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Última atualização 23/05/2017 - 15:29 FONTE

O ano em que o setor artístico foi foco de resistência ao governo

A sequência cinematográfica começa com a decisão de encolhimento do Ministério da Cultura e termina em um escândalo político

São Paulo – A cultura viveu um ano de fortes emoções. Ao mesmo tempo em que teve sua casa maior, o Ministério da Cultura (MinC), desprestigiada pelo governo Temer logo no início de sua gestão, quando veio a ordem de reduzi-la a secretaria e abrigá-la encolhida sob o guarda-chuva do Ministério da Educação, o seguimento cultural demonstrou uma força de mobilização sem precedentes. Nem Temer esperava tanto barulho.

O mesmo ano em que a cultura desceu ao posto mais baixo desde os anos 1980 – o MinC foi criado pelo presidente José Sarney em 1985 – refletiu uma consciência reivindicatória poderosa. Mexer com a cultura não será mais um ato invisível depois de 2016.

Desgastado pelo bombardeio disparado contra sua medida em um País pós-impeachment ainda em chamas, Michel Temer foi obrigado a voltar duas casas e a retomar a existência do MinC.

Depois de penar em busca de um nome que aceitasse conduzir a pasta ressuscitada, conseguiu um jovem de discurso conciliador chamado Marcelo Calero, um diplomata para quem a oposição e muitos artistas olharam torto.

Enquanto a Polícia Federal investigava uma fraude de R$ 180 milhões de verbas conseguidas via Lei Rouanet para custear festas privadas para grandes empresas, Calero se reunia com lideranças de peso com o lenço branco em mãos.

Começou a ganhar confiança e a dar sinais de reaproximação até eclodir mais um elemento-surpresa: Calero tinha caráter demais, não sabia brincar de política.

O Ministério da Cultura voltou às manchetes dos jornais no dia 18 de novembro, quando Calero pediu demissão acusando o então ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, de tê-lo pressionado a liberar a construção de um arranha-céu em Salvador em uma área tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional).

Geddel havia comprado um apartamento no edifício – algo que, obviamente, julgava ser mais importante do que a preservação de uma área histórica.

Calero disse não e não arredou o pé, mesmo sob pressão. Avisou Temer do pedido, mas não sentiu-se seguro. Então, lembrou-se do único bem que deveria ser inegociável a um homem, o próprio nome, e saiu de cena antes de sujar as mãos. Geddel caiu seis dias depois.

A cultura, essa filha rebelde e indomável, já havia causado problemas demais. Depois de ser pivô da maior cisão entre artistas e governo desde o final da ditadura, deveria, desta vez, parar em mãos que não oferecessem mais ao Planalto os inconvenientes riscos da surpresa.

Mesmo sem uma política cultural definida e nenhuma experiência no setor, o aliado de Temer, Roberto Freire (PPS), que já havia defendido o encolhimento do modelo ministério para o de secretaria, aceitou a função analgésica de líder da pasta mais enferma.

O plano-sequência cinematográfico que começa com a decisão de encolhimento do MinC e termina em um escândalo político com a derrubada de um ministro, sucessivo ao ambiente de indignação de parte majoritária de uma classe que não reconhece Temer como um líder legítimo, levanta a muralha mais alta.

Mais forte do que a própria oposição de um PT em farrapos, ao qual resta apostar na corrosão das memórias, os artistas alinhados entoam “Fora Temer” em seus shows e fazem apresentações em espaços ocupados.

Com o espírito bélico, Chico Buarque mandou retirar sua música Roda Viva da trilha sonora do programa de mesmo nome da TV Cultura depois de uma entrevista com o presidente.

Antes da estreia da Bienal de Artes, em São Paulo, artistas exibiram faixas de “Fora Temer” no Parque do Ibirapuera.

O cinema mostrou suas armas em Cannes. Em maio, parte do elenco e o diretor de Aquarius, Kleber Mendonça Filho, protestaram durante a estreia do longa. “Um golpe ocorreu no Brasil” e “resistiremos” foram algumas das mensagens escritas nos cartazes.

O filme considerado um dos melhores da temporada se tornou símbolo de resistência em um ano que, para a cultura, não vai terminar no dia 31. (Colaboraram Antonio Gonçalves Filho, Guilherme Sobota, Luiz Carlos Merten e Ubiratan Brasil)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.