Gloria Kalil diz o que parece chique (mas não é) no trabalho

“Etiqueta não é aquela coisa de levantar o dedinho, isso não existe mais. Etiqueta é civilidade", diz Gloria a EXAME.com. Veja a entrevista completa

São Paulo — Em tempos de desemprego e crise, temas como moda e etiqueta não ocupam o topo das prioridades da maioria dos profissionais brasileiros. Mas deveriam. O conselho é da jornalista, consultora e empresária Gloria Kalil, que lançou nesta semana o livro “Chic profissional”, pela editora Paralela.

Autora de cinco best-sellers sobre comportamento, ela argumenta que os recrutadores reparam sim naquilo que alguns brasileiros ainda encaram como “frescura”. Num mercado de trabalho ultracompetitivo, a forma como uma pessoa se veste, fala e come pode ser um fator de diferenciação, diz a autora com exclusividade a EXAME.com em conversa no seu escritório em São Paulo.

“Etiqueta não é aquela coisa de levantar o dedinho, isso não existe mais”, diz Gloria. “Etiqueta é civilidade, é olhar para si mesmo, mas também olhar para o outro”. Daí sua definição de etiqueta como diminutivo de “ética” — a atenção ao entorno, para que a coletividade funcione bem.

Envolto em mal-entendidos, o tema frequentemente pode gerar confusões — e até tentativas frustradas de elegância.

Na entrevista, Gloria dá exemplos de comportamentos que parecem “finos”, mas não são, além de dar conselhos sobre o guarda-roupa ideal para o trabalho e gestão da reputação em tempos de redes sociais.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

EXAME.com – Historicamente, a etiqueta foi um fator de diferenciação entre ricos e pobres. Talvez por isso, muita gente ainda enxerga temas como elegância e moda como “frescura”. Para que servem essas preocupações, afinal?

Glória Kalil – Vejo a etiqueta como um diminutivo de ética, do francês “etiquette”, ou seja, uma pequena ética do cotidiano. Etiqueta é uma questão de civilidade. É preciso haver normas para que a sociedade funcione.

Vamos pensar nas regras do trânsito. Suponha que você more numa rua que dá mão para a esquerda, mas você precisa ir com seu carro até uma loja à direita do seu prédio. Seria muito mais fácil pegar o carro e ir para a direita. Mas você pega a mão da esquerda e dá toda uma volta para chegar ao seu destino. Por que você faz o que é mais difícil? Para o bom andamento da sua comunidade. Podemos transpor essa ideia para a etiqueta, como um instrumento de civilidade.

No passado, na corte francesa, ela de fato servia para diferenciar classes sociais. Hoje ela passou a ser uma questão de funcionamento das coisas. E tudo que não faz mais sentido, que é excessivo, deve ser automaticamente rejeitado, porque ficou obsoleto. O que eu reivindico é uma etiqueta com sentido.

O que significa ser chique?

Na minha concepção, é um equilíbrio absoluto entre aparência e conteúdo. Chique é uma pessoa que que se apresenta bem, que se veste adequadamente, mas que também tem conteúdo. É alguém que tem cuidado com o outro, que escuta o outro, que sabe medir o seu entorno. Alguém que presta atenção ao seu redor e busca adequação. Não há competência profissional que não se beneficie de boa aparência. Não há boa aparência que compense a falta de competência profissional.

O mercado de trabalho hoje vê a etiqueta como uma competência comportamental, da mesma categoria de habilidades como liderança, comunicação e resiliência?

Sem dúvida. Uma vez fui conversar com um presidente de uma empresa de cosméticos e ele se atrasou para a nossa reunião. O motivo é que ele estava entrevistando dez pessoas que sobraram de um grande recrutamento que a empresa estava fazendo para preencher três cargos. Perguntei quantas pessoas se apresentaram. Ele disse que haviam sido 7 mil. Sobraram dez.

Aquelas dez tinham currículo igual, as mesmas qualificações. “Agora, é olho no olho”, ele me disse. O que importava para diferenciar era como a pessoa se vestia, como conversava, ou seja, civilidade, etiqueta. Isso conta muito. Ainda mais hoje, com o desemprego e as dificuldades de se inserir no mercado de trabalho, tudo conta ponto.

Quais são alguns comportamentos tidos como “finos” em situações profissionais, mas que na verdade são deselegantes?

Havia atitudes chiques numa época mais machista que já não têm mais sentido. Um homem puxar a cadeira para uma mulher sentar num almoço de negócios, por exemplo. Isso valia na época em que a mulher ainda não trabalhava, na época em que abriam a porta do carro para ela entrar, esse tipo de coisa. São comportamentos do passado. Claro que existem gentilezas. Eu gosto que me ajudem a carregar um pacote pesado, por exemplo. Não custa nada, desde que seja uma gentileza de verdade, e não uma expectativa ditada pelo gênero.

Outro erro é tentar ser elegante sem prestar atenção ao código de vestimenta do seu ambiente de trabalho. Significa, por exemplo, ser funcionário de uma empresa informal e ir para o trabalho com uma roupa formal. Essa pessoa pensa que está sendo elegante, mas não está. É algo totalmente inadequado, tão tonto quanto ir de bermuda para um fórum de advocacia. As empresas formais têm as suas regras, mas as informais também têm as suas.

O mundo da moda é muito associado a regras rígidas, no estilo “pode/não pode”. Isso ainda está valendo?

A moda mudou muito. Existe uma imagem famosa do [estilista francês] Christian Dior, em que ele segura uma fita métrica na barra de uma saia de uma moça e diz: “A barra da saia deve estar a 40 centímetros do chão”. Ficasse bem em você ou não, tanto faz. Você precisava usar aquilo para mostrar que pertencia a uma determinada classe, ou então estava por fora.

Hoje, as pessoas se vestem não para mostrar a sua classe social, mas sim a sua individualidade. Elas expressam as suas personalidades com mais liberdade. Se você me perguntar: hoje, qual é a saia que está na moda? Eu vou dizer: tem micro, tem mini, tem pelo joelho, tem longa…qual é o seu estilo? Tudo está na moda. Você escolhe aquilo que te representa.

Até onde vai essa liberdade de escolha em ambientes de trabalho?

É preciso associar a sua personalidade com a personalidade da empresa. Existem ambientes formais e informais e hoje surgiram os megainformais, como as startups e espaços de coworking, por exemplo. Cada um tem as suas características e seus códigos. É preciso buscar essa associação entre a sua individualidade e o estilo do empregador.

Uma pessoa feliz no seu emprego está de acordo com o código de vestimenta praticado pela empresa. Ela não se sente “violentada” porque tem que colocar um tailleur se é advogada, por exemplo, porque ela curte aquele universo, aquilo faz sentido para ela. Se não curte, então talvez ela esteja no lugar errado ou até na profissão errada.

No seu novo livro, você afirma que guarda-roupa de trabalho é um guarda-roupa à parte. Por quê?

Roupa de trabalho não é a sua roupa social, que você usa para ir para festas, baladas e casamentos. Também não é igual à sua roupa do lazer, que você escolhe para ir ao barzinho, ao clube etc. É preciso existir um guarda-roupa apenas para o trabalho. 

Um detalhe é que ele também não pode ser fashion. Veja o exemplo da Renata Vasconcellos [a jornalista da Globo apresentou uma chamada do “Jornal Nacional” usando uma espécie de roupão, o que causou alvoroço nas redes sociais]. Se ela usasse aquele robe numa festa fashionista, seria normal, haveria pelo menos três, quatro pessoas iguais a ela.

Mas roupa de trabalho é diferente daquilo que você usa numa festa, não pode ser a última moda. A Renata “causou” porque estava num contexto de trabalho formal com uma roupa fashion. Virou meme de internet.

A internet criou situações inimagináveis num passado recente. O chefe pode ver fotos do seu funcionário bebendo cerveja num churrasco ou assistir a um vídeo dele cantando num karaokê — basta que eles sejam amigos no Facebook. Quais são os efeitos disso para a gestão da imagem de um profissional?

De fato ficou tudo muito mais complexo. Não adianta a pessoa aparecer toda bem vestida no trabalho se está pelada no Facebook. A saída é usar as redes sociais sabendo que você está fornecendo informação aos seus amigos, mas também aos seus chefes, colegas e pessoas que você não conhece tão bem.

Tenha a consciência de que qualquer imagem sua, qualquer roupa sua, qualquer frase sua, tudo vai chegar ao mundo. E toda informação tem consequência. Se você acha que aquela publicação pode ser prejudicial para a sua carreira, guarde para você.

Por falar em tecnologia, qual é o lugar certo do smartphone em reuniões, eventos e almoços de negócios?

Bem guardado na bolsa, no modo silencioso, sempre. A menos que você esteja esperando alguma ligação urgente, aí você pede desculpas e se levanta para atender. Se não, não dá. Ouvi uma história boa da [fotógrafa carioca] Claudia Jaguaribe. Ela foi para Galápagos tirar fotos de animais, inclusive de uns lagartos enormes. Ela me disse que, após alguns dias fotografando, começou a sentir um mal-estar.

Então ela me contou: “Percebi que estava me sentindo mal porque esses bichos não fazem contato visual. Réptil nunca te olha no olho”. Eles não têm esse hábito, como os mamíferos. É a mesma coisa quando você se senta na frente de uma pessoa e ela fica no celular, não olha para você… dá uma solidão pavorosa!

Em espaços de coworking e escritórios sem paredes, a convivência com outros profissionais é intensa. Qual é a regra de ouro para ser elegante em ambientes compartilhados?

Por mais que os ambientes de trabalho tenham mudado e hoje existam todos esses espaços alternativos, os contatos humanos continuam sendo os mesmos. Trabalhar junto depende de civilidade. Você precisa ser educado, limpar o que suja, respeitar o espaço do seu colega, ser organizado…Enfim, você precisa olhar para o outro.

Quem pensa na etiqueta como algo ligado à vaidade está pensando numa etiqueta francesa, aquela coisa de levantar o dedinho. Isso não existe mais. Etiqueta é civilidade, é olhar para si mesmo, mas também olhar para o outro e saber conviver. Hoje, o mundo está muito junto, as pessoas convivem intensamente entre si e também com outras culturas, de outras partes do planeta, a um clique de distância. Você precisa tomar conhecimento do seu ambiente e respeitar as diferenças para viver bem em sociedade.

Comentários

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  1. Parabéns pela matéria !