Acerte no lance

Abrevie a espera por seu imóvel ou carro calculando o valor mais adequado de oferta pela carta de crédito

Considerado uma das principais alternativas aos financiamentos – que nos últimos meses espantaram os consumidores por causa dos juros altos -, o consórcio vem tendo um desempenho acima da média em plena desaceleração da economia. “Em números absolutos, de janeiro a setembro deste ano, vendemos quase 25% mais cotas em relação a 2015”, afirma Rafael Boldo, gerente da Porto Seguro Consórcio. 

Segundo dados da Associação Brasileira dos Administradores de Consórcio (Abac), nos meses de agosto e setembro de 2016, o sistema alcançou os recordes de 221 000 e 186 000 novas adesões, respectivamente (veja gráfico). E o segmento deve continuar favorável nos próximos meses. “Para 2017, estimamos mais 20% de crescimento, porque os juros devem se manter altos”, diz Rogério Pereira, diretor comercial do Consórcio Embracon, administradora de consórcios em Santana de Parnaíba (SP).

O administrador de empresas Marcio Tadeu Gonçalves, de 39 anos, de São Caetano do Sul (SP), que recentemente trocou de carro e de casa recorrendo ao consórcio, é um dos que ajudaram a engrossar essa estatística. “Eu não queria comprar à vista porque prefiro ir aplicando o dinheiro a pagar tudo de uma vez”, diz. Mas, com os juros de financiamento muito altos, Marcio acabou optando pelo consórcio. “Eu tinha bastante preconceito com essa modalidade”, diz. “Mas, conversando com o vendedor, mudei de ideia.”

Mais rápido

Embora atraia o consumidor com a promessa de cobrar parcelas fixas – não corrigidas por juros -, a principal desvantagem dos consórcios é a espera até poder desfrutar o bem adquirido. A modalidade funciona como um financiamento coletivo de longo prazo, em que todos os participantes depositam mensalmente parte do dinheiro para garantir que cada um possa ter o bem desejado. 

A cada mês, entretanto, apenas alguns cotistas são contemplados, por meio de um sorteio. A espera para receber a carta de crédito – que permite adquirir o bem – pode chegar a dez anos, de acordo com o valor do produto (quanto mais alto, maior o prazo) e o tempo de duração do grupo. Mas há alternativas para ser contemplado mais cedo sem depender dos sorteios: os lances. O desafio, entretanto, consiste em acertar o valor da proposta vencedora, porque só leva quem faz a maior oferta. É o chamado lance livre.

Algumas estratégias podem ajudar a fazer a oferta mais adequada. “Antes de entrar no consórcio, escolhi um grupo apropriado para o valor que eu estava disposto a dar de lance”, diz Marcio, que usou o dinheiro que daria de entrada no financiamento para fazer o lance. 

Funcionou: no mesmo mês em que aderiu ao consórcio, o administrador de empresas foi contemplado. Ele gostou tanto da experiência que resolveu trocar de apartamento da mesma forma. Nesse caso, como tinha menos pressa para ter a carta de crédito, ele optou pelo lance fixo, outro tipo de lance. Nesse formato, o consorciado informa se deseja, em determinado mês, tentar levar a carta de crédito oferecendo um valor correspondente a 20% ou 30% do saldo devedor da carta de crédito. 

Esse percentual é pré-definido pela administradora do consórcio. Se mais de uma pessoa der o lance, prevalecerá o cliente cuja numeração de cota for mais próxima da contemplada no sorteio normal do período. “Escolhi o fixo porque o valor era menor do que a média do lance livre”, diz Marcio. Deu certo: três meses depois de aderir ao consórcio, o administrador foi contemplado no lance fixo, em março deste ano.

Para ele, um dos principais ganhos proporcionados pelo consórcio é o poder de barganha que se obtém ao conseguir a carta de crédito. “Você fecha negócios melhores, sem precisar ficar pagando juros durante anos”, diz. Com a carta de crédito na mão, ele pôde, por exemplo, reduzir de 30 para dez anos o prazo de financiamento de seu apartamento anterior, que foi revendido, e negociar um preço melhor para o novo imóvel, onde já está instalado.

Planejamento

Desde 2013, quando conheceu a modalidade, o consórcio é a opção favorita do engenheiro Felipe Andrade de Magalhães Carvalho, de 32 anos, de Brasília, na hora de trocar de veículo. “Para mim, a principal vantagem é não pagar juros, só a taxa administrativa”, afirma. Para reduzir o tempo de espera, o engenheiro toma alguns cuidados, como avaliar o percentual médio e os tipos de lance preferidos dos participantes de cada grupo. “Guardo dinheiro para a oferta e vou pesquisando a média dos grupos”, diz. 

Feita a escolha do grupo, ele dá um lance 5% superior à média. Desde 2013, Felipe já conseguiu três veículos por lance, sempre com apenas alguns meses de espera. O último carro, um Corolla, saiu em janeiro deste ano. “Estou muito satisfeito.”

Para quem não tem muito dinheiro reservado para o lance, o consórcio oferece a opção do lance embutido. “Ele pode ser usado para completar tanto o lance fixo quanto o livre”, diz Silvano de Oliveira Carvalho, da seguradora Mapfre, em São Paulo. Nesse caso, o valor do lance é subtraído da carta de crédito e pago nas prestações normais do consórcio. 

Mas nem sempre isso é vantajoso. “Em grupos em que muitos usam o lance embutido, o valor dos lances acaba ficando inflacionado”, afirma Fernando Segato Afonso, sócio da Gorioux Faro do Brasil, consultoria de assuntos financeiros em São Paulo. E há grupos em que o consorciado só pode ter o benefício do lance embutido caso já tenha demonstrado ter capital próprio por meio de um lance livre. Por isso, cheque as regras de cada grupo antes de optar por algum.

No caso de consórcio imobiliário, também é possível sacar o FGTS para engordar o valor do lance. “Minha recomendação é só dar de lance o que você realmente tiver disponível. Endividar-se para dar um lance tira toda a vantagem do consórcio”, diz Bruno Chacon, educador financeiro da DSOP, escola de educação financeira em São Paulo. Vale ressaltar que o lance serve para quem tem pressa. “Se puder esperar pelo sorteio, a pessoa terá a opção de aplicar o dinheiro que iria para o lance em um fundo de renda fixa, por exemplo”, diz Bruno.

Não custa lembrar a importância de investigar a situação da administradora do consórcio na Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac) e no Banco Central, além de checar o histórico de queixas contra ela em sites de reclamações na internet. Com esses cuidados e dicas, o consórcio pode ser uma boa ferramenta para realizar seu sonho de consumo sem juros e sem demora.

A matemática envolvida

Confira algumas dicas para elevar suas chances de dar o melhor lance

• Estude antes de entrar: com ajuda do vendedor, analise a média histórica de lances de cada grupo para saber qual se encaixa melhor na sua realidade financeira.

• Evite grupos novos: eles tendem a ser mais concorridos e ter valor médio de lance mais alto.

• Calcule quanto adicionar: estime um valor de 1,5% a 3% acima da média do grupo para dar o lance.

• Evite o fim do ano: nessa época, quando as pessoas recebem o 13o salário, o valor médio dos lances sobe.

• Investigue a Administradora: cheque a situação dela em sites de reclamações, no Banco Central e na Abac. Quanto melhor a saúde financeira de um grupo, mais contemplações por mês acontecem.

Aposta certeira 

Entenda como funcionam os tipos de lance. É possível usar o fixo e o livre ao mesmo tempo, e até usar recursos da carta de crédito para ser contemplado mais cedo

• Lance fixo: consiste na oferta de um percentual de 20% ou 30% do saldo devedor da carta de crédito no mês em que o cliente desejar efetuar o lance. Se duas ou mais pessoas derem um lance igual, será contemplado o cliente cuja numeração de cota for mais próxima da sorteada no período.

• Lance livre: cada um dá o lance que quiser, e quem oferecer o maior percentual sobre o valor da carta de crédito será contemplado.

• Lance embutido: permite ao cliente dar o lance com 30% a 50% do valor que receberia na carta de crédito. O percentual usado antecipadamente será abatido do valor da carta de crédito. Pode complementar os outros dois tipos de lance.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição 223 da revista Você S/A e pode conter informações desatualizadas

Você S/A | Edição 223 | Dezembro de 2016