São Paulo – Fato inegável que a manifestação do último domingo (13) deixou clara a insatisfação de boa parte da população com o governo da presidente Dilma Rousseff. A cidade de São Paulo registrou o maior ato político de sua história, com 500 mil pessoas na Avenida Paulista, segundo dados do instituto Datafolha, e 1,4 milhão, de acordo com a Polícia Militar.

Chamou atenção, também, a recepção hostil por parte de alguns manifestantes na chegada do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) e do senador Aécio Neves (PSDB) ao ato, considerando que são ícones da oposição que briga pelo impeachment. Por tentarem “pegar para si” o movimento, os tucanos foram chamados de “oportunistas”.

O que acontece para que o brasileiro não se sinta representado nem por situação, nem oposição? Ou qualquer partido, por assim dizer?

Para analistas políticos consultados por EXAME.com, a sociedade e os políticos brasileiros há tempos vivem um “divórcio”.

Entram na lista de insatisfações os aumentos tributários sem retorno, alianças escusas em período eleitoral e a multiplicação dos escândalos de corrupção.

“A distância entre os interesses políticos e da sociedade foram evidenciados pela vaia à oposição, mas por aí se nota um questionamento à política como um todo”, afirma Marco Antonio Teixeira, professor do departamento de Gestão Pública da FGV de São Paulo. “Hoje, existem muitas ferramentas de denúncia. Não há nada que os políticos façam que o eleitor não fique sabendo.”

A gota que transbordou o balde da paciência do eleitorado, no entanto, foi a questão programática — em que o eleitor não vê nas atitudes de seus políticos escolhidos as pautas prometidas. Caso clássico foram as promessas de Dilma em sua campanha para uma saída à esquerda da ameaça de crise, rechaçando o aumento de impostos e do desemprego.

“Os partidos políticos, hoje, não têm uma linha programática que seguem em todos os cantos do Brasil”, diz César Alexandre Carvalho, analista político da CAC Consultoria. "No fim, a ideia é chegar ao poder e se manter lá. A ideologia é mais o marketing que se vende da propaganda para vencer a eleição. Depois, é usar a máquina publica para ficar lá."

Desde a redemocratização do país, a frenética criação de novas legendas afastou ainda mais o eleitorado do universo político. “Como criar uma identidade se esses partidos fazem coligações e alianças bagunçadas, com mistura de ideologias na mesma chapa?”, questiona.

Para o consultor, só com menos partidos, a questão de diferenças partidárias ficaria mais evidente e tornaria fácil a escolha de uma legenda adequada para o eleitor. “Para se identificar com apenas um dos 35 que se cruzam em vários momentos, é complicado. O ideal era 4 ou 5, fica muito mais fácil escolher um lado.“

Para Marco Antonio Teixeira, da FGV, somaria-se a isso uma revisão da forma de fazer política, com mecanismos de vigilância das propostas em que o brasileiro não se sinta traído pelas decisões do governo. De acordo com ele, é preciso empoderar o eleitor para que ele saiba o que fazem com seu voto. 

"Só chegaremos lá com políticas de transparência e cobrança de responsabilidade de autoridades públicas”, diz. “Os políticos têm que saber que todas as suas atitudes terão consequências.”

AQUELES 2%

A comprovação de que relação eleitor/partido se perdeu é o resultado de pesquisa do Ibope Inteligência, divulgada na última semana, em que apenas 2% dos brasileiros conseguiam dizer o número de partidos existentes sem errar.

Com os recentes registros do Partido Novo, Partido da Mulher Brasileira e a Rede Sustentabilidade, o plantel de partidos chegou a 35 unidades. Para 80% dos entrevistados, a quantidade é vista como negativa. Consideram essa quantidade positiva apenas 12% — o restante mostrou-se neutro.

Como visto, esse tema é sensível a boa parte dos analistas políticos ao propor soluções para aumentar a representatividade. Uma redução do número de legendas, além de parecer a solução acertada, foi aprovada por 77% dos entrevistados pelo Ibope.

Outro fator de grande valia para todos é que uma redução do número de siglas poderia gerar uma economia real no repasse de dinheiro público para compor o caixa de Fundo Partidário.

Em 2015, o Congresso triplicou a verba destinada ao Fundo Partidário no Orçamento da União, para R$ 867 milhões. O projeto foi sancionado por Dilma Rousseff e repetido na folha de pagamentos de 2016, com R$ 819 milhões destinados aos políticos.

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