Sem merenda ou tablets: a receita da escola campeã do Brasil

Em greve e com problemas nas instalações, o diretor do Colégio Aplicação, em Recife, explica como a escola conseguiu ser campeã nacional 3 vezes seguidas no Ideb

São Paulo – Se uma escola fica em primeiro lugar entre 37 mil instituições de ensino da rede pública do país, alguma coisa de especial ela tem. A questão é definir o quê. Para o diretor do único colégio brasileiro com avaliação acima de 8 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2011, Alfredo Matos Moura Júnior, a resposta não passa por tablets, redes wifi ou instalações luxuosas.

“Como toda escola pública, temos problemas”, confirma ele, 42 anos, há cinco meses no cargo e ainda professor de Biologia, ocupação que mantém desde 1999. 

O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco, em Recife, tirou 8,1, em um universo em que a nota média foi 3,9 nos anos finais do ensino fundamental. E não se trata de uma aventureira: a escola é tricampeã e dona do pódio do Ideb desde que foi avaliada pela primeira, em 2007. Isso em meio a ar condicionado que não funciona, alunos sem merenda e uma greve que já dura quase três meses.

Confira a entrevista abaixo para descobrir o que é afinal que a escola tem que estimula o desempenho excepcional de seus 411 estudantes da 6ª série do fundamental ao ensino médio e a deixa, inclusive, acima da maioria das particulares, que ficaram com 6 no Ideb. “Não tem um elemento mágico”, é o que garante o diretor.

EXAME.com – Afinal, a que senhor atribui a fórmula do sucesso do colégio?
Alfredo Matos –
Não é um fator apenas. É um conjunto: o próprio interesse e participação dos alunos nas aulas; a atuação do corpo docente instigando este aluno e tentando torná-lo mais crítico e reflexivo; e o suporte dado aos alunos em casa pelas famílias. São 3 fatores básicos que deveriam haver em todas as escolas. É por esta vertente que estamos analisando. Os professores tentam ser o mais abrangente possível e são interdisciplinares. A escola não procura isso (ser campeã), não vive ligada somente a índices e vestibular. Queremos que o aluno saia preparado para a vida e não somente para uma prova.

EXAME.com – É possível supor que a escola seja uma exceção no universo da rede pública e não enfrente nenhum problema em relação a recursos e materiais, correto?
Matos
– Como toda escola pública, temos problema de compra de material sim. É a gestão de uma instituição federal como outra qualquer. O processo de licitação de materiais é muito demorado, mesmo para lâmpadas e pincéis atômicos, coisas básicas que não deveriam ser difíceis. É comum o ar condicionado não funcionar. A manutenção é sempre um problema. Demora também a manutenção das goteiras, a troca de fechaduras, entre outras. E não tenho espaço físico para os professores. 

EXAME.com – No começo do ano, vocês ficaram sem merenda por mais de dois meses
Matos –
Estamos em negociação. Se a merenda for cortada mais uma vez, vai ser um problema. Era um convênio com a prefeitura que foi cortado. A prefeitura alega que somos (uma instituição) federal. Eu já conversei com o reitor sobre isso. A universidade assumiu o ônus este ano. É que o valor que o governo federal dá por aluno são centavos.

EXAME.com – Mas a escola está abastecida quando se trata de acesso à tecnologia para educação?
Matos –
Não adianta você ter internet wireless, iPads, iPods se você não tem discussão e contato entre professor e aluno. Muitas escolas vendem que você vai receber um tablet, mas se você der o aparato e não trabalhá-lo, não adianta de nada. Recursos tecnológicos são usados? Sim. As salas tem wireless há três anos e projetores multimídia desde este ano. Mas isso é fator que vai fazer o sucesso da escola? Não.

EXAME.com – Como os alunos fazem para entrar?
Matos –
O aluno entra basicamente no 6º ano. É um concurso público. Em média, inscrevem-se entre mil e dois mil candidatos para 55 vagas (mais do que a maioria dos cursos da UFPE). É só uma prova de português e outra de matemática.

EXAME.com – Conseguir a excelência é possível apenas com uma seleção muito rigorosa?
Matos –
Seleção não é o único fator. O corpo docente influencia muito. O nosso é muito qualificado: 31% são doutores, 47% mestres e aproximadamente 20% graduados. Quando você pega um corpo como esse, em que a maioria tem dedicação exclusiva, isso facilita as ações da escola e a integração de todos os componentes que a formam: alunos, funcionários, professores e as famílias.

EXAME.com – Há matérias diferenciadas na grade?
Matos –
A grade é a mesma das escolas de Recife: tem também teatro, francês, espanhol, música, desenho. A escola não tem um elemento mágico que as pessoas pensam que tem. É o trabalho do dia a dia.