Por que São Paulo sofre tanto com as chuvas do verão?

Este ano as chuvas de verão estão castigando São Paulo com ventos fortes, muitos raios e queda de árvores. Como resultado, milhares de paulistanos ficaram dias sem luz

São Paulo – Todo ano é a mesma coisa. Começa o mês de janeiro e com ele chegam as fortes chuvas no sudeste do Brasil. Na cidade de São Paulo, especialmente, a chegada da temporada de chuvas é sinônimo de enchentes, árvores caídas e muito (mais) trânsito.

Neste ano, junto com tudo isto, veio ainda a falta de luz que deixou moradores da capital sem fornecimento de energia elétrica por mais de 3 dias. 

Na última segunda-feira, o forte temporal que atingiu a capital deixou cerca de 800 mil casas sem energia elétrica, segundo a Eletropaulo. Ontem (15), a empresa afirmou que ainda haviam 170 mil clientes no escuro.

Segundo o vice-presidente de operações da empresa, Sidney Simonaggio, os grandes culpados por todo esse transtorno são os fortes ventos. No temporal de segunda-feira, os ventos chegaram a 85 km/h e derrubaram centenas de árvores pela cidade. 

Simonaggio ainda alega que a sequência de fortes temporais é inédita em São Paulo. “Estamos tomando pancadas fortes seguidamente, uma atrás da outra”, disse em entrevista à EXAME.com.

Por que tantas pessoas ficaram sem luz e por tanto tempo nestes dias de temporal?

De acordo com Simonaggio, a quantidade de ventos e raios que estão caindo na cidade é muito maior do que já aconteceu em outras ocasiões. Além de derrubar árvores – que caem sobre a rede elétrica e cortam o fornecimento -, os ventos danificam os fios de transmissão ao arremesar milhares de galhos e até mesmo folhas de zinco contra eles.

Segundo o funcionário da Eletropaulo, como o volume de danos foi muito maior do que a empresa – e a cidade – estava acostumada, o restabelecimento de energia está sendo mais lento. Ele afirma que todos os funcionários da Eletropaulo estão nas ruas trabalhando nas redes danificadas. “Até o técnico que ficava no escritório trabalhando em projetos está na rua religando a luz”, diz ele. 

Solução: Para o professor Valter Caldana Junior, que é diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, a fiação elétrica de São Paulo deveria ser toda subterrânea. “É um absurdo a rede elétrica da cidade ainda ser aérea. Isso gera problemas de saúde, de manutenção e de fornecimento – além de piorar a paisagem urbana”, diz. 

“Comparando o custo do enterramento com o prejuízo que se tem nos dias em que o fornecimento de energia é interrompido por conta de danos na fiação, vê-se que não é uma questão técnica, é política”, afirma Caldana Junior. 

O vice-presidente da Eletropaulo afirma que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) define que o padrão de rede a ser utilizado nacionalmente é aéreo. 

Neste momento, a Aneel está com uma consulta pública aberta para colher subsídios para decidir como se dará a transformação do programa de rede aérea em rede subterrânea. No entanto, Simonaggio afirma que não será possível enterrar todos os fios da cidade de São Paulo.

“É muito caro. A rede subterrânea é só para lugares que têm alta densidade de consumo”, diz.

Ele calcula que, para a Eletropaulo, o custo para enterrar a fiação ficaria 16 vezes mais caro do que o de manter a rede aérea e seria inviável repassar todo este custo para a tarifa paga pelo consumidor e pelas indústrias.

Por que tantas árvores caíram?

Do dia 29 de dezembro para cá mais de mil árvores foram derrubadas pelos fortes ventos em São Paulo. Segundo a prefeitura da cidade, isto é mais do que é esperado para um ano inteiro. Além disso, dois terços delas eram árvores boas, que não estavam podres. 

Solução: Segundo o vice-presidente da Eletropaulo, é preciso repensar o parque arbóreo da cidade. “Não dá para sair plantando árvore sem zelar pelo tamanho que elas vão ter no futuro. Não dá, por exemplo, para plantar um coqueiro na calçada da sua casa”, diz Simonaggio. 

Por que a cidade continua tendo enchentes?

Quem mora em São Paulo aprende a fugir das ruas que enchem de água quando a chuva vem forte. Por mais que a prefeitura diga que vai resolver o problema, verão após verão as cenas se repetem. 

De acordo com o professor Valter Caldana Junior, o motivo é simples: há um congestionamento de águas na cidade. “A velocidade do escoamento das águas das chuvas é muito maior que a velocidade do rio Tietê, que é para onde todas as águas da cidade correm. É isso que causa os alagamentos”, diz o professor.

Caldana Junior explica que o trecho urbano do rio Tietê passa por uma região muito plana e por isso ele é muito lento. Além disso, como ao longo do século 20 a cidade foi sendo totalmente impermeabilizada com asfalto e com a retirada de árvores, a velocidade do escoamento da água da chuva (que deixou de ser absorvida pelo solo) aumentou. 

Solução: Segundo o professor, não adianta fazer piscinões para evitar as enchentes. A solução seria promover a reinfiltração das águas nos solos para reduzir a velocidade de chegada das águas aos rios e córregos da cidade.