Como um projeto de faculdade virou série na Netflix

Conheça a jornada de carreira com muitas rejeições enfrentada pelos criadores de 3%, a primeira produção brasileira na Netflix

Em 5 de agosto de 2015, veio o anúncio oficial: “3%”, uma ficção científica sobre um Brasil distópico, seria a primeira série brasileira Original Netflix. Foi o fim de uma longa jornada e o começo de outra, ainda mais desafiadora, para seus criadores.

O que começou como ideia na Universidade de São Paulo (USP) seis anos e dez rejeições antes agora era algo gigante, com orçamento estimado em R$ 10 milhões e espectadores em 190 países.

Criada por Pedro Aguilera, “3%” tem quatro diretores: Daina Giannecchini, Dani Libardi, Jotagá Crema e César Charlone. Charlone já foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia por seu trabalho em “Cidade de Deus” e trouxe experiência de peso ao grupo, amigos dos tempos de curso de Audiovisual na USP e unidos pela persistência e amor ao projeto.

Por trás de “3%”

A história do seriado se mistura com a história da internet e começa no YouTube, com o vídeo “Matrix Baixo Orçamento”, um pequeno hit de 2006 com mais de 180 mil visualizações criado pela turma. O exercício de aula chamou a atenção da produtora Maria Bonita Filmes, que convidou os universitários para formar um coletivo criativo no segundo ano de faculdade.

“Aos poucos fomos crescendo e ganhando editais”, conta Jotagá, que abandonou a Escola Politécnica da USP no quarto ano de faculdade para se tornar cineasta. (O insight veio, aliás, quando foi pego colando por um professor. O alívio foi tanto que Jotagá contou aos pais no mesmo dia que trocaria de curso.)

Sobre isso, ele escreveu um texto em seu Facebook que na época teve grande repercussão – “Eu não sou um engenheiro” – e logo depois publicou uma coluna na Folha de São Paulo. “Mudar muitas vezes é necessário. Ninguém precisa ter medo ou vergonha por estar no lugar errado na hora errada. É um ato de coragem perceber isso e descobrir o melhor para si mesmo”, escreveu. 

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Já no curso de Audiovisual da USP, ele desenvolveu a ideia de Aguilera junto ao coletivo para um edital de 2009. Criaram a bíblia da série (uma espécie de manual de instruções televisivo, que explica aquele universo) e filmaram um episódio piloto de “3%” – são chamados assim os episódios para ‘vender a ideia’, que têm a intenção de apresentar uma proposta de série para para investidores e executivos de emissoras de televisão. O piloto foi transmitido pela TV Brasil.

“A Maria Bonita nos deu todas as condições para fazer um bom piloto, mas acabamos não ganhando a temporada”, continua Jotagá. Era o começo da batalha. “É um projeto difícil. Os executivos hesitavam por conta do tamanho, do orçamento alto e do gênero ousado. No fim, tínhamos que provar que as pessoa iriam gostar.”

Um ano depois e ainda apaixonados pela ideia, os criadores decidiram comprovar a demanda por conta própria. Dividiram o episódio em três, transformaram em websérie, disponibilizaram gratuitamente no YouTube e investiram pesado na divulgação online.

Redigiram uma lista de cem nomes da imprensa e dispararam e-mails. “Falávamos que era uma série de ficção científica de alunos da USP em busca de um canal e começou a pipocar em vários lugares”, lembra Jotagá.

Empolgados com a boa recepção, legendaram os episódios em inglês e fizeram uma nova leva de divulgação, dessa vez internacional, pesquisando e-mails de jornalistas no Google. Fisgaram a “Wired”, publicação de tecnologia muito respeitada nos EUA – e, sem saber, Eric Barmack, vice-presidente de conteúdo global da Netflix.

A Netflix e o Brasil

A essa altura formados, os integrantes do coletivo dividiam os esforços de publicidade da ideia da série com o início de carreira na área. Nessa época ainda não vigorava a “Lei do Cabo”, que exige três horas semanais de produção nacional em canais pagos.

“Encontrar trabalho foi difícil e desenvolvíamos as coisas sem ter perspectiva de vender de verdade, mas depois da lei o setor audiovisual floresceu”, fala Jotagá, citando uma pesquisa da Agência Nacional de Cinema (Ancine) que indica um crescimento do setor de 9% ao ano. Entre trabalhos, o grupo acabou conhecendo Tiago Melo, hoje produtor de “3%”. 

Ao mesmo tempo, a Netflix crescia exponencialmente e dava os primeiros passos para a criação de conteúdo original.

O Brasil sempre foi importante para a empresa. Como seu primeiro mercado externo, o país se tornou uma espécie de laboratório para a Netflix, que tem cerca de 6 milhões de assinantes brasileiros e faturamento anual estimado em R$ 1,2 bilhão – maior que o do SBT.

Com o sucesso do primeiro seriado da casa, “House of Cards”, lançado em 2013, a produção interna começou a crescer. Dois anos depois, a Netflix abriu uma competição no Brasil e a turma de “3%”, já conhecida por Barmack, se inscreveu e ganhou o contrato.

Após seis meses de roteirização, a temporada de oito episódios foi filmada no primeiro semestre de 2016 e lançada no fim do segundo, em 25 de novembro.

Entre 2009 e 2015, “3%” ganhou maturidade e complexidade, assim como seus criadores e, com a infraestrutura da Netflix, evoluiu ainda mais. Quando chegou enfim a madrugada do lançamento, os realizadores se encontraram para acompanhar a recepção pelo Twitter.

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Cena do episódio de lançamento de 3% [reprodução]

Assistiram empolgados a ascensão da hashtag na lista de trending topics do Brasil e do mundo. “A imprensa criticou bastante, só que o público amou”, opina Jotagá, destacando os mais de 300 mil fãs nas páginas de redes sociais. “Nós sempre acreditamos muito no projeto e fizemos o projeto que queríamos. É um orgulho gigante ver que está indo bem aqui e lá fora também.”

Sem desanimar, o grupo absorveu as críticas, aumentou o número de pessoas na equipe e mergulhou na criação da segunda temporada, já confirmada pela Netflix e ainda sem data de estreia.

Lembrando-se das rejeições que tiveram ao longo dos anos, Jotagá destaca a importância da persistência e do autodesenvolvimento. “Você vai receber várias negativas mesmo, mas é preciso ouvir as críticas e não desistir”, afirma.

Afinal, como estudantes num campus em São Paulo poderiam ter previsto, num já longínquo 2009, que algo como o Netflix existiria no mundo? “É uma revolução no meio e um privilégio estar fazendo parte disso”, conclui ele. Um privilégio, vale destacar, 100% nacional.

  • este artigo foi originalmente publicado pelo Na Prática, portal de carreira da Fundação Estudar