Empresas brasileiras transferem operações para o Paraguai e geram oportunidades profissionais

Atraídas por custos menores e incentivos fiscais, empresas estão expandindo as operações no país vizinho e contratando profissionais de média e alta gestão

“Mais do que com um mercado próspero, deparei com um belo país”, diz Rogério Borges Schwanck, administrador de empresas paranaense de 47 anos de idade, sobre sua primeira visita ao Paraguai, realizada há cinco anos, quando ainda era consultor do Sebrae. Ao descobrir facilidades como baixo custo de impostos e de encargos sociais, além de uma legislação trabalhista e tributária simples, ele se especializou nas leis de incentivo fiscal do país vizinho e não voltou mais para o Brasil. 

Em 2015, justamente por conhecer os dois mercados – brasileiro e paraguaio -, Rogério recebeu uma proposta para ocupar o cargo de diretor executivo de novos negócios na T2Sys, empresa brasileira de processamento de cheques e documentos por imagens, que está investindo 2 milhões de reais na capital paraguaia, Assunção, para expandir a operação no país vizinho. “A capital federal do Paraguai, região que mais recebe investimento em infraestrutura, já não perde para nenhuma cidade brasileira”, diz Rogério. Entre os 100 colaboradores que serão mobilizados para trabalhar na nova unidade, apenas os profissionais mais estratégicos, como coordenadores e especialistas, serão brasileiros. “Nossa proposta, além de gerar renda e emprego, é capacitar a mão de obra paraguaia – 30% mais barata do que a brasileira”, diz o diretor.

Marcas tradicionais, como a fabricante de brinquedos Estrela e o Grupo Guararapes Riachuelo, também estão expandindo as operações no país vizinho em busca de menores custos. Segundo dados da Confedera­ção Nacional da Indústria (CNI), 90 empresas brasileiras já cruzaram a fronteira. Dessas, 58 foram atraídas pela chamada Lei de Maquila, que prevê isenção de impostos a empresas estrangeiras para importar maquinário e matéria-prima, desde que o produto final seja exportado. Há apenas um tributo de 1% sobre a fatura de exportação quando a mercadoria deixa o Paraguai. “É uma tendência no comércio internacional. Cada vez mais empresas buscam alianças estratégicas com países que permitem que seu produto acesse novos mercados a preços mais competitivos”, diz Sarah Saldanha, gerente de serviços de in­ter­na­cionalização da CNI.

Posições estratégicas

Essa lei, no entanto, não é o único ponto de atração para empresários brasileiros investirem no Paraguai. Além do baixo custo da mão de obra local, a abundante oferta de energia elétrica, devido à hidrelétrica de Itaipu, faz com que essa despesa por lá seja 60% mais barata do que no Brasil. “A crise econômica, aliada ao ­custo Brasil e ao encarecimento da produção na China são outros fatores que justificam esse movimento”, diz Murillo Rodrigues Onesti, advogado do escritório de direito empresarial e estratégico Onesti & Lima Neto Advogados, de São Paulo, que presta assessoria a empresas interessadas em se instalar no Paraguai.

Para ele, essa onda de emigração está no começo e deve crescer ainda mais, gerando demanda por profissionais de diversas áreas. “Profissionais de logística, suprimentos, recursos humanos (recrutamento, seleção, treinamento e gestão), tecnologia e consultoria empresarial podem ser muito bem-sucedidos neste momento do país vizinho”, afirma. Hoje, a maioria das companhias brasileiras presentes no Paraguai atua na indústria de confecção, calçados e autopeças e no agronegócio. “Essas empresas normalmente buscam seus gerentes e diretores no Brasil – até porque mais de 70% da população no Paraguai tem menos de 35 anos, o que pode ser uma vantagem para profissionais brasileiros experientes”, diz Murillo.

Possibilidade de aprender um novo idioma, de receber uma promoção e de gerenciar uma equipe de outra cultura são algumas das vantagens apontadas pelo Fesap Group – empresa de recrutamento executivo – que devem pesar na avaliação do profissional que está em dúvida sobre aceitar uma proposta de trabalho no exterior. “A diversidade cultural é sempre um diferencial na carreira”, afirma Carlos Guilherme Nosé, CEO do Fesap Group, em São Paulo.

Porém, é importante que o executivo saiba que poderá enfrentar algumas dificuldades, como falta de infraestrutura em diversas cidades – com exceção de Assunção -, e ainda sofrer com o famoso preconceito contra a indústria paraguaia. “O executivo deve se preocupar com quanto, de fato, essa mudança vai valorizar sua trajetória profissional e analisar se ela pode gerar algum obstáculo para uma recolocação futura”, diz Carlos Guilherme.

Diante dos baixos impostos no país vizinho, entretanto, há quem diga que esse receio tende a diminuir com o passar dos anos. “A busca por matéria-prima alternativa e mais barata já não é necessária, implicando um produto com qualidade igual ou superior à do fabricado em diversos lugares do mundo”, afirma o advogado Murillo Rodrigues Onesti. Uma pesquisa feita pela Catho, site líder em classificados de emprego no país, mostra que os brasileiros estão cada vez mais dispostos a deixar o Brasil para abraçar uma oportunidade de trabalho lá fora, passando de 75% em 2014 para 79% em 2015. O Paraguai, apesar de não ser tradicionalmente um dos maiores importadores de executivos do Brasil, entra na estatística. “Quem está aberto à mobilidade se direciona para onde a oportunidade está”, afirma Murilo Cavellucci, diretor de gente e gestão da Catho.

Vagas nas brasileiras

A divisão entre os empregos gerados pela migração das empresas brasileiras para o país vizinho é clara: vagas de alta e média gestão são preenchidas por brasileiros. As de menor qualificação são destinadas aos cidadãos paraguaios. Isso não acontece nas organizações paraguaias. “As empresas locais não têm apetite por trabalhadores brasileiros pela diferença cultural entre os dois paí­ses”, diz Luciano Salamacha, consultor empresarial e professor na FGV Management, em Ponta Grossa (PR). Por isso mesmo, segundo ele, o melhor lugar para um brasileiro procurar uma colocação no Paraguai é o Brasil. Mas ao conceder incentivos fiscais às empresas estrangeiras que se instalarem em seu território, o país vizinho deve tornar seu mercado de trabalho cada vez mais atraente para nossos executivos, opina o professor. “Essa avalanche de empresas vindas do Brasil contribuirá para a elevação da qualidade da gestão nas empresas paraguaias”, afirma Luciano.

É no que aposta o potiguar José Paulo Pereira Santos, de 26 anos, transferido do Rio Grande do Norte e promovido em janeiro deste ano a gerente de qualidade do Projeto Paraguai da rede varejista Riachuelo Guararapes, que, associada à paraguaia Texcin, se prepara para dobrar a capacidade de produção na fábrica instalada há um ano em Assunção. Grande parte da produção das peças da marca, antes feita na China, foi transferida para a fábrica do Paraguai, que emprega 500 funcionários, quase todos nativos. “Além da disponibilidade para mudanças, fui selecionado por minha capacidade de adaptação, foco no resultado e conhecimento da cadeia produtiva”, diz José Paulo. O novo gerente não planeja voltar tão cedo para o Brasil. “O povo paraguaio é muito educado e amável com os estrangeiros. A segurança é incrível, pelo menos na grande Assunção e nas pequenas cidades vizinhas. O custo de vida é até 30% menor do que o do Brasil”, diz ele. “Aprendi o idioma no dia a dia, com os costureiros contratados.”

Dos 6,5 milhões de habitantes do Paraguai, quase 350 000 são brasileiros – mas o número total, contabilizando os irregulares, pode chegar a 1 milhão -, formando uma das maiores colônias de brasileiros no exterior. “Para os que estão chegando ao Paraguai ou pensando em ir para lá, a vantagem é fazer parte do início do que pode ser um importante polo industrial internacional – à medida que a estabilidade política e jurídica se consolidar no país”, diz Luciano Salamacha. Monitorar esses sinais é a chave para analisar quão verde é a grama do vizinho.

Cargos em alta

Confira os profissionais mais demandados pelas empresas brasileiras em operação no Paraguai

• Diretor e gerente de produção

• Gerente de logística

• Diretor de operações

• Diretor e gerente comercial

Fonte: Fesap Group

 

Mudança sem surpresa

Saiba o que avaliar antes de aceitar uma proposta no país vizinho

• Local de trabalho: Investigue a cidade onde ficará alocado e pesquise sobre a cultura local e a estabilidade econômica, política e jurídica do país.

• Cotidiano: Converse com quem já morou no outro país para saber sobre o dia a dia e avaliar aspectos como segurança, custo de vida e infraestrutura de saúde, educação e transporte.

• Adaptação familiar: Levando em conta a carreira do cônjuge e a idade dos filhos, analise quão difícil seria a adaptação de cada membro de sua família.

• Coerência com o currículo: Analise se esse movimento de carreira faz sentido em seus planos profissionais, se adiciona bagagem ao currículo e se o aproxima da posição à qual almeja chegar.

• Recolocação: Questione se, caso a experiência de trabalho no exterior não der certo, você terá maior facilidade ou dificuldade de recolocação ao retornar ao Brasil.

Fontes: Fesap Group e Catho

Esta matéria foi publicada originalmente na edição 223 da revista Você S/A e pode conter informações desatualizadas

Você S/A | Edição 223 | Dezembro de 2016