4 previsões para novo governo Temer, segundo Prospectiva

Prospectiva afirma que Michel Temer terá que enfrentar divergências entre os partidos da base. Isso pode colocar o ajuste fiscal em xeque

São Paulo — Com a posse de Michel Temer (PMDB) na presidência e o impeachment de Dilma Rousseff (PT), a recuperação econômica do país será lenta, mas a inflação tende a diminuir. As divergências entre os partidos da base vão colocar o ajuste fiscal em xeque e a Lava Jato poderá atingir 11 ministros do atual governo.

É o que analisa a consultoria em negócios internacionais e políticas públicas Prospectiva. Segundo especialistas da empresa, os dois anos que restam para o governo Temer serão pouco para que o novo presidente consiga aprovar todas as mudanças previstas, entre elas a reforma eleitoral e soluções para gargalos de infraestrutura. No entanto, o novo presidente pode conseguir bons resultados no comércio exterior. 

Confira as projeções feitas pela Prospectiva:

Novo governo

De acordo com a consultoria, Michel Temer vinha atuando como presidente efetivo antes mesmo da aprovação do impeachment: ao alterar a estrutura da administração pública, nomear assessores da antiga oposição, trocar o slogan do governo e modificar políticas econômica e externa.

Com isso, a efetivação no cargo não deve provocar reformas nas diretrizes do governo, mas ele deve adotar medidas que as reforcem.

Mudanças no primeiro escalão podem acontecer nos ministérios da Saúde, Planejamento e Indústria.

O ministro Ricardo Barros (PP/PR), da Saúde, envolvido em declarações polêmicas desde a primeira semana do governo interino de Temer, pode dar lugar a um candidato indicado pelo próprio PP.

Dyogo Oliveira, do Planejamento, pode ser efetivado ou substituído por alguém com menor visibilidade política. Já o ministro Marcos Pereira (PRB/SP), da Indústria, pode perder o lugar para um indicado da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).

Divergências na base 

Temer vai enfrentar dificuldades para agradar os partidos da base, divididos entre aqueles que defendem o ajuste fiscal (183 deputados) e os que defendem a maior flexibilidade dos gastos públicos (217 deputados). Essa divergência deve colocar o ajuste fiscal em xeque e pode inviabilizar medidas que fazem parte do plano.

O líder do governo na Câmara, o deputado André Moura (PSC/SE) foi indicado por Eduardo Cunha (PMDB/RJ), mas não representa o grupo de legendas de centro e também não agrada Temer. Caso o novo presidente opte por substituir Moura, deve escolher um deputado do ”centrão” para não perder o apoio dos 214 parlamentares que compõem o bloco.

Lava Jato e investigações

A delação premiada da Odebrecht na operação Lava Jato da Polícia Federal poderá atingir 11 ministros de Temer, além dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Partidos da base aliada também podem ser afetados, em especial o PMDB. Segundo a consultoria, dificilmente as acusações devem afetar Temer uma vez que há fragilidade nos depoimentos já apresentados contra o presidente.

A presença de Gilmar Mendes – aliado de Temer – na presidência do Tribunal Superior Eleitoral deve inviabilizar uma decisão potencialmente nociva ao novo governo no julgamento das contas de campanha. O término do mandato da ministra Maria Thereza, relatora do processo, pode atrasar a análise do caso, que pode ainda ser levado para o STF, o que também retardaria a ação.

Crescimento tímido

Apesar do tom de otimismo do governo em relação à economia, a recuperação do país deve ser lenta, mas com queda da inflação. Em 2017, o crescimento do PIB deve ser da ordem de 1%. Já a inflação, apesar de cair, ainda deve ficar acima da meta do governo de 4,5%.

Já efetivado no cargo, Michel Temer vai poder propor medidas que, antes, poderiam inviabilizar sua posse, como, por exemplo, o fim da estabilidade para servidores públicos, o cancelamento das desonerações fiscais e a reforma da Previdência Social.

Caso o Congresso rejeite ou mude a PEC que proíbe o aumento das despesas públicas, dificilmente o governo Temer conseguirá sustentar as demais propostas do ajuste.

Um possível fracasso no controle de gastos pode ser compensado por bons resultados no comércio exterior. Mas, para isso, o governo terá de superar entraves à assinatura de acordos comerciais e o ceticismo em relação à abertura do mercado brasileiro.

De acordo com a Prospectiva, ele também enfrentará dificuldades no Mercosul por causa dos impasses sobre a escolha da presidência do bloco, o que pode levar ao adiamento de decisões.