Palocci: “socorro” a empresas era usado no “limite” da lei

"Foi assim, por exemplo, na crise de 2008 (segunda administração de Lula). O governo salvou empresas", afirmou o ministro.

São Paulo – Na audiência desta quinta-feira, 20, em que foi interrogado pelo juiz federal Sérgio Moro como réu em ação penal da Operação Lava Jato, o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antônio Palocci dedicou alguns minutos – até ser interrompido pelo magistrado – ao “socorro” que o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestava a empresas.

“Foi assim, por exemplo, na crise de 2008 (segunda administração de Lula). O governo salvou empresas. O sr. vai falar ‘Isso é uma prática normal do governo?’. Eu digo não. São práticas emergenciais em que se usa o limite do limite da lei para salvar empresas e ativos do País. Então, nós fizemos, na construção civil, com redução de impostos e grandes ganhos para o País.”

Nesta ação, Palocci tem a companhia, no banco dos réus, do empreiteiro Marcelo Odebrecht e do casal João Santana e Mônica Moura, marqueteiros das campanhas presidenciais do ex-presidente (2006) e da ex-presidente Dilma Rousseff (2010-2014) – o empresário, condenado a 19 anos e 4 meses de prisão; os publicitários, a 8 anos e 4 meses.

No interrogatório, o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil respondia às indagações sobre o suposto papel de captador de propinas milionárias da Odebrecht para abastecer o caixa do PT – uma planilha apreendida na empreiteira indica o repasse de pelo menos R$ 128 milhões para o codinome “Italiano”, que a força-tarefa da operação sustenta ser Palocci, o que ele nega taxativamente.

“Jamais faria isso. Eu fui ministro da Fazenda”, afirmou, ao ser indagado sobre pagamentos na campanha presidencial de 2010. Palocci negou, “peremptoriamente”, a Moro que tenha operado recursos de campanha no exterior. Na audiência, o advogado dele, o criminalista José Roberto Batochio, fez a pergunta. “O sr. interferiu, gerenciou, administrou, autorizou qualquer pagamento na campanha de 2010 no exterior?”

“Absolutamente, não, digo de forma peremptória”, respondeu. Batochio insistiu. “Isso se aplica a João Santana, Mônica Moura ou qualquer fornecedor de qualquer campanha?

Palocci foi incisivo. “Isso se aplica a João Santana, Mônica Moura. Eu nunca tratei onde seria pago, com ninguém, ninguém.”

Santana e Mônica fecharam acordo de delação premiada. Na segunda-feira, 16, o marqueteiro declarou ao juiz federal que se encontrou com o Palocci no Palácio do Planalto, quando Lula era presidente, e que o então ministro o apresentou à empreiteira. De acordo com Santana, Palocci o avisou que a Odebrecht pagaria a agência de publicidade dele no exterior.

“Eu não operava recursos de campanha”, negou o ex-ministro da Fazenda nesta quinta-feira, 20. “De qualquer fornecedor, de qualquer campanha. Primeiro, que eu nunca tratei onde seria pago. Então, esse assunto nunca apareceu para mim onde pagar.” Então, falou sobre as relações da gestão do PT com as empresas. “O governo, muitas vezes, salva empresas.”

“Mas, sr. Palocci, isso não é objeto da acusação”, interrompeu Moro. O ex-ministro insistiu e aí revelou a estratégia de defesa para justificar a proximidade com a empreiteira que escalou 77 executivos para delatar propinas pelo País afora.

“É que nesse mesmo período, quero comparar porque nesse mesmo período a Braskem (braço petroquímico da Odebrecht) nos procurou para pedir apoio técnico. Se uma empresa pudesse pedir uma coisa nessa época, era a Odebrecht. Ela tinha um relacionamento muito grande com o governo. Era uma época de crise. A Braskem estava quase quebrada.”

Em outro trecho do relato, Palocci admitiu como fazia a abordagem. “Sempre dizia para o empresário: ‘Olha atenda o tesoureiro da campanha, atenda’ veja se você pode ajudá-lo'”, confessou.

“Evidentemente, eu pedia recursos para as empresas acreditando que elas iriam tratar da melhor maneira possível. Eu falava, inclusive: ‘Olha, vou falar para o tesoureiro levar os recibos, os bônus para você contribuir’, sempre falei nesses termos.”

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