Intercâmbio para casais sai mais em conta que turismo

Cresce o número de pacotes para casais que buscam aliar estudo e passeio durante as viagens de férias. E o melhor: custam menos do que os de turismo

São Paulo – Nos últimos cinco anos, especialistas do mercado de intercâmbio têm visto uma mudança no perfil de seus viajantes. Até então procurados por adolescentes em torno dos 17 anos, os programas agora são alvo de jovens profissionais de 25 a 30 anos — chegando à faixa dos 40 em alguns casos.

Esse cenário fez com que surgisse uma nova modalidade no segmento: o intercâmbio para casais. “A maior demanda tem vindo dessas pessoas, que já estão casadas ou envolvidas com alguém e, ao mesmo tempo, querem aprimorar o currículo“, afirma Márcia ­Mattos, gerente de cursos da ­Student Travel Bureau (STB). Os casais costumam viajar durante as férias e aliam estudo e passeio.

A melhor parte é que, em casal, alguns custos são divididos, e o pacote, que inclui curso, pode sair até mais barato que viagens somente turísticas.

A agência Experimento Intercâmbio Cultural teve um aumento de 10% desse tipo de viagem de 2011 a 2012 e prevê um crescimento de 20% neste ano. Na Central de Intercâmbio (CI), a procura por essa modalidade cresceu 30% em 2012.

“O custo-benefício do programa é o que explica o crescimento. O casal desfruta do destino nas férias, consegue passear, estudar e agrega valor ao currículo”, diz ­Luíza Vianna­, gerente de produto da área de cursos no exterior da CI.

“Já tivemos até casal em lua de mel que aproveitou para unir o útil ao agradável”, diz a gerente. Tamanha procura fez com que a STB criasse um departamento novo, chamado Acomodações Especiais, para cuidar especificamente das acomodações para casais. “Muitos não querem viver em casas de família e desejam alugar um apartamento só para eles”, explica Márcia. 

Os programas podem ser personalizados, mas em sua maioria os casais têm buscado cursos de idiomas ou de aperfeiçoamento profissional.


“Acontece bastante de a esposa querer fazer um curso de inglês e o marido, de negócios. O casal fica na mesma residência, mas eles podem ir para escolas diferentes se for o caso”, explica Fernanda Semeoni, diretora de Operações e Produtos da Experimento. Em geral, os cursos têm curta duração e são de meio período, para que os casais tenham o restante do dia livre para passeios de turismo.

Foi essa a escolha do casal Byanca Galante, de 30 anos, e Ricardo Francisco Marques Simões, de 43. Ela, secretária executiva, percebia o baixo nível de inglês como um entrave para sua promoção. Sem perspectiva de crescimento na Coca-Cola, onde trabalhava, pediu demissão e decidiu fazer um intercâmbio.

O marido, empreendedor, dono da rede de cafés Grão Expresso, em São Paulo, quis acompanhá-la para aproveitarem as férias juntos. “Ainda não temos filhos e queríamos viver essa experiência como casal”, conta ela. Eles foram em abril para Chicago, nos Estados Unidos, e ficaram em uma residência estudantil.

“Eu queria uma cidade grande, não muito turística, que tivesse vida noturna e de onde fosse barato viajar para Nova York”, diz ela. “E o apartamento estudantil era chiquérrimo”, lembra. 

Como o marido já tinha inglês avançado, o casal ficou em turmas diferentes. O curso era das 8 às 16 horas, mas como só começava a escurecer às 20 horas, o casal pôde aproveitar para conhecer a cidade. “Alugamos um carro e visitamos praticamente toda a Chicago”, diz Byanca.

O programa custou 11.000 reais, mais 1.700 por cada passagem, que eles dividiram em dez vezes. “Foi muito barato se você considerar que foi um mês vivendo em outra cidade. Fora que é bem diferente das outras viagens, porque conhecemos muita gente e pudemos viver um pouco da rotina dos americanos”, conta a secretária. O casal, que já guarda dinheiro rotineiramente na poupança, só precisou de um mês para se programar para o intercâmbio.

Estudos nas férias

Como a maior parte dos casais tenta conciliar o intercâmbio com as férias, os pacotes mais procurados são os de quatro semanas. “Acontece também de o casal dar uma pausa na carreira para estudar, mas o maior número é de pessoas buscando aperfeiçoamento nas férias”, conta Márcia Mattos, da STB.


Os lugares mais demandados são Londres (Inglaterra), Vancouver (Canadá), Nova York e San Diego (Estados Unidos). Mesmo para casais, há a opção de residência de família, com direito a café da manhã e jantar, mas a maioria ainda prefere residências estudantis ou apartamentos, onde vive sozinha por esse período. Nesse caso, as refeições ficam por conta dos estudantes.

“É um pouco mais barato fazer a viagem em casal por causa da acomodação, que é dividida. Mas os custos de curso e passagens aéreas são individuais”, afirma ­Luíza Vianna, da CI.

Todo mês de outubro, o casal Isabela, de 30 anos, e Gustavo Geovanini, de 37, viaja para comemorar o aniversário de casamento. No ano passado, em vez de passar o mês viajando pela Europa, eles decidiram fazer um intercâmbio em Londres. Ambos já tinham essa experiência no currículo (ela uma vez e ele duas), mas decidiram vivê-la de novo, dessa vez a dois.

“Chegamos a pesquisar um tour pela Europa, mas por causa do custo com hotel ficaria bem mais caro”, lembra Isabela. Na modalidade­ de intercâmbio, o casal gastou pouco mais de 15 000 reais, incluindo passagens, acomodação, cursos, seguro-viagem e dinheiro para usar lá. “Começamos a poupar a partir de fevereiro. Parcelamos o curso em três vezes e as passagens, em dez”, afirma a consultora. 

Na volta, o balanço é que a viagem trouxe benefícios profissionais para ambos. Gustavo é auditor da ­PricewaterhouseCoopers e tem de prestar o exame Toefl com frequência — por isso, precisa ter um inglês de nível executivo, voltado para negócios. Já Isabela, que é consultora de TI e presta serviços de forma autônoma, utiliza terminologias em inglês diariamente.

A escola The London School of English foi escolhida para o perfil de Gustavo e ficava a um quarteirão do estúdio que o casal alugou para se hospedar. “Fazíamos tudo a pé. Estudávamos de manhã e passeávamos à tarde. O que mais valeu a pena foi morar um tempo no lugar, sem a preocupação de um rush de turismo”, afirma Isabela.

A experiência agradou tanto que agora ela quer fazer outra modalidade de intercâmbio — em família. Pretende, em breve, viajar para estudar francês com a mãe por um mês no Vale do Loire, no interior da França.

Trabalho voluntário

Outra modalidade que tem crescido entre jovens casais são os intercâmbios voltados para o trabalho voluntário em causas sociais. Nesses pacotes, o casal pode escolher data, destino, quanto tempo ficar e que tipo de serviço vai fazer. “É uma experiência que agrega bastante ao currículo”, afirma Gisele Mainardi, gerente de produto de trabalhos da CI.

“Para quem já morou fora também é bem legal, porque vai para um destino que foge do senso comum, fazer um trabalho que engrandece, com todo o apoio de uma agência”, completa. Parte do valor do pacote é revertida para a instituição em que o casal escolheu trabalhar. Como o trabalho voluntário é uma experiência cultural, não é necessário obter um visto específico de trabalho.