São Paulo – Estar no topo da pirâmide social no Norte ou Nordeste do Brasil sai bem mais barato do que ocupar a mesma posição no Sul ou Sudeste. Nessas últimas, uma família muito rica com quatro pessoas teria que gastar quase 250 mil reais por ano para ter um estilo de vida entre os mais abonados, enquanto é possível manter o mesmo padrão gastando “apenas” 197 mil reais no Norte e Nordeste.

A simulação foi feita por EXAME.com em uma ferramenta disponível na internet que dita as novas classes sociais do país

Ela foi desenvolvida a partir do estudo “Estratificação Socioeconômica e Consumo no Brasil”, que estipula sete estratos na sociedade brasileira, do mais pobre ao mais rico.

Eles passarão a ser utilizados por todos os institutos de pesquisa a partir de 2014. Será, oficialmente, a divisão adotada pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep).

Os números da simulação mostram também a diferença do orçamento para estar entre os mais ricos nas capitais ou no interior do país. Uma família de quatro pessoas no interior do Sudeste gastaria até 36% mais se decidisse se mudar para alguma capital na mesma região. No Nordeste, a diferença chega a quase 50% (veja ao final a tabela comparativa entre regiões e descubra seu estrato social).

As novas classes não têm nomes: os autores chamam de 1 a mais alta e de 7 a mais baixa. Quiseram, assim, evitar qualquer conotação política, particularmente no conceito de classe média, que rende muita dor de cabeça ao governo.

A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República define classe média apenas pelos ganhos monetários. Incluem-se aquelas pessoas cujas famílias recebam entre $ 291 e R$ 1.019 por pessoa, por mês.

Na prática, porém, quem ganha três mil reais consegue manter um padrão de vida muito distinto em São Paulo ou Manaus. O mesmo vale para quem mora no interior do Piauí ou do Rio Grande do Sul.

Com isso em mente, os pesquisadores Wagner Kamakura, da Universidade de Rice, nos Estados Unidos, e José Afonso Mazzon, da USP, adotaram o conceito de renda permanente, que considera a capacidade da pessoa de se manter no mesmo estrato social. 

Quer dizer: uma diminuição súbita na renda não necessariamente se traduz em piora na qualidade de vida se a pessoa já tem muitos bens e vive em um bom lugar.

Confira abaixo simulações de EXAME.com feitas para uma família hipotética formada por um casal e dois filhos, chegando-se ao resultado de que elas estão nos extremos do país - estratos 1 e 7 - ou no meio, estrato 4 (os critérios da simulação são explicados ao final). Assim fica a estimativa de consumo para cada uma delas:

    Gastos da Família Classe 1 (mais rica) - por ano Gastos da Família Classe 4 (média) - por ano Gastos da Família Classe 7 (mais pobre) - por ano
Sul e Sudeste Capital R$ 246.533 R$ 37.718 R$ 11.272
  Interior R$ 181.079 R$ 37.351 R$ 10.912
  Gasto a mais na capital (em %) 36,1 1,0 3,3
Norte e Nordeste Capital R$ 197.853 R$ 33.429 R$ 10.224
  Interior R$ 132.399 R$ 33.062 R$ 9.864
  Gastos a mais na capital (em %) 49,44 1,11 3,65
Centro-Oeste Capital R$ 218.261 R$ 36.180 R$ 10.950
  Interior R$ 152.807 R$ 35.813 R$ 10.590
  Gastos a mais na capital (em %) 42,8 1,0 3,4

Os números mostram que, para uma família de classe média ou muito pobre, mudar do interior para a capital não aumenta tanto os gastos quanto para os mais ricos. A diferença é de cerca de 1% no estrato 4.

A definição das classes levou em consideração a presença de determinados eletrodomésticos na casa, a existência de serviços públicos básicos (como esgoto, água e asfalto) e o número de dormitórios e banheiros sob a perspectiva de quantas pessoas vivem na casa.

Para descobrir o próprio estrato social, os interessados devem responder a uma série de perguntas.

Abaixo, como as gastos estimados em cada classe se comparam entre as regiões, com base nos valores em reais da primeira tabela:

Comparação de gastos entre regiões   Família estrato 1 (mais rica) - em % Família estrato 4 (média) - em % Família estrato 7 (mais pobre) - em %
Sul e Sud./Norte e Nord. Capital 24,6 12,83 10,25
  Interior 36,77 12,97 10,62
Sul e Sud./Centro-Oeste Capital 12,95 4,25 2,94
  Interior 18,5 4,29 3,04
Centro-Oeste/Norte e Nord. Capital 10,31 8,23 7,10
  Interior 15,41 8,32 7,36

Também entre as regiões, a distância entre os gastos de uma mesma classe é maior entre os mais ricos, sendo 24,6% superior para uma família do estrato 1 de uma capital do Sudeste comparada ao orçamento de outra do Nordeste. Nesses mesmos locais, a diferença cai pela metade para as famílias dos demais estratos comparados.

A pesquisa
A nova delimitação utiliza os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares, do IBGE, que detalha as receitas e gastos dos brasileiros de forma comprovada, e não apenas declarada.

Os dados do IBGE permitiram dividir os gastos esperados de cada classe social a partir das regiões, além do local de moradia.

“O que nós fazemos é dizer: ‘está aqui seu padrão de consumo, típico de uma família como a sua, na sua região, tipo de domicílio e estrato social’. Aí você pode comparar com famílias nos outros estratos, ou no mesmo estrato, mas em outras regiões”, explica Wagner Kamakura, um dos autores da pesquisa.

Utilizar apenas o critério de renda para definir classes sociais - o que foi evitado no estudo - é considerado insatisfatório por vários especialistas.

É possível, por exemplo, que uma pessoa aposentada, no dia seguinte à saída do trabalho, sofra uma diminuição na renda mensal. Mas, tendo ela já um imóvel quitado, carros e bens eletrodomésticos pagos, não terá uma queda na classe social como ocorreria se fosse apenas considerada a renda, em que ela passaria a ocupar o mesmo lugar de pessoas com menos bens.

Ao contrário do critério adotado hoje pelos institutos de pesquisa, considerar se uma pessoa vive em um apartamento de um ou quatro quartos pode gerar distorções. Afinal, tudo vai depender do número de pessoas que vivem na casa.

A nova divisão, além do mais, relativiza o acesso a bens, que varia por região.

“A incidência de empregados domésticos nos lares do Nordeste é maior do que no Sudeste. Logo, o impacto dele para definir se uma pessoa é do estrato mais alto é mais forte no Sul e Sudeste. Ou seja, indiretamente, o peso de empregados é menor no Norte e Nordeste”, explica Wagner Kamakura, da Universidade de Rice. 

Critérios da simulação
Na ferramenta, EXAME.com simulou os gastos de uma família formada por dois adultos e duas crianças que pertencem às classes 1 (mais alta), 4 (média) e 7 (muito baixa). A simulação foi respondida da seguinte maneira:

No caso da mais rica (7), adotou-se: renda de mais de 20 mil reais; casa com 4 ou mais banheiros; uma secadora de roupa; uma antena parabólica; purificador de água; 4 ou mais dormitórios em casa, água encanada, rua pavimentada, esgoto; chefe de família com 15 anos ou mais de estudo, 2 lavadoras de louça, 2 micro-ondas, 3 freezers e 3 refrigeradores.

Média (4): renda entre 2 e 3 mil reais; chefe da família com 8 a 10 anos de estudo; 2 banheiros em casa; uma antena parabólica; sem secadora de roupa; sem purificador de agua; dois dormitórios em casa; rua pavimentada; água encanada; um micro-ondas; sem aspirador de pó; um filtro de água; uma TV a cores; um fogão e um refrigerador.

Baixa (7): renda de menos de 500 reais; casa sem esgoto; um banheiro; de 0 a 3 anos de estudo do chefe da família; sem purificador de água; com água encanada; sem antena parabólica; sem secadora; sem filtro de água; um fogão; um refrigerador, uma TV e sem liquidificador.

Tópicos: Classe A, Classe C, Classe E, Classe média, Custo de vida, Nordeste, Norte, Qualidade de vida, Sudeste, Sul