Nicolau Maquiavel: a “virtù”, total de habilidades e competências que nascem comigo e que posso desenvolver, e a “fortuna”, que significa o acaso, a sorte, o azar, o inesperado.

Ninguém é tão divino (só “virtù”) e nem tão objeto inanimado e suscetível às circunstâncias (pura “fortuna”). No gráfico imaginário formado pelas retas “virtù” e “fortuna”, somos um traço tenso e curvo. Faz muita diferença a escolha do indivíduo. Mas nem sempre esse indivíduo lida com uma lógica absoluta, ele faz sua escolha dentro do possível.

EXAME.com – Diante de uma demissão, muitas pessoas se sentem “um lixo”, porque acham que tudo depende da tal “virtù”. Outras culpam a crise e negam qualquer responsabilidade pelo que aconteceu, como se tudo fosse resultado da “fortuna”…

Leandro Karnal – Sim. Acontece que, se você se sente um “lixo”, talvez você esteja certo. Mas a pergunta que realmente importa é: qual é a etapa seguinte? O que você vai fazer para mudar? É paralisante se sentir um “lixo” porque no fundo isso é um recurso psíquico para não agir. É uma forma de defesa, de preguiça, como se você dissesse: “Não dá, eu sou um fracassado mesmo, não preciso fazer mais nada”. Não há alegria maior do que entender que eu nunca mais vou emagrecer. Perdi o limite, engordei muito e agora não tenho como retroceder, então agora estou alegre. O fracasso é uma zona de conforto.

Outra forma de paralisia é atribuir tudo a forças exteriores. “Eu sou bom, mas sou perseguido”. “Sou competente, mas este país não presta”. Quando eu atribuo a responsabilidade de tudo a terceiros — destino, signo, Deus, governo — eu passo a viver também numa zona de conforto. Você diz, na prática, que não é gestor da sua vida.

Gosto de dizer que você é sócio majoritário do projeto da sua biografia. Ser sócio majoritário não significa poder controlar tudo, funcionários, fornecedores, clientes. Mas a responsabilidade é muito maior do que creem os deterministas.

EXAME.com – De que forma o autoconhecimento pode ajudar uma pessoa que está vivendo uma fase ruim na carreira?  

Leandro Karnal – Se você olha para si mesmo com muita honestidade, se encara o retrato terrível da Medusa, que é o seu lado difícil, você tem a primeira chance de encará-lo e superá-lo. É preciso se observar sem máscaras, ou com menos máscaras.

É o que diz a máxima “Conhece a ti mesmo”, que funda a filosofia de Sócrates. Quando você não se conhece, acaba sendo controlado por partes de si, sua dor, seus traumas. É preciso investigar a si mesmo para perceber que você também é preguiça, você também é raiva. Se você sabe disso, fica mais fácil aceitar e diminuir o efeito dessas fraquezas.

Se eu descobrir, por exemplo, que a irritação com o meu chefe reproduz uma relação com a autoridade paterna mal resolvida, posso perceber que, na hora em que o meu chefe é chato, quem deve reagir é o funcionário Leandro, e não a criança Leandro.

Por outro lado, conhecer a si mesmo também é conhecer o que há de bom em mim mesmo, e também aquilo que me traz bem-estar. É muito comum ver pessoas que dizem que a carreira é tudo para elas, mas sofrem de úlcera e gastrite no domingo à noite. Elas não se conhecem, não sabem o que realmente querem.

A autoajuda falha porque pressupõe um modelo que não existe. Há pessoas que adoram atividades repetitivas. Outras são pouco ambiciosas e só são felizes se puderem ficar em patamares fixos. Há indivíduos viciados em desafios. Eu preciso saber do meu perfil. Não posso contrariar permanentemente a minha natureza.

EXAME.com – O fracasso pode criar um ciclo vicioso: a melancolia gera mais problemas e os problemas geram mais melancolia. Como escapar desse mecanismo?

Leandro Karnal – Em primeiro lugar, é preciso aceitar que há uma parte da vida que necessariamente dá errado. A morte chegará. As pessoas que eu amo podem desaparecer. Posso perder o emprego. Posso ser uma pessoa ruim. A existência tem sempre uma dimensão trágica. Tristeza não é um problema, não é algo excepcional.

Note que estou falando de tristeza, não de depressão. Depressão é uma doença grave, que requer acompanhamento profissional e tratamento. Já a tristeza é uma ferramenta de aprendizado. Se eu não quero sair da tristeza, é porque ela me dá um conforto. Talvez o meu medo de enfrentar um novo mercado de trabalho seja tão grande que eu vou me refugiar na melancolia. “Não dá, não tem jeito, é assim mesmo”. Porque o medo é maior.

Acontece que os países, as empresas e as pessoas se reorganizam na crise — para o bem ou para o mal. É a partir de uma crise nacional profunda que emerge a figura de um Winston Churchill. É também numa crise nacional profunda que emerge um Adolf Hitler. A crise é um grande momento, pode gerar muitas transformações e aprendizados.

O problema é que a “geração Facebook” acha que a vida só é plena se você pode publicar fotos felizes. Na verdade, a felicidade engorda. A tristeza faz você se movimentar.

EXAME.com – A morte do sociólogo Zygmunt Bauman no início do ano reacendeu o debate sobre a deterioração das relações humanas na era da internet. Redes sociais como o Facebook geram uma falsa ideia sobre o sucesso alheio?

Leandro Karnal – Toda tecnologia é neutra. Um martelo pode fixar um prego para pendurar um quadro, mas também pode assassinar uma pessoa. A rede também é neutra, tudo depende do que fazemos com ela.

Vivemos na sociedade do espetáculo, em que toda a atenção é voltada para imagem. O que precisamos entender é que tudo aquilo que se publica no Facebook é de autoria de um roteirista. É alguém construindo uma imagem. Se eu acredito naquilo, o problema não é a internet, mas a minha dor e o meu vazio. A rede alimenta um problema antigo, que é enxergar no outro o fracasso dos meus próprios projetos.

EXAME.com – A inveja pode ensinar alguma coisa?

Leandro Karnal –  O sucesso alheio me incomoda porque não estou olhando para mim mesmo, meu foco está nos demais. A palavra “inveja” é formada por “in” e “vedere”, que significam “não ver” em latim. Quando não me vejo, não enxergo o meu próprio desempenho, olho excessivamente para o outro. 

A psicanálise diz que, se você sentiu dor pela felicidade do outro, isso é uma pista maravilhosa, porque revela algo sobre você e sobre o que você quer. Refletir sobre a própria inveja ajuda a reconhecer os seus desejos, entender os seus fracassos, olhar de novo para si mesmo.

Comentários

Não é mais possível comentar nessa página.

  1. “a felicidade engorda. A tristeza faz você se movimentar.”

    Uma ótima leitura. De fato.

  2. Angelica Medeiros

    Perfeito!

  3. Meritocracia – a maior mentira do século XX…

  4. Thiago Silva

    Legal! Gosto muito do Karnal. Super inteligente, realmente um intelectual! A melhor hora de procura uma nova profissão, uma nova oportunidade e fazer isso que vc ainda está empregado!!! E para isso tenho um dica infalível!!

    http://www.thiagosilvaempreendedor.com.br

  5. Ótimo texto, Karnal sempre impecável!

  6. Existem investimentos ԛue podem ѕеr realizados de
    fߋrma direta pelos bancos, сomo CDB, LCI,
    LCA, previdência privada, fundos ԁe investimento, entгe outros. http://mam-moto.pl/member.php?action=profile&uid=1618

  7. Vag-Lan Borges

    Leanro Karnal esqueceu-me do elemento principal do modelo e da equação de Maquiavel que é a “ocasião”, a “occasione”, conforme o texto seguinte do livro “O Príncipe”. Para Maquiavel de nada valem “virtù” e “fortuna” se você não souber antever e aproveitar a “occasione”, que os americanos chamam de “janela de oportunidades”: “Consideremos, contudo, Ciro e outros que adquiriram e fundaram reinos. Acha-los- eis a todos dignos de admiração. E levando-se em consideração os seus atos e ordens particulares. eles não discrepam daqueles de Moisés. que teve tão alto mestre. E examinandolhes vida e ações, chega-se à conclusão de que eles não receberam da fortuna senão a ocasião de poder amoldar as coisas como melhor lhes aprouveram. Sem aquela ocasião, suas qualidades pessoais ter-se-iam apagadas e sem essas virtudes a ocasião ter-lhes-ia sido inútil. Portanto, era preciso a Moisés ter o povo de Israel no Egito, escravo e oprimido dos Egípcios, a fim de que, para se livrarem da escravidão estivessem propensos a segui-lo. Era conveniente que Rômulo não achasse refúgio em Alba e tivesse sido exposto ao nascer, para vir a tornar-se rei de Roma e fundador de uma pátria. Necessário se tornou que Ciro topasse os Persas descontentes do império dos Medas e os Medas bastante efeminados e amolentados por longa paz. Teseu estaria impossibilitado de revelar suas virtudes se não encontrara os atenienses dispersos. Tais ocasiões, pois, fizeram felizes esses homens; e foram as virtudes próprias que deram a eles conhecimento dessas ocasiões. Graças a isso, honrou-se a sua pátria e tornou-se feliz.”

  8. Jefferson Mafuzi

    Não se escreve “ciclo vicioso” como descrito nas perguntas. O correto é círculo vicioso. Sobre o texto, gostaria de discordar do ilustre palestrante. Mesmo que você, por ocasião de uma crise, seja demitido não podemos esperar a melhora da economia para conseguirmos nos empregar novamente. Infelizmente, sempre depende de nós. Até mesmo na escolha de um emprego susceptível a crises. De certo, o acaso existe. Podemos ficar doentes, sofrermos acidentes e etc., e isto foge de nosso alcance. de fato. Só que em tudo podemos enxergar a nossa escolha. Até mesmo, de escolher ou não um avião que depois irá cair.

  9. Jefferson Mafuzi

    Não se escreve “ciclo vicioso” como descrito nas perguntas. O correto é círculo vicioso. Sobre o texto, gostaria de discordar do ilustre palestrante. Mesmo que você, por ocasião de uma crise, seja demitido não podemos esperar a melhora da economia para conseguirmos nos empregar novamente. Infelizmente, sempre depende de nós. Até mesmo na escolha de um emprego susceptível a crises. De certo, o acaso existe. Podemos ficar doentes, sofrermos acidentes e etc., e isto foge de nosso alcance. de fato. Só que em tudo podemos enxergar a nossa escolha. Até mesmo, de escolher ou não um avião que depois irá cair.

  10. Daqui a pouco o Leandro Karnal vai dar palpite até em dieta de emagrecimento.

  11. Desde quando Freud assumiu o monopólio da verdade?

  12. Bruno Barbosa Cezar

    Não sou de comentar matérias, mas achei essa particularmente interessante. O entrevistado vai pela via da psicanálise para explicar o fato de que não estamos sob o controle de todas as coisas, esse é um fato empolgante e assustador ao mesmo tempo. É empolgante, pois tira de nossos ombros a responsabilidade sobre aquilo que não temos controle e nos torna aptos a focar exatamente nas coisas que controlamos – e fazermos da melhor maneira possível. É assustador, pois revela que estamos sujeitos a eventos que dependem de escolhas de outras pessoas, de fatores externos, quase como se fosse um caos completo. Mas, saindo um pouco da linha psicanalítica e adotando uma concepção mais Sartreana do fato, somos aquilo que fazemos e aquilo que fizemos com o que fizeram de nós; então, tirando um ótimo insight do livro “O andar do Bêbado”, a grande questão é continuar tentando e após adquirir consciência sobre o que está sob seu controle focar em fazer o melhor que puder a respeito. É claro que podemos tomar o controle de questões que não estão sob nosso controle no presente, mas essa é uma outra história, parabéns pela matéria.