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Última atualização 26/05/2017 - 17:20 FONTE

Como é trabalhar no Fórum Econômico Mundial

O que fazer para concorrer com sucesso a uma vaga na organização, que atrai talentos de várias partes do planeta

Genebra – O Fórum Econômico Mundial,(ou World Economic Forum – WEF – em inglês), organização sem fins lucrativos com sede em Genebra, é um celeiro de talentos. A instituição atrai profissionais de várias partes do globo não só no mês de janeiro, época em que sedia, em Davos, a sua reunião anual, com participação de políticos e empresários que discutem os rumos do planeta. 

Para se ter uma ideia, a área de recursos humanos da ONG recebe, por ano, 20 000 currículos. A boa notícia é que os brasileiros estão no páreo e vêm ganhando espaço. Atualmente, são sete em uma equipe de 594 funcionários. E a instituição continua recrutando – favorecendo a diversidade dos concorrentes e reconhecendo o potencial dos candidatos com currículos latinos. “Buscamos candidatos com ampla experiência nessa região para nossos times locais, que cuidam dos eventos nesse território e administram os interesses de clientes e parceiros por ali”, diz Paolo Gallo, diretor de recursos humanos do WEF. As oportunidades são variadas.

Em janeiro, quando esta reportagem foi escrita, havia 27 vagas no site da organização: 19 para atuar em Genebra e oito para trabalhar em Nova York. Entre as ofertas, o Fórum buscava um especialista em operações de recursos humanos, um líder de projeto em ambiente e sustentabilidade e um líder de comunidade para a América Latina e a África Subsaariana para trabalhar no projeto Fórum de Jovens Líderes Globais. “Atualmente temos uma comunidade grande de profissionais da América Latina em diferentes áreas e em diferentes cargos”, afirma Paolo. 

Claro que, como qualquer instituição séria, o Fórum Econômico Mundial busca exaustivamente candidatos que tenham um perfil específico e alinhado aos valores da instituição, que é, por si só, bastante singular. Afinal, é uma organização sem fins lucrativos, financiada pelas empresas-membro, e que tem forte influência acadêmica, pois o fundador, o alemão Klaus Schwab atuou como professor de administração durante anos. 

Para entender os valores do Fórum, é preciso saber um pouco da sua história. Tudo começou em 1971, em Genebra, quando Klaus fundou o European Management Center (Centro Europeu de Gestão) com o objetivo de fazer com que as empresas europeias se atualizassem e tivessem acesso às práticas de gestão aplicadas nos Estados Unidos. Já nesse período, os participantes se encontravam para um evento em janeiro na estação de esqui Davos, na Suíça, que viraria a marca registrada do Fórum.

Ao longo do tempo, o Centro ganhou novos adeptos e parceiros e as reuniões ao redor do mundo passaram a fazer parte da rotina. O reconhecimento global foi ampliado em 1979 quando foi lançado o renomado Global Competitiveness Report, estudo que compara a competitividade econômica dos países. Em 1987, o Centro mudou de nome e tornou-se o Fórum Econômico Mundial. Com essa história em mente, fica fácil entender que um dos aspectos mais importantes para um candidato a uma vaga lá é estar alinhado à missão da organização: melhorar as condições do mundo em que vivemos. “Ele tem que ter uma mistura de habilidades como atitude empreendedora, experiência internacional, capacidade de atuar como um legislador e interesse intelectual em produção de conhecimento”, diz Paolo.

Saber produzir resultados num ambiente de várias culturas também é fundamental. Afinal, a ONG é composta por gente de todas as partes do globo: em janeiro, eram 72 nacionalidades trabalhando juntas – os maiores grupos formados por suíços, franceses, norte-americanos, alemães e ingleses. Essas pessoas ficam espalhadas em quatro locais: a sede, em Cologny, município suíço à margem esquerda do lago de Genebra; Nova York, nos Estados Unidos; Pequim, na China; e Tóquio, no Japão.

Português nos corredores 

Entre os brasileiros, a baiana Isabelle Lecouls Carbonnier, de 34 anos, é uma das mais antigas: entrou para o time em novembro de 2007. Desde então, ela tem assistido ao aumento da presença não só de conterrâneos mas dos latino-americanos nos corredores da instituição. “Esse é o momento em que há o maior número de brasileiros por aqui”, afirma. Isabelle queria fazer carreira em um local com os valores do WEF desde a época em que cursava relações internacionais em Salvador. “Meu objetivo era trabalhar com uma atividade que criasse um impacto positivo na vida das pessoas”, diz.

A chance de emprego que abriu as portas para o WEF surgiu pela sua determinação – e pela coragem de trabalhar nas férias. “Passei duas semanas em Genebra e bati em tantas portas pedindo estágio que consegui um trabalho como anfitriã em uma exposição de fotos das Nações Unidas e logo depois um estágio”, diz Isabelle.

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Essa sua primeira experiência na Europa a fez ter vontade de seguir no velho continente. Assim que terminou o estágio, cursou um mestrado na London School of Economics e, com o diploma nas mãos, se candidatou a uma vaga na unidade de parcerias estratégicas do Fórum – função que ocupou por oito anos. Sua principal atribuição era administrar o relacionamento com as empresas parceiras, garantindo que houvesse um alinhamento entre os projetos, as companhias e os objetivos do Fórum. “Para trabalhar aqui, é importante ter o espírito aberto e interesses variados”, diz Isabelle.

Depois de oito anos atuando na mesma unidade, Isabelle preparava-se no final de janeiro para mudar de equipe. Seu novo time dentro do WEF é o Global Shapers, uma comunidade que reúne jovens talentos de todo o mundo, com potencial excepcional, que lideram projetos inovadores e fazem a diferença nas comunidades em que atuam. “Meu trabalho será estabelecer uma ligação entre esses talentos e as empresas parceiras do Fórum”, explica. Vale lembrar que essa mudança faz parte da carreira de Isabelle, discutida com o RH: trabalhar 80% do tempo, ou seja, quatro dias por semana, para poder ficar um dia em casa com seus três filhos.

Cidadão do mundo

Colega de Isabella, Silvio Dulinsky,de 44 anos, chegou ao WEF em setembro de 2013 como líder de Business Engagement (em português, algo como “envolvimento com as empresas”) para Europa, Eurásia e América Latina. Ele vinha de uma carreira de 15 anos no mundo corporativo, 13 deles com o crachá da multinacional suíça Holcim, hoje LafargeHolcim, fabricante de materiais de construção. Mas desde cedo tinha interesse em viver fora do Brasil. Tanto que, entre o primeiro e o segundo ano da faculdade de administração de empresas, na Universidade de São Paulo, trancou a matrícula e foi para a Alemanha estudar a língua germânica.

Ao terminar a universidade, submeteu-se a um programa de educação continuada da Universidade de Basel, na Suíça, e foi aceito. Essa disposição de ser um cidadão do mundo o ajudou a conquistar o cargo atual. “Se você se mexer, vai encontrar oportunidades. Mais do que recursos, é preciso ter muita força de vontade e estar disposto a arriscar”, afi rma Silvio. “Morar fora é um projeto de longo prazo. A carreira no exterior não pode ser um escape, é uma opção de vida.”

Esse conselho é importantíssimo, ainda mais em um momento de crise em que mais brasileiros enxergam os aeroportos internacionais como a única saída possível. Se a carreira global for encarada como uma fuga, pode se tornar frustrante. Isso porque o mercado está cada vez mais competitivo e é preciso ter resiliência em qualquer lugar do mundo. “Será preciso fazer sacrifícios e, muitas vezes, começar do zero”, diz o executivo. E é mais ou menos isso que está acontecendo agora com Silvio: pela primeira vez na carreira, trabalha numa organização sem fins lucrativos, que tem um perfil bem diferente do tradicional mundo corporativo. A vaga surgiu quase que por acaso. “Fui pedir conselho para um amigo que é executivo no Fórum e ele comentou sobre a vaga, que me interessou”, diz Silvio. 

Em sua posição, ele tem como interlocutores CEOs, diretores de multinacionais, ministros e empreendedores sociais – ou seja, tomadores de decisão, gente que está fazendo alguma diferença no mundo. Conviver com essas pessoas é um privilégio que exige uma boa dose de modéstia. “Para trabalhar no WEF é preciso manter sempre os pés no chão. A organização é importante, é uma referência no que faz, mas as estrelas são as outras pessoas. Nós somos apenas catalizadores”, afirma Silvio. “Se você não tiver essa atitude de entrega, de humildade, não vai conseguir se motivar numa instituição como essa.” 

A humildade também se faz necessária quando o assunto é remuneração. No Fórum, como na maioria das ONGs, os holerites tendem a ser mais baixos do que os oferecidos por grandes empresas do mundo coporativo. “Não dá para ver a nossa atividade apenas como mais um trabalho, pois temos a chance de criar um impacto na sociedade”, afirma Silvio. Lá, para a conta fechar, o importante não é o dinheiro, mas o propósito.

Recrutamento criterioso

O passo a passo da área de recursos humanos do Fórum Econômico Mundial para selecionar os candidatos:

1. Processamento dos currículos.

2. Ligação telefônica preliminar do profissional de recursos humanos ao candidato, com duração de cerca de 30 minutos, para entender as motivações do concorrente à vaga.

3. Entrevista por videoconferência com duração de cerca de uma hora, conduzida pelo gerente contratante.

4. Entrevistas finais. Inclui entrevista com os principais profissionais envolvidos com a vaga, encontro com o time e com o gestor contratante. Se necessário, estudo de casos ou testes técnicos são aplicados.

5. Levantamento e contato com as referências fornecidas pelo profissional.

6. Oferta da posição e negociação do contrato.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição 211 da revista Você S/A com o título “No centro do mundo”

Você S/A | Edição 211 | Fevereiro de 2016 

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