Protestos ameaçam reta final da obra de Belo Monte

Manifestações têm atrapalhado o avanço da construção em dois trechos de linhas de transmissão que já enfrentavam atrasos

São Paulo – As obras de uma enorme linha de transmissão que vai levar a energia produzida na hidrelétrica de Belo Monte do Norte ao Sudeste do Brasil têm enfrentado protestos de moradores do interior do Pará, impactando o ritmo dos trabalhos, segundo a empresa responsável pelo chamado linhão.

As manifestações têm atrapalhado o avanço da construção em dois trechos que já enfrentavam atrasos, o que ameaça o cronograma do empreendimento, disse à Reuters o diretor de Meio Ambiente da Belo Monte Transmissora de Energia (BMTE), Newton Jordão Zerbini.

Ele explicou que a região em que as obras do linhão estão na reta final é alvo de protestos desde meados do ano passado, mas a situação se deteriorou recentemente e agora há bloqueios que chegam a interditar pontos da obra por dias. Segundo o executivo, houve protestos na terça-feira.

Formada pela chinesa State Grid e pela estatal federal Eletrobras para construir o linhão, a BMTE pediu ao Ministério de Minas e Energia que agende uma reunião com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça, para tratar da possibilidade de ter apoio da Força Nacional na liberação dos bloqueios.

“Já estamos no final da obra, e até então conseguimos levar, só que chegou em uma situação que, se continuar com esses embargos e demandas como está, a gente não consegue cumprir o cronograma”, afirmou Zerbini.

Com mais de 2 mil quilômetros de extensão e orçado em 4,5 bilhões de reais, o linhão que irá do Pará ao Rio de Janeiro precisa estar pronto por contrato em fevereiro de 2018.

Grande parte do empreendimento está perto da conclusão, mas dois dos oito trechos em que a obra foi dividida tiveram avanço mais lento e exigiram uma intervenção da BMTE, que mobilizou sete novas empreiteiras para acelerar os trabalhos nessas áreas e evitar um atraso.

Segundo Zerbini, cerca de 3 mil operários estão nesses trechos.

“A gente está com muita obra… então quando você tem um aumento da movimentação na região, as pessoas começam também a se mobilizar para pressionar e obter algumas coisas”, afirmou o executivo.

Segundo ele, os bloqueios e protestos são feitos por moradores de cidades do Pará como Pacajá e Novo Repartimento (leste do Estado), e as demandas dos manifestantes incluem melhorias na infraestrutura da região, recuperação de estradas e outras exigências, como obras de eletrificação do programa federal Luz Para Todos.

“São moradores, não é uma coisa articulada, não tem bandidos, são pessoas carentes da região… mas se você não cria um diálogo e faz alguma coisa (para parar os bloqueios) você não trabalha. Nosso foco muda, eu tenho que ter um controle da obra e na verdade estou há três dias tratando de Luz Para Todos, que não é obrigação nossa”, disse ele, indicando que tem perdido tempo para atender algumas demandas dos moradores.

Em apenas um dia neste mês, a BMTE chegou a registrar bloqueios em oito estradas de acesso à obra. Na terça-feira, havia três outros pontos com protestos.

De acordo com o diretor, alguns embargos chegam a desmobilizar por até dez dias equipes com quase 200 pessoas.

“Imagina um quantitativo desses, com gente, equipamento, tudo parado. Aí você tem que remobilizar esse pessoal… às vezes um dia parado custa uma semana de mobilização”, explicou.

Procurado, o Ministério de Minas e Energia disse que “está ciente da situação e está tratando do tema com a Casa Civil”. A pasta ressaltou, no entanto, que a competência para solicitar interferência da Força Nacional é do governador do Estado, e não do ministério.

A Reuters não conseguiu contato com moradores envolvidos nos protestos e bloqueios.

Belo Monte limitada?

A BMTE recebeu insistentes pedidos do governo para antecipar o cronograma de seu linhão, com a entrega da obra no final deste ano, uma data que ainda seria possível caso os problemas com as constantes paralisações sejam resolvidos rapidamente, segundo Zerbini.

“Tenho trechos concluídos, outros praticamente em conclusão, e esses dois trechos mais atrasados, então todo o foco hoje é nesses dois, para recuperar”, disse.

Ele afirmou que uma das medidas envolvidas nos esforços para entregar o linhão ao menos até fevereiro de 2018 incluem um pedido antecipado de licença ambiental de operação ao Ibama.

“A gente já fez o pedido… temos conversado com o Ibama para que ele analise a documentação”, afirmou.

A hidrelétrica de Belo Monte, orçada em mais de 30 bilhões de reais, iniciou operações em abril do ano passado.

A usina tem enviado a produção para o sistema elétrico por meio da rede existente no Pará, mas à medida que mais turbinas forem acionadas a usina poderá ter sua produção limitada devido à falta de capacidade de escoamento, caso o linhão da BMTE não esteja pronto.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já trabalha com a perspectiva de limitar a geração de Belo Monte até a conclusão do linhão.