Genialidade é um conceito ridículo, diz professor do MIT

Para o pesquisador britânico Kevin Ashton, gênios não existem: a criatividade exigida para grandes feitos e descobertas é acessível a qualquer pessoa

São Paulo — Inventar algo incrível não tem nada a ver com uma inspiração "celestial" ou um cérebro excepcionalmente poderoso. O processo criativo — mesmo aquele que dá origem a monumentais obras de arte ou descobertas científicas — é acessível a qualquer mortal.

Essa é a tese do pesquisador britânico Kevin Ashton, professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), em seu novo livro “A história secreta da criatividade” (Editora Sextante, 2016). Para ele, gênios não existem.

“Todo o conceito de genialidade é ridículo e totalmente sem evidências”, diz o pesquisador em entrevista exclusiva a EXAME.com. “Algumas pessoas são melhores do que outras em algumas atividades, mas isso não as torna diferentes ou especiais, apenas melhores”.

Ashton começou sua carreira na Procter & Gamble, empresa em que liderou um trabalho pioneiro sobre identificação de produtos por radiofrequência. Também fundou três startups de tecnologia, uma das quais foi vendida menos de um ano após sua criação.

Ele foi a primeira pessoa a usar o termo IoT (“Internet of Things”, ou “Internet das Coisas”), em 1999, no título de uma apresentação sobre seu projeto de radiofrequência na P&G. A expressão se popularizou e descreve hoje a conexão de objetos do dia a dia, como eletrodomésticos ou carros, à internet.

Considerado um visionário em sua área, o professor do MIT decidiu se debruçar sobre a história da criatividade para escrever seu novo livro. Da revolução no cultivo da baunilha no século XIX por um escravo de 12 anos à criação da icônica latinha da Coca-Cola, seu estudo disseca os mecanismos da inovação desde registros mais remotos até a atualidade.

Sua conclusão é categórica: criar não tem nada a ver com genialidade, inspiração ou qualquer outra forma de excepcionalidade. Na verdade, o processo é banal, ainda que o resultado não o seja — e pode ser empreendido por qualquer ser humano.

“Os criadores passam quase todo o tempo perseverando, apesar da dúvida, do fracasso, do ridículo e da rejeição, até conseguirem algo novo e útil”, escreve ele no livro. “Não existem truques, atalhos ou esquemas para se tornar criativo de uma hora para outra”.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva de Ashton a EXAME.com

EXAME.com – Você defende que as invenções, das menores às maiores, não dependem de talento ou inspiração. Por que historicamente a humanidade viu a criação como algo mágico, restrito a algumas personalidades “iluminadas”?

Kevin Ashton – É uma boa pergunta, que admite muitas respostas. Faz apenas poucos séculos que os nomes dos criadores das coisas começaram a ser registrados e lembrados. Há exceções a essa regra, mas não muitas. Foi só em meados da Renascença que começamos a dar crédito aos inventores.

Alguns séculos mais tarde, surgiu a ideia de que a criação é algo "mágico". Isso foi uma reação, na época, à tese de que todos os seres humanos são iguais, o que era incômodo para homens brancos e europeus, que se enxergavam como naturalmente melhores do que todas as outras pessoas.

Foi aí que a ideia de “gênio” surgiu. Não é coincidência que os supostos “gênios” eram sempre homens brancos e europeus, pessoas como Mozart, Newton e Leonardo da Vinci. A invenção da genialidade foi uma maneira de conservar os mitos da supremacia branca e do patriarcado em um mundo pós-darwiniano.

EXAME.com – Então gênios não existem?

Kevin Ashton – Não, é claro que não. Todo o conceito de genialidade é ridículo e totalmente sem evidências. Algumas pessoas são melhores do que outras em algumas atividades, é claro. Mas isso não as torna diferentes ou especiais, apenas melhores.

Veja os atletas olímpicos, por exemplo. Quase todo mundo que tem um corpo sadio consegue correr, e todos nós fazemos isso da mesma maneira: um pé depois do outro. Pessoas como Usain Bolt conseguem correr muito mais rápido do que todo o resto, mas ele usa o mesmo processo que eu e você usamos. Ele não têm pernas extras, ou pés especiais: ele simplesmente faz essa mesma coisa de um jeito muito melhor.

O mesmo vale para o pensamento, e portanto para a criatividade. Todos nós conseguimos pensar e criar, e a nossa habilidade para isso está em algum lugar do espectro humano, como funciona com qualquer outra competência.

EXAME.com – Como a criatividade funciona?

Kevin Ashton – Criar é uma consequência do pensar. Todos nós sabemos como o pensamento funciona, porque todos nós pensamos. Você olha para um problema, imagina possíveis soluções, experimenta uma ou mais alternativas, avalia e segue adiante.

“O que posso fazer para o jantar?” é um bom exemplo de um problema cotidiano. Qual é a solução? Você pensa sobre as suas opções, imagina algumas delas e então começa a agir.

O processo de solução de um problema muito maior, como por exemplo “Como posso fazer uma máquina voadora?”, funciona exatamente da mesma maneira. Só é muito mais difícil. Você imagina opções, usa coisas que você ou outras pessoas já inventaram no passado, experimenta novas possibilidades, avalia e repete. A parte mais difícil é persistir.

Você pode resolver o problema “O que posso fazer para o jantar?” em poucos minutos, enquanto a questão “Como posso fazer uma máquina voadora?” levará anos de esforço contínuo e, mesmo assim, talvez você nunca consiga.

Ainda assim, na raiz, o processo é o mesmo. Tanto faz se você está construindo uma máquina voadora, escrevendo uma música ou tentando curar uma doença. Funciona assim: problema, solução, avaliação, de novo e de novo, por quanto tempo for necessário.

EXAME.com – Você poderia dar um exemplo de uma grande descoberta que foi desenvolvida de forma árdua, pontuada por dúvidas e ameaçada pelo ridículo?

Kevin Ashton – Quase toda invenção segue esse padrão, se a história é contada com honestidade. Para pegar um exemplo do Brasil, podemos pensar na descoberta da bradicinina pelo [farmacologista] Maurício Rocha e Silva e seus colegas nos anos 1940.

A bradicinina é uma substância química que reduz a pressão arterial quando você é picado por uma cobra. Na época, os especialistas estavam convictos de que uma outra substância, a histamina, era responsável por esse efeito. Era justamente esse o tema que Rocha e Silva estava estudando: como a histamina regulava a circulação.

O que ele descobriu foi algo muito diferente e inesperado, algo que seus colegas tiveram grande dificuldade em aceitar: que os ingredientes do veneno da cobra faziam com que uma nova substância, a bradicinina, fosse liberada no sangue.

A descoberta foi um divisor de águas para a ciência. Levou ao desenvolvimento de medicamentos contra hipertensão, que salvam vidas, e a uma compreensão muito melhor da fisiologia humana.

EXAME.com: Qual é o pior veneno para a criatividade? E o melhor combustível?

Kevin Ashton – Desistir e nunca desistir, respectivamente.