Campus Party recebe comunidades de mulheres que programam

Oitava edição do evento contou com mais programações voltadas para o público feminino e trouxe mais comunidades que buscam incluir minorias na tecnologia

“Oi, onde você conseguiu essa camiseta?” – era a segunda menina que me perguntava, em pouco tempo de evento, onde eu havia pegado a tão desejada camiseta branca, de mangas pretas, com a estampa de uma menina com óculos na frente. Entre chaves, ela exibia a escrita “Code Girl”.

Apesar de ser uma bela peça, o item é muito mais requisitado por proporcionar uma sensação de pertencimento às meninas que estão participando da oitava edição da Campus Party.

Durante todo o dia de evento, muitas delas paravam pelas mesas da primeira fileira do local para falar com um dos cinco representantes da comunidade Code Girl para pedir informações e, claro, saber como conseguir a camiseta.

A iniciativa surgiu dentro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte para estimular meninas estudantes do ensino médio a seguir carreira em tecnologia.

O programa, que faz parte do projeto Programar meu Futuro, também é destinado a mulheres que já estejam cursando graduação em tecnologia mas se sentem desmotivadas a continuar nessa área.

“Queremos trabalhar esse problema muito sério que é a evasão de mulheres dessa área, pois muitas delas se sentem em desvantagem e abandonam curso”, afirma Cláudia Ribeiro, uma das fundadoras do Code Girl. 

Cláudia, que é professora no IFRN, resolveu iniciar o projeto após perceber a quantidade mínima de profissionais femininas que se formavam na faculdade. “Eu ensino três disciplinas e fico frustrada com a escassez de meninas nas salas de aula”, diz ela.

Com palestras e oficinas sobre programação e empreendedorismo, a ação já conseguiu atrair mais de 500 meninas em um único evento, onde tiveram oportunidade de conhecer sobre o mundo da programação e do empreendedorismo.

Apesar de promover seus primeiros eventos em Natal, o projeto pretende impactar garotas estudantes de todo o país com iniciativas em mais cidades e usa a internet para interagir com outras regiões do Brasil, respondendo dúvidas, promovendo treinamentos e divulgando a comunidade.

Outra iniciativa que também busca incluir mulheres na tecnologia é o WoMoz, uma comunidade que existe na Mozilla desde 2009 e retornou suas atividades no Brasil em outubro de 2014. A representante do projeto, Melissa Devens, conta a INFO que o principal objetivo da iniciativa é criar um ambiente mais agradável para mulheres e minorias que desejam se inserir no mundo da tecnologia.

A webdesigner de 26 anos esteve na Campus Party nessa sexta-feira em uma palestra no Palco Urano para apresentar a iniciativa e explicar como outras pessoas podem participar dela. “Não é preciso ser menina para entrar do projeto. Qualquer pessoa interessada pode se cadastrar em nosso site e começar a ajudar”, afirma Melissa.

Líder do WoMoz no Brasil, Melissa Devens (INFO)

O projeto conta atualmente com 10 colaboradoras que se encontram pelo menos uma vez por mês para discutir sobre as iniciativas. Em março, elas realizarão seu primeiro evento na pequena cidade de Gaurama, no Rio Grande do Sul, promovendo uma semana de inclusão digital com mulheres que nunca mexeram em um computador.

“A tecnologia ainda é um ambiente muito hostil para quem é minoria, então acho que a principal importância de iniciativas desse tipo é justamente encorajar essas pessoas e criar um ambiente agradável para que elas entram nessa área”, diz Melissa.

Com a pouca representação nesse mundo, não é de se espantar que tantas meninas queiram se sentir parte de alguma iniciativa para encorajá-las.

Atualmente, apenas 4% de mulheres ocupam cargos de liderança em TI globalmente. Elas chegam a compor apenas 30% do quadro de funcionários das companhias, conforme divulgado nos relatórios de diversidade do Facebook, da Microsoft e de outras gigantes da tecnologia.

Além disso, ganham salários menores mesmo que ocupem a mesma posição e tenham a mesma experiência que outro homem. No ano passado, o Brasil chegou a cair nove posições no Índice Global de Desigualdades de Gênero de 2014, de 62º para 71º.

Essas e outras pesquisas apenas reforçam a necessidade de termos maior participação feminina nas edições da Campus Party, nas universidades e nas empresas de tecnologia. E, se depender de projetos como WoMoz e Code Girl, cada vez mais meninas estarão vestindo essa camiseta.