Como ter assunto com Bill Gates

Quando uma das mentes mais brilhantes da atualidade faz recomendações de leitura, você tem que parar para ler

Se você não é muito bom de puxar conversa com estranhos, este post é para você.

Hoje é mais um dia comum em que você pega o elevador do seu prédio ou do lugar onde trabalha. De repente, a caixa metálica para em um dos andares.

Bill Gates entra, ajeita os óculos quadrados sobre o longo nariz adunco, dá seu sorriso de filantropo multimilionário. Você é a única pessoa ali e ele sorriu na sua direção – um claro indício de que está permitido puxar papo.

É isso mesmo, uma das mentes mais brilhantes da atualidade está abrindo brecha para que você inicie uma conversa. E você, o que faz? Fala da chuva, do Temer, do aumento do condomínio? Não. Fala sobre os livros que ele sugeriu no Blog Gates Notes.

Hipóteses absurdas à parte, o fato é que o criador da Microsoft é um leitor ávido (já falamos por aqui sobre como ler mais), suas recomendações literárias já viraram tradição e recentemente ele divulgou uma lista de leituras perfeitas para o verão – que começa em pouco menos de um mês no hemisfério norte.

Mas não desista pela dessincronia de estações: não são livros que precisam necessariamente ser lidos à sombra de um coqueiro com os pés na areia. Se só houver meias, mantas e lareira, a leitura não será prejudicada.

A premissa de Bill (será que posso chamá-lo assim?) é que o verão é uma época para escapar para a praia, para as montanhas ou para o universo de um bom livro.

“Os livros da lista de leitura de verão deste ano me empurraram para fora das minhas próprias experiências, e eu aprendi coisas que lançam a luz nova em como nossas vivências nos formam e onde a humanidade pode ser atingida (..)

Espero que você descubra que os outros fazem você pensar profundamente sobre o que significa realmente se conectar com outras pessoas e ter propósitos na vida”, escreveu ele.

Bom, vamos ao que interessa:

Homo deus: uma breve história do amanhã, Yuval Noah Harari

(Homo deus/Reprodução)

Se o israelense Yuval Noah Harari já tinha acertado no best-seller internacional Sapiens: Uma breve história da humanidade, traduzido em 40 línguas, o mais recente, Homo deus: uma breve história do amanhã, leva a ideia antes exposta de que o ser humano é um acidente para uma perspectiva ainda mais ousada.

Nesta obra, Harari explica como nossa necessidade de controlar tudo o que nos cerca está levando a humanidade para uma realidade antes só imaginada em ficções científicas ou fantasias religiosas.

O autor defende que, em um futuro próximo, com os avanços tecnológicos e, principalmente, da medicina, os limites da vida serão paulatinamente ampliados rumo à imortalidade. Um livro desafiador e bastante consistente sobre como a tecnologia pode driblar a falência humana – “muito black mirror”.

Born a Crime, Trevor Noah

(Born a crime/Reprodução)

A autobiografia do comediante sul-africano e apresentador do programa The Daily Show reconta histórias sobre sua infância na África do Sul pós-apartheid.

O título que, em português, significa “nascido o crime” tem tudo a ver com o contexto histórico em que Trevor cresce: ele é filho de um pai branco e sua mãe é negra, e por causa disso teve dificuldade em se adaptar nos esquemas raciais impostos na época.

Born a crime foi publicado no final do ano passado e logo encabeçou a lista de mais vendidos do The New York Times – onde também foi eleito um dos melhores livros do ano.

The Heart, Maylis de Kerangal

(The heart/Reprodução)

Talvez um dos livros mais filosóficas e emocionantes desta lista, The Heart (“O Coração”, ainda sem edição em português) é a síntese do que a existência significa quando a vida é um corpo em uma sala de cirurgia.

A narrativa se desenrola em 24 horas, após um acidente gravíssimo de carro em que uma das vítimas chega ao hospital com morte cerebral – e seu coração é doado para uma mulher prestes a morrer. A partir daí, o livro examina as reações de todas as pessoas envolvidas no transplante.

A escritora é a francesa Maylis de Kerangal, também autora de Mend the Living (“Repare os vivos”), que ganhou o mais recente Wellcome Book Prize, Prêmio Anual de Literatura da Inglaterra que celebra obras literárias de saúde e medicina.

Hillbilly Elegy, J.D. Vance

(Hillbilly Elegy/Reprodução)

O livro que ganhou força durante a eleição presidencial americana do ano passado conta a história da infância pobre de Vance e a luta da classe operária em uma cidade decadente do interior do estado de Ohio para não se tornar invisível.

A narrativa mostra a falência dos valores da região diante do capitalismo e a ruína da família de Vance.

Com crueza de detalhes, ele narra como foi sobreviver em meio ao abuso, a violência, o alcoolismo e o abuso de drogas em sua casa, e conseguir cursar direito na Universidade de Yale.

A obra, que ainda não chegou ao Brasil, entrou na lista de mais vendidos do The New York Times em agosto de 2016 e janeiro deste ano.

A Full Life, Jimmy Carter

(A full life Jimmy Carter/Reprodução)

Com 90 anos, o ex-presidente americano e vencedor do Nobel da Paz fala francamente sobre sua trajetória militar, sua vida na presidência dos Estados Unidos, o relacionamento com a família e a importância da fé.

No livro A Full Life (algo como “Uma Vida Repleta”, outro que também não chegou ao Brasil), o democrata faz reflexões sobre espiritualidade, tolerância, decisões que hoje não tomaria, coisas que faria diferente e outras histórias – como as vezes em que quase morreu na Marinha e a influência da mãe na sua vida.

E aí, preparado para encarar um elevador com Bill Gates? Só falta ele aparecer.

A única má notícia dessa lista é que desses livros, apenas Homo deus foi publicado aqui no Brasil. Quem sabe até o nosso próximo verão.