Por que sustentabilidade é uma questão de inteligência

Mariana Fonseca

Em época de crise econômica, a fórmula de muitos executivos é realizar cortes em áreas aparentemente acessórias – e os aportes em gestão da sustentabilidade costumam figurar na lista.

Porém, ser sustentável não é apenas uma questão de manter um valor aparente da marca: é uma estratégia inteligente para alcançar o sucesso.

Esse é o pensamento de executivos como Flavia Neves, gerente de sustentabilidade da Coca-Cola; Guilherme Leal, co-presidente do conselho de administração da Natura; e Roberto Waack, presidente da Fundação Renova (que, entre outras atividades, faz a recuperação ambiental de Mariana, região de Minas Gerais que sofreu um grande desastre ambiental).

Os empresários debateram por que a sustentabilidade é tão essencial quanto o lucro em uma empresa durante o fórum A Revolução do Novo, realizado por EXAME e VEJA em parceria com Coca-Cola Brasil, no Instituto Tomie Ohtake (São Paulo).

O evento, que é o segundo de uma série de três, debate as mudanças na economia, na política, na tecnologia e na sociedade e seus efeitos nas empresas. O primeiro encontro, em janeiro, debateu a transformação das pessoas. E o terceiro vai discutir as mudanças no mundo.

Ser sustentável é ser estratégico

O momento que estamos vivendo mostra claramente que os modelos adotados até então não são sustentáveis, segundo Neves, da Coca-Cola. E a transformação deve partir das próprias pessoas.

“Não temos opção a não ser mudar e aumentar nossa consciência. A revolução nas empresas começa nas pessoas, porque toda empresa é feita de indivíduos. Nesse sentido, a crise é benéfica”, afirma.

E qual seria esse novo modelo? Para a empresária, é pensar na sustentabilidade não apenas como uma promessa que flutua ao sabor da recessão, mas como uma forma de fazer negócio e sedimentar os valores de uma empresa. “A crise passa, mas os nossos valores não. Por isso, na crise, devemos fortalecer essa agenda de sustentabilidade.”

Colaboração entre grandes e startups

Para conseguir tais inovações, muitas empresas fazem uma colaboração com pequenas empresas disruptivas – as startups. É o caso da Coca-Cola, por exemplo: a gigante possui uma cadeia produtiva de frutas, para a marca Del Valle, no Espírito Santo. Porém, a região sofre um grande estresse hídrico e muitas cooperativas parceiras enfrentavam problemas para produzir.

No lugar de simplesmente procurar um novo estado para comprar suas frutas, a Coca-Cola se uniu à startup Agrosmart, que é especializada em tecnologia para mensurar a umidade no campo.

“Com isso, pudemos reduzir em 30% o uso de água, e continuamos a comprar das cooperativas do Espírito Santo. É algo bom para ao meio ambiente, para a sociedade e para o nosso negócio”, ressalta Neves.

A importância do alto escalão

Porém, adotar estratégias sustentáveis só é possível após o convencimento da direção da empresa – desde sócios até acionistas e investidores.

“Essa decisão depende principalmente de como os investidores veem a relação entre o curto e o longo prazo. É preciso ter uma visão cada vez mais ampla de quais são as externalidades que uma organização pode causar, mesmo que o risco delas seja baixíssimo, como foi em Mariana”, diz Waack, da Fundação Renova.

Segundo o empresário, a visão do custo-benefício em longo prazo faz parte de uma “avenida de inovações”, que o contexto de melhor uso de recursos naturais e de mudanças climáticas passaram a fomentar.

“É aí que me parece haver o maior número de oportunidades para desenvolver o novo padrão das empresas. Mas, sem a participação profunda de quem coloca o capital e desenha a expectativa de retorno, como acionistas e investidores, esse jogo irá andar a uma velocidade menor do que deveria.”